Escreva para expressar, não para impressionar.

Subtexto: a arte de expressar o inconsciente dos personagens #5

Por Diego Schutt em 02/09/2019 Tópicos: Dicas, Escrever Ficção, Técnicas
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No primeiro artigo da série, mostrei como texto, subtexto e intertexto influenciam no significado que o leitor dá para a história.

No segundo artigo da série, exemplifiquei como você pode usar subtexto para criar diálogos mais complexos e verossímeis.

No terceiro artigo da série, me concentrei em exemplificar o uso de subtexto em histórias contadas por um narrador.

No quarto artigo da série, mostrei como subtexto pode ser usado para transformar atividades insignificantes em ações significativas.

Neste artigo, vou explorar a relação entre subtexto e imagens, símbolos e motivos literários em histórias de ficção.

A substância de uma história não se restringe à complexidade dos personagens e à sequência de eventos do enredo. Uma das técnicas que tem o potencial de dar mais textura e profundidade a textos de ficção é o uso de imagens, símbolos e motivos ao longo da narrativa.

1. Imagem

Uma imagem é uma representação concreta de características visíveis de algo ou alguém. Por exemplo, se descrevo um banheiro mencionando o piso forrado de toalhas encardidas e tufos de cabelo, as paredes inchadas, os azulejos faltando e a moldura enferrujada da janela basculante, você imediatamente começa a imaginar esse cenário. Basicamente, estou dirigindo sua atenção para certas características concretas com o objetivo de evocar imagens desse local na sua mente.

Imagens correspondem ao texto, ou seja, ao significado explícito do que está sendo descrito em um momento específico da história. A descrição de imagens permite ao escritor expressar ideias de forma clara e direta, guiando a atenção do leitor para detalhes que o ajudem a imaginar concretamente elementos importantes da história.

2. Símbolo

Um símbolo é uma imagem concreta usada para representar uma ideia abstrata. Por exemplo, a cor branca é comumente usada como símbolo de limpeza e pureza. Sendo assim, posso decidir que meu protagonista é um encanador que só usa camisas brancas para trabalhar como um símbolo de sua preocupação em projetar a imagem de um profissional honesto e responsável.

Símbolos correspondem aos subtexto, ou seja, ao significado sugerido por certas imagens em uma passagem importante da história. Simbolismo permite ao escritor expressar ideias de uma forma indireta, dando mais nuance e complexidade para o texto.

3. Motivo

Um motivo é um conjunto de imagens com significado simbólico usado intencionalmente várias vezes ao longo de uma narrativa. Por exemplo, se faço menções recorrentes à imagens que refletem negligência, abandono e desleixo ao longo de um texto, estou sugerindo que essas ideias estão sendo usadas como símbolos e, por isso, oferecem pistas para o leitor decodificar significados mais profundos da história.

Um motivo corresponde ao intertexto, ou seja, ao significado implícito na repetição intencional de um padrão simbólico ao longo da história. O uso de um motivo tem o potencial de estabelecer uma conexão temática entre diferentes partes da narrativa e, assim, torná-la mais coesa e expressiva.

 

Para ilustrar o uso desses recursos estilísticos, vou usar como exemplo um conto de minha autoria chamado “A vida é suja, meu filho”, disponível para leitura aqui. Vale ressaltar que o processo de criação que vou descrever neste artigo é bastante pessoal. Tenho certeza que muitos escritores escolhem imagens, símbolos e motivos de uma forma mais intuitiva. Espero que, ao conhecer a forma como tomo decisões para editar meus textos, você encontre algo que contribua para aperfeiçoar o seu processo de criação.

Abaixo, os primeiros parágrafos do conto:

“Elvira reclama da insistência burra de Heitor em vestir branco para trabalhar na imundície o dia inteiro. Ele sorri e pergunta se também não é burrice arrumar a cama de manhã para desarrumar à noite, tomar banho para sair no calor do verão e organizar a casa para as meninas bagunçarem tudo de novo. A mulher revira os olhos e pendura na maçaneta da porta da cozinha os dois cabides com as camisas passadas.

Heitor limpa os arredores da boca no guardanapo com a precisão e insistência de quem raspa a barba dos cantos difíceis do rosto. Pinça um a um os poucos farelos de bolo sobre a barriga e os coloca ao lado do prato, limpo o suficiente para ser devolvido ao armário. De pé, apanha uma das camisas e entrega para Elvira. Ela segura a peça pelo colarinho. Heitor encaixa os braços com cuidado. “Esse é meu cartão de visita, amor. Chegar no cliente sujo do trabalho anterior é desrespeito. O tio Francisco que dizia: Educação não é só o que se diz, é também o que se mostra.” Ele pega o cabide com a outra camisa da maçaneta e beija a testa da mulher.

A casa 613 era um dente sujo estragando o sorriso de casas brancas na Rua Almeida de Barros. As trepadeiras secas cobriam parte do telhado e da fachada, quase escondendo as janelas do segundo andar. Em frente à entrada, um jardim de terra dura e uma única árvore mal se aguentando em pé. Era um sertão em plena cidade tropical.”

Essa passagem do texto tem várias funções na construção da narrativa. A função mais imediata é caracterizar Heitor, o protagonista da história. Para fazer isso, uso duas imagens para simbolizar a integridade do personagem: a forma meticulosa como ele se comporta ao terminar seu café da manhã e a camisa branca que ele usa para trabalhar.

