Escreva para expressar, não para impressionar.

Como planejar e ordenar um livro de contos

Por Diego Schutt em 19/10/2019 Tópicos: Escrever Ficção
0
5

Texto do escritor convidado T. K. Pereira

Quando se fala na preparação do Romance, tudo parece já ter sido discutido. A Literatura e a Internet estão repletas de textos sobre o assunto. Menos corriqueiro é o debate do Conto, de suas origens, evoluções e possibilidades. Volta e meia, há burburinho sobre o seu valor ante aquele gênero, tido como maior e mais prestigioso, mas nada que vá muito além da polêmica pela polêmica.

Tudo o que você precisa saber para começar a escrever melhor

Como escrever um livro de contos?

Unidade temática é importante? A ordem dos textos faz alguma diferença? Neste artigo, abordarei tais questões pela perspectiva de quem dedicou anos à preparação do primeiro livro. Espero que a minha experiência seja útil e, quem sabe, fomente alguma discussão sobre o gênero.

Um livro, dois anos, sem planejamento. “Vozes” é um livro com 21 contos sobre pessoas que buscam, desesperadamente, sentido no mundo e em suas próprias vidas. Levei dois anos para concluí-lo. Não para escrevê-lo, note-se.

A diferença é sutil, visto que os contos já existiam. Escritos em diferentes momentos da vida, eles são frutos de reflexões, experiências e até mesmo de oficinas de escrita criativa. O livro em si nasceu da reunião de todos eles.

Por que, então, demorei tanto tempo para concluir “Vozes”? Meu maior obstáculo foi a falta de planejamento, de uma proposta clara. A primeira versão do livro era um mero ajuntado de textos. O critério de seleção era os retornos positivos de meia dúzia de leitores beta. Longe do que é hoje, o livro era uma algazarra de narrativas, temas e experimentações literárias – até o título era outro, interessante, mas ligeiramente pretensioso.

Planejando um livro de contos

Se pudesse voltar no tempo, daria este toque ao autor daquela pobre primeira versão: antes de qualquer coisa, pense sobre o propósito. Livros de contos também podem se beneficiar de um projeto bem elaborado – tal preocupação não deveria ser exclusiva do romance. A palavra- chave é unidade. A unidade imbui de espírito o que, de outra forma, é apenas uma reunião de textos diversos.

Em dois anos, “Vozes” se tornou um livro coeso. Nesta que é a terceira e definitiva versão do livro, textos foram retirados, incluídos e retrabalhados. Os contos reunidos ali hoje dialogam com temas e discussões contemporâneas que me são de interesse até hoje. Há aproximação também pela linguagem e pelo estilo.

Unidade em livros de contos

Ao produzir um livro de contos, é interessante pensar nele a partir de um projeto inicial. Qual é o propósito do livro? Do que tratam os textos? Eles dialogam entre si ou com discussões mais complexas? A unidade é de outro tipo que não temática (de estrutura narrativa, personagens, tipo de narrador, etc.)? Trabalhar questões como estas é buscar a personalidade de um livro de contos, e até facilita a escolha dos textos que o irão compor.

Unidade é imprescindível? Não há resposta definitiva, certa ou errada, e está aí um bom tópico a ser debatido. Particularmente, gosto mais da leitura de textos que se aproximam por tema, linguagem, etc. Naturalmente, isso reflete em minha escrita, daí a minha dedicação de anos a “Vozes” – o próprio título do livro é resultado dessa unidade, lapidada desde sua primeira versão.

7 dicas para ordenar contos em um livro

Outro desafio na produção de um livro de contos é estabelecer a ordem ou posicionamento de cada texto. Novamente, não existem regras, certo ou errado, mas há algumas boas práticas.

Vou listar algumas que aprendi com escritores experientes durante a preparação de “Vozes”:

1. Abra o livro com um de seus melhores contos, senão o melhor. Isto é particularmente útil se você pretende inscrever o livro em concursos ou enviar o original para editoras. Afinal, a primeira impressão é a que fica.

2. Não termine seu livro com um conto fraco. É interessante que a última leitura passe uma sensação de desfecho emocional minimamente coerente com tudo o que foi visto até ali.

3. Tem contos com personagens recorrentes? Mantenha-os próximos. É mais interessante acompanhar a construção e os dilemas do personagem quando não se perde contato com ele por muito tempo.

4. Caso haja algum conto que destoe demais dos outros (uma experimentação, por exemplo), considere colocá-lo mais no centro do livro. Pode ser uma grata surpresa para o leitor. Caso ele não goste, não descartará o livro por já estar acostumado com seu material mais consistente.

5. Alguns contos têm títulos tão incríveis que batizam todo o livro. Isso não significa que eles precisem vir primeiro ou aparecer em alguma ordem específica. Às vezes, esses contos sequer estão entre os melhores, então relaxe.

6. Novela não é conto, então considere colocá-la no final, caso haja alguma no livro. Às vezes, o leitor quer aproveitar o tempo num ponto ou num consultório, e é obrigado a largar a leitura no meio quando o ônibus chega ou o médico chama. É frustrante quando isso ocorre mais pelo tamanho do texto do que pelo tempo de espera, especialmente quando se espera uma leitura breve.

7. Elabore uma estrutura, depois distribua todos os contos de acordo com sua própria lógica. Algumas sugestões: agrupe certos temas e personagens até metade do livro, depois conclua com outro agrupamento ou agrupe os contos por ecos, quer de tema quer de linguagem.

Sobre o autor: T. K. Pereira, organizador do projeto 7 coisas que aprendi, projeto que reúne mais de 100 depoimentos de escritores sobre o ofício, autor do livro de contos “Vozes” (Caos e Letras, 2019), em pré-venda no catarse.me/livrovozes até o dia 19 de outubro. Site oficial do autor: tkpereira.com.br

Tudo o que você precisa saber para começar a escrever melhor

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 10 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

Seja o primeiro escritor a comentar sobre este texto

Gostou do texto? O autor vai adorar saber. Deixe um comentário e compartilhe o artigo com outros escritores.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

 

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Copyright 2010-2019 Diego Schutt - Todos os Direitos Reservados | Ficção em Tópicos