Escreva para expressar, não para impressionar.

Narrador e Foco Narrativo

Por Diego Schutt em 12/02/2020 Tópicos: Dicas, Escrever Ficção, Ser Escritor, Técnicas
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Narrativa é o conjunto de informações que o escritor decide incluir em cada momento do texto e a forma como ele as ordena em uma sequência específica para criar uma determinada experiência de leitura.

A orquestração dos eventos do enredo, as informações compartilhadas sobre os personagens e o universo de ficção, o ritmo do texto, o que é revelado, retido e escondido em cada momento têm como objetivo evocar certas emoções e pensamentos no leitor, de forma a intensificar o efeito dramático de cada passagem da narrativa e acrescentam textura e profundidade à história.

O foco narrativo é o ponto de vista a partir do qual o narrador conta a história. Ele pode ser na primeira pessoa, segunda pessoa, terceira pessoa ou uma combinação dessas opções.

O narrador pode ser um ou mais personagens ou pode ser uma entidade abstrata que o escritor cria para narrá-la. A escolha do ponto de vista determina o conhecimento do narrador sobre a história e os limites dos tipos de informações que ele pode revelar.

O melhor foco narrativo para seu texto é aquele que oferece a perspectiva mais interessante sobre o universo de ficção. 

Outro exercício interessante é considerar como o narrador está tratando o leitor. Como um amigo próximo? Como um terapeuta? Como um confidente? Como um estranho que acabou de conhecer? Como uma autoridade policial?

Criar um interlocutor imaginário pode ajudar você a decidir que informações o personagem vai revelar, em que ordem, com que intenção, em que tom, com que linguagem. Esse exercício pode ajudar você a considerar diferentes possibilidades de construção da narrativa.

Narrador na Primeira-Pessoa

Uma história na primeira pessoa tem como narrador um personagem que participa ativamente da história ou apenas a reconta do seu ponto de vista. Esse narrador, que pode ou não ser o protagonista, pode compartilhar seus pensamentos e emoções ao longo do texto, mas não conhece (e portanto não pode compartilhar) os pensamentos e emoções de outros personagens. O grande desafio no uso deste foco narrativo é a criação de uma voz autêntica para o personagem que está contanto a história . Como ele pensa e fala? Que palavras e expressões fazem parte do seu vocabulário? Ele se expressa de forma clara e objetiva ou confusa e abstrata? Ele usa gírias ou tem certos vícios de linguagem?

A narrativa na primeira-pessoa tem o potencial de aprofundar o conhecimento do leitor sobre o personagem-narrador, já que a forma como ele escolhe narrar os acontecimentos do enredo e como ele descreve e interpreta os comportamentos de outros personagens revela muito sobre sua personalidade. Além disso, suas falas ganham um status de autenticidade, já que não existe um narrador anônimo intermediando o contato do leitor com o personagem, como na narrativa na terceira pessoa. O foco da narrativa na primeira pessoa é influenciar o leitor a interpretar a história a partir do ponto de vista deste personagem.

Ao usar o foco narrativo na primeira pessoa, o escritor pode lançar mão da técnica contar para mostrar. Uma experiência que na descrição resumida de um narrador na terceira pessoa teria apenas uma dimensão de significado, ao ser narrada pelo próprio personagem tem o potencial de mostrar ao leitor outras dimensões do personagem, criando um senso maior de proximidade com ele.

Narrador na Terceira-Pessoa

Uma história na terceira pessoa é contada por um narrador-observador que não participa da história, com a prevalência do uso do pronome “ele/ela”. Em vez de um personagem, o escritor cria uma entidade abstrata que intermedia o contato do leitor com o universo de ficção. O escritor não precisa se limitar a narrar a partir do ponto de vista de um único personagem e pode apresentar diferentes percepções sobre os acontecimentos do enredo ao longo do texto.

O narrador na terceira-pessoa pode ser objetivo (quando registra apenas o que está acontecendo externamente, sem menções às emoções e pensamentos de nenhum personagem), seletivo (quando expressa onisciência em relação a apenas um personagem, estando limitado a compartilhar a experiência desse personagem em particular), universal (quando expressa onisciência em relação a vários personagens, podendo, assim, compartilhar diferentes pontos de vista sobre os acontecimentos da história).

O tom do narrador na terceira pessoa pode variar entre neutro (ele conta a história sem fazer comentários sobre o que está narrando) e crítico (quando além de narrar, ele também comenta o que pensa sobre diferentes aspectos da história). O foco da narrativa na terceira-pessoa é permitir que o leitor tenha uma visão mais plural da história (no uso de um narrador universal), mais imparcial sobre os acontecimentos (no uso de um narrador objetivo) ou mais profunda sobre um personagem (no uso de um narrador seletivo). Esse foco narrativo oferece mais flexibilidade para o escritor entrar e sair da mente dos personagens, e para narrar detalhes da história de uma forma mais vívida, que poderia soar artificial em uma narrativa na primeira pessoa.

Narrador na Segunda-Pessoa

Uma história na segunda-pessoa rompe a barreira invisível que separa o leitor do universo da história, criando a ilusão de que o escritor está falando diretamente com ele ou o tratando como um personagem que deve aceitar seu papel na história passivamente.

O narrador usa predominantemente os pronomes você/tu/nós. O foco da narrativa na segunda-pessoa é permitir que o leitor se sinta mais imerso na história, diminuindo a distância entre ele e o narrador. Esse foco narrativo é incomum e difícil de desenvolver porque cria certo estranhamento no leitor.

Narrador Alternado

Alguns escritores optam por narrar na terceira e na primeira pessoa em uma única história, alternando entre um narrador onisciente, mais distante, e um narrador-personagem, mais próximo. Outros escritores usam apenas a narrativa na primeira pessoa, alternando entre dois ou mais personagens-narradores. Uma história que alterna entre diferentes narradores permite ao leitor descobrir diferentes pontos de vista sobre o universo de ficção e compará-los para tirar suas próprias conclusões sobre o que está sendo narrado.

Outro ponto interessante a se considerar é para quem o narrador está contando a história. Para um teatro lotado? Para sua mãe? Para uma amiga? Para um grupo de freiras? Para crianças? Para seu psicólogo? Para um padre? Para um estranho? Pense em como o tom e a linguagem do texto poderiam ser diferentes dependendo dessa escolha.

Ainda que o leitor não esteja ciente a quem o narrador está dirigindo sua história, o exercício de imaginar seu interlocutor pode ajudar você a considerar diferentes possibilidades de construção da narrativa.

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Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 10 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

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