Escreva para expressar, não para impressionar.

15 momentos para estruturar o enredo da sua história

Texto do escritor convidado Bruno Crispim

Recentemente, terminei de ler “Save the cat! writes a novel” – um dos livros derivados do original de Blake Snyder. A franquia “Save the cat!”, que conta com seis livros, ainda é febre nos EUA, mesmo tendo sido lançada há quase quinze anos atrás.

Até hoje, “Save the cat!” é o livro sobre escrita de roteiros mais aplicado em Hollywood. E não é sem méritos. A utilização desse método foi tão bem-sucedida – salvando diversos filmes de fracasso – que a maior parte dos roteiros passou a ser avaliada nos critérios mencionados no livro. Atualmente, um roteirista que se propõe a entrar no mercado americano de cinema e ainda não sabe enquadrar a sua história na metodologia de quinze beats do livro, não será levado a sério.

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Sendo sincero, comprei o livro pela importância que dão ao método que ele propõe, não por esperar algo revelador. E, na minha opinião, o livro original é bem mais raso do que seu primo para romances, que, não à toa, tem quase o dobro das páginas.

Para quem já leu “Story” de Robert Mckee, o tom prepotente de Snyder pode ser uma barreira. E esse é mais um ponto para “Save the cat! writes a novel”, que é escrito por Jessica Brody com humildade e um tom conciliador. E foi essa voz que me fez dar uma chance ao livro. Não me arrependi.

Por trás do título, subtítulo e premissa sensacionalistas, existe uma metodologia muito interessante para desenvolver um enredo para sua história.

Assim como Joseph Campbell e Christopher Vogler, Snyder descontrói as narrativas recorrentes nas sociedades humanas e cria um mapa que uma história deve percorrer – nos mesmos moldes das doze etapas da Jornada do Herói. Só que em “Save the cat! writes a novel”, a autora descreve quinze beats – momentos importantes que podem ajudar você a criar uma estrutura para o enredo e estabelecer as engrenagens que farão sua história se movimentar.

Nota do editor: Vale ressaltar que esse modelo terá mais utilidade para escritores que desejam escrever literatura de gênero, onde o foco está no desenvolvimento de enredos com estrutura de Arco Dramático, em contraste com textos mais literários, onde a linguagem, o estilo e a atmosfera da narrativa são mais importantes do que eventos extraordinários.

Descubra mais detalhes sobre cada beat abaixo.

Ato 1

1º Beat – Imagem de abertura: Uma foto de “antes” de sua personagem principal e de seu mundo.
2º Beat – Configuração inicial: Expansão da imagem de abertura. Uma exploração da vida e do mundo do herói antes de sua transformação épica.
3º Beat – Declaração da lição: Afirmação feita por uma personagem (normalmente não a protagonista) sobre o que o herói precisa aprender até o final da história para fechar seu arco dramático.
4º Beat – Catalizador: Um ponto de virada catapulta o herói para um novo mundo ou uma nova forma de pensar.
5º Beat – Debate: Uma cena onde o herói discute o que fará em seguida, geralmente apresentado na forma de uma pergunta. (Será que eu devo…?)

Ato 2

6º Beat – Entrada no Ato 2: Momento em que a protagonista decide aceitar o chamado à ação, sair de sua zona de conforto e se aventurar em um novo mundo ou em uma nova maneira de pensar.
7º Beat – Trama B: Introdução de uma nova personagem ou personagens que servirão para ajudar o herói a aprender a lição.
8º Beat – Diversão e jogos: Também chamado de “promessa da premissa”, é a parte “divertida” da história, quando a protagonista explora o novo mundo e tem seus primeiros sucessos – cumprindo as promessas que fez na sinopse da história. É o grande gancho que fez o leitor decidir pela leitura da história.
9º Beat – Meio: Literalmente o meio da história, onde o “Diversão e Jogos” culmina em uma falsa vitória ou uma falsa derrota. Algo deve acontecer aqui para aumentar os riscos e empurrar o herói para uma mudança real.
10º Beat – Inimigos se aproximam: Se o meio for uma vitória falsa, a partir daqui a situação piora consistentemente para o herói. Se o meio foi uma falsa derrota, as coisas só melhoram para o herói. Independentemente da trajetória, os “demônios internos” do herói estão se aproximando, o pressionando por uma transformação interna.
11º Beat – Tudo está perdido: Diametricamente oposto ao meio, é o ponto mais baixo do romance. Algo acontece com a protagonista que, combinado com aqueles “demônios internos”, a empurra para o fundo do poço.
12º Beat – Desolação: O herói toma um momento para refletir sobre tudo o que aconteceu. É a escuridão mais densa antes do amanhecer. Este é o instante anterior à descoberta da solução da grande questão interna do herói.

