Escreva para expressar, não para impressionar.

10 padrões de enredo recorrentes e suas convenções

Por Diego Schutt em 22/05/2019 Tópicos: Dicas, Escrever Ficção, Estrutura, Técnicas
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Foto de Joanjo Pavon no Unsplash.com

Texto do escritor convidado Bruno Crispim

Além dos quinze beats mencionados na primeira parte deste artigo, a metodologia “Save the cat!” criou categorias que resumem dez caminhos que todas as histórias podem seguir segundo Snyder, seu criador. Ele nomeou essas categorias de gêneros – o que causa certo estranhamento pela falta de relação com os gêneros literários que conhecemos.

Tudo o que você precisa saber para começar a escrever melhor

Então, esqueça momentaneamente gêneros como terror, romance e suspense. Pense nestas categorias como padrões de enredo recorrentes, prestando especial atenção nos três elementos fundamentais que representam as principais convenções de cada gênero