Escreva para expressar, não para impressionar.

Mudança na vida e em histórias de ficção

Por Shawn Coyne em 20/03/2020 Tópicos: Dicas, Escrever Ficção, Inspiração
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No seu excelente livro “The Examined Life: How We Lose and Find Ourselves”, o psicanalista Stephen Grosz conta a história de Marissa Panigrosso, que trabalhava no nonagésimo oitavo andar da torre sul do World Trade Center.

Ela lembra que quando o primeiro avião atingiu a torre norte em 11 de Setembro de 2001, uma onda de ar quente entrou através da janela de vidro com a mesma intensidade de quando se abre um forno de pizza.

Ela não hesitou. Não pegou sua bolsa, não telefonou para ninguém e não desligou seu computador. Ela correu o mais rápido que pôde para a saída de emergência mais próxima, empurrou a porta e começou sua descida de noventa e oito andares pelas escadas.

O que ela achou curioso é que muitas pessoas decidiram ficar exatamente onde estavam. Algumas ligaram para clientes e, surpreendentemente, um grupo de colegas foi para uma reunião que estava marcada para aquela manhã.

Por que eles escolheram ficar em um local tão vulnerável, em circunstâncias tão extremas?

Porque eles são seres humanos e seres humanos consideram mudança algo extremamente difícil, praticamente impossível. Sair do escritório sem receber instruções para fazer isso era um risco. Quais eram as chances reais de outro avião atingir a torre onde eles estavam?

E se eles deixassem o escritório, será que os seus colegas não pensariam que eles estavam exagerando, fugindo por estarem com medo? Certamente, a decisão mais sensata que alguém poderia tomar era permanecer calmo e esperar por ajuda, equilibrado como um adulto. E foi isso o que eles fizeram. Eu provavelmente teria feito o mesmo.

Grosz sugere que as pessoas na torre sul não deixaram o prédio imediatamente porque elas não tinham uma história familiar em suas mentes para guiá-las naquela situação.

Nós somos veementemente fiéis a nossa visão de mundo, a nossa história.

Nós queremos saber em que história nova nós estamos entrando antes de deixar nossa história atual. Nós não queremos uma saída se não sabemos exatamente para onde ela vai nos levar, mesmo em – ou talvez especialmente em – uma emergência. Isto funciona assim, apresso-me em acrescentar, não importa se somos pacientes ou psicanalistas.

Mesmo entre as pessoas que decidiram sair, algumas delas voltaram ao andar do seu escritório para pegar objetos pessoais que elas não conseguiam imaginar perder. Uma mulher estava descendo as escadas de emergência com Marissa Panigrosso, até que ela parou, deu meia volta e começou a subir as escadas para pegar as fotos de bebês dos seus filhos que estavam sobre sua mesa. Perder essas fotos era demais para ela. Sua decisão foi fatal.

Quando nos encontramos em circunstâncias caóticas, nosso impulso é nos mantermos seguros fazendo o que já fizemos antes. Mudar nossa forma de agir nos parece mais arriscado do que seguir em frente. Mudar qualquer coisa nas nossas vidas, mesmo a pasta de dente que a gente usa, causa grande ansiedade.

A gente só se convence a mudar escutando histórias de outras pessoas que arriscaram e triunfaram.

Não um triunfo fácil, mas um que tenha exigido muita luta e tenha exigido toda a força de vontade do protagonista. Porque é isso que é necessário na vida real para abandonar uma relação disfuncional, se mudar para uma nova cidade, ou pedir demissão.

Acredito que pensamos assim porque mudança traz um senso de perda. E a possibilidade de perda é muito mais poderosa que o potencial de ganho. É difícil imaginar como uma mudança vai nos afetar. É por isso que nós precisamos de histórias tão desesperadamente.

Histórias nos dão roteiros para seguir.

É como os garotos jovens que escutam uma história sobre como um órfão em Baltimore se dedicou ao amor que tinha pelo jogo, e acabou se tornando o maior jogador de baseball de todos os tempos. Se George Herman Ruth conseguiu encontrar sua carreira e ser bem sucedido vindo de um contexto tão humilde, então talvez eles também possam se tornar jogadores da liga de baseball.

Nós precisamos de histórias para acalmar nossas ansiedades, seja como uma mensagem de apoio para nos mantermos como somos, ou como um roteiro de viagens para nos inspirar a arriscar. Ao nos envolvermos com histórias que contam sobre um protagonista com quem a gente pode empatizar, ganhamos coragem para examinar nossas próprias vidas e mudá-las.

Então se sua história não muda o personagem principal irrevogavelmente do início ao fim, as pessoas não vão se importar com ela. Talvez a história as entretenha, mas vai ter pouco impacto. Ela será esquecida. Nós queremos personagens em histórias que enfrentam uma infinidade de desafios para mudar suas vidas e, de alguma forma, são bem sucedidos e ganham uma experiência inestimável.

Histórias nos dão a coragem para agir quando nos encontramos diante de circunstâncias confusas que requerem determinação. Essas circunstâncias são chamadas de CONFLITOS. O que a gente faz e o que a gente não faz diante de um conflito é o motor da arte de contar histórias.

Shawn Coyne autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

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Sobre o Autor

Shawn CoyneLer todos os textos de Shawn Coyne
Shawn Coyne é editor e co-fundador da editora Black Irish Books. Em seu livro "The Story Grid" ele apresenta técnicas desenvolvidas nos seus 25 anos de carreira para ajudar escritores a se tornarem seus próprios editores. O escritor autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

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