Ato 3

13º Beat – Entrada no Ato 3: É quando o herói entende o que ele deve fazer para, não apenas consertar todos os problemas criados no Ato 2, como, ainda mais importante, consertar a si mesmo (Trama B).
14º Beat – Finale: O herói prova que realmente aprendeu o lição e coloca em prática o plano que criou em “Entrado no Ato 3”. Vilões são derrotados, demônios internos são conquistados, amantes são reunidos. O mundo do herói não é apenas salvo, é um lugar melhor do que antes.
15º Beat – Imagem final: Similar ao beat “Imagem de abertura”, esta é uma fotografia final de quem é o herói depois de passar por sua transformação.

Ciente da importância do desfecho da história, Snyder decompõe o 14º beat (Finale), estabelecendo o final em cinco eventos:

  1. Reunindo o time: O herói percebe que precisa de ajuda e aceita ou procura o auxílio dos seus aliados. Muitas vezes, precisa engolir o seu orgulho para reconquistar os amigos e trazê-los de volta à causa. Eles elaboram um plano “infalível”.
  2. Executando o plano: O plano é colocado em ação e, a princípio, tudo dá certo. Todos estão confiantes que vão derrotar o vilão.
  3. Surpresa na torre: Uma referência às torres dos castelos medievais europeus, onde a princesa ficava enclausurada nos contos de fada e onde costumava ser travada a última batalha. É o momento quando o herói está certo que vai derrotar o vilão, só para vê-lo tomar uma “poção mágica” que o deixa indestrutível.
  4. Procure lá no fundo: É quando a protagonista evolui (Trama B) e aprende a lição. Agora, ela está disposta a se sacrificar pelos outros. Dessa força interna recém descoberta, ela enxerga uma nova opção, um novo plano.
  5. Executando o novo plano: Sem mais recursos ou energia, o herói dá tudo de si e, finalmente, derrota o vilão.

Esses cinco pontos vão de encontro com outras ferramentas bem aceitas, entre elas a de reversão da carga dramática das cenas (de Robert Mckee) e do monomito (de Joseph Campbell).

Lógico que esses quinze beats e estes cinco eventos são genéricos. Faz até sentido que sejam, uma vez que o propósito é enquadrar todas as histórias. Ainda assim, são bem fundamentados.

A melhor forma de usar esses conceitos não é tentando seguir cada passo como se fosse uma receita, mas sim usá-los durante o processo de edição para considerar formas de aprimorar as partes do enredo que parecem frágeis ou desconectadas do resto da história.

Em breve, leia o segundo texto sobre esta metodologia que vai apresentar os dez caminhos que todas as histórias podem seguir.

 

Sobre o autor: Bruno Crispim nasceu em Niterói-RJ. Apaixonado por ficção, comportamento humano e finanças, transitou, por muito tempo, nessas áreas. Até seu ano sabático, quando morou no Canadá. Aproveitou o inverno congelante para escrever O Segundo Caçador. Um esforço que rendeu frutos. O romance foi vencedor do III Prêmio UFES de Literatura e publicado. De volta ao Brasil, ganhou destaque no Wattpad com GUIA do Escritor de Ficção e foi convidado para participar da oficina de escrita criativa do premiado autor Marcelino Freire. Recentemente, finalizou seu segundo romance Morte e Ascensão de Darla Abranches e participou da coletânea de contos da revista Superinteressante Realidades Alternativas (Ed. Abril).

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Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 10 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

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