Outro objetivo importante das primeiras linhas deste texto é estabelecer um motivo que será repetido ao longo de toda a narrativa: um senso de negligência, abandono e desleixo. A casa mal cuidada e o jardim seco são os dois símbolos que decidi usar para evocar essas percepções.

A escolha desse motivo não é aleatória ou meramente decorativa.

Ela está intimamente relacionada ao tema central da narrativa. O tema é uma pergunta implícita no conflito central do protagonista, que provoca o leitor a pensar sobre um tópico que vai além dos limites da história. Tal pergunta é um convite para reflexão sobre algum aspecto do mundo, da vida ou da experiência humana.

Em “A vida é suja, meu filho”, o tema que me proponho a explorar é “É possível manter a consciência limpa em um mundo sujo?” A narrativa vai revelando indiretamente respostas possíveis para essa pergunta. Cada personagens representa um ponto de vista diferente sobre esse tema.

Heitor, o protagonista, inicia a história acreditando que sim, é possível ser honesto mesmo que a desonestidade reine o mundo. Certo personagem acredita que às vezes. Outro personagem acredita que não. A antagonista acredita que sim, mas de uma forma diferente de Heitor.

Perceba como imagens, símbolos, motivo e tema estabelecem uma hierarquia de complexidade do conteúdo de uma história. No nível mais básico, uma história usa imagens para concretizar detalhes do universo de ficção na mente do leitor. Quando algumas destas imagens são usadas como símbolos para sugerir o conteúdo subentendido nas entrelinhas do texto, a história começa a ganhar complexidade na forma como expressa certas ideias. Quando alguns desse símbolos são repetidos de forma intencional e estabelecem um motivo, a narrativa estabelece um tom e uma atmosfera que influencia o leitor a interpretar certas informações de forma a aprofundar a investigação de um tema.

Símbolos e motivos evocam partes mais primitivas da nossa consciência e inteligência, que transcendem lógica e racionalidade. Às vezes, nosso intelecto não consegue acompanhar certas passagens de uma história e tal efeito pode ser intencional. Talvez isso seja um convite do escritor para você experimentar um fluxo de ideias, imagens e acontecimentos apenas com seus sentidos.

Em seu grau máximo de complexidade, a escolha de imagens, de símbolos e de um motivo enriquecem direta ou indiretamente a reflexão proposta pelo tema da história. 

Ao escrever os primeiros rascunhos do conto “A vida é suja, meu filho”, eu não tinha a menor ideia de qual era o tema da história. Além disso, muitas das imagens e símbolos que usei ao longo do texto foram escolhas intuitivas. Escrevi sem qualquer preocupação com estrutura, coesão e foco temático.

No início do processo de criação, minha única preocupação era descobrir o protagonista, a história que eu queria contar e algumas das ideias que eu desejava expressar com esse texto. Quando usei ferramentas técnicas para jardinar essas ideias, comecei a editar o que escrevi considerando como certos símbolos e imagens poderiam trabalhar juntos para criar um motivo que desse mais substância, profundidade e significado para o conteúdo da história.

Tudo o que você precisa saber para começar a escrever melhor

Comecei a editar o texto com algumas ideias em mente. O tema que desejo explorar é “É possível manter a consciência limpa em um mundo sujo?”. Vou sugerir tal tema usando o motivo “negligência e desleixo”, repetindo certos símbolos que reforcem uma atmosfera de abandono e descaso. Para isso, vou descrever imagens concretas que evoquem esses conceitos abstratos, tais como uma casa em um estado deplorável e uma personagem solitária e desiludida da vida. Essas ideias guiaram minhas decisões sobre que detalhes mereciam destaque e quais poderiam ser excluídos.

Uma forma de usar esses conceitos para enriquecer a sua história é lembrar que imagens ajudam você a concretizar o cenário e os personagens na mente do leitor. Símbolos permitem a você evocar ideias e conceitos para dar mais textura para o texto. Um motivo literário ajuda você a decidir que informações são cruciais para a narrativa, permitindo que você dê um foco temático para a história.

Na prática, você pode usar essas técnicas relendo um texto que você escreveu e se fazendo as seguintes perguntas:

  • Qual é a história que eu quero contar? Lembre-se que história não é o mesmo que enredo.
  • Que ideias desejo expressar com esse texto? Pense na experiência de leitura que você deseja criar com sua história.
  • Que imagens podem ajudar o leitor a imaginar concretamente o que acontece ao longo da história?
  • Que símbolos podem enriquecer o significado de aspectos importantes da história?
  • Que motivo pode enriquecer o tema da história e tornar o texto mais expressivo?

O uso intencional de imagens, símbolos e motivos tem o potencial de fazer com que sua história convide o leitor para refletir sobre os personagens e as circunstâncias em que eles se encontram e para preencher com sua imaginação o que está subentendido nas entrelinhas. Textos que estimulam o leitor a imaginar além do que está explícito no texto resultam em experiências de leitura mais intensas e envolventes.

Pensando nas suas histórias dos seus escritores favoritos, você consegue identificar o uso de símbolos e motivos literários? Deixe um comentário.

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Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 10 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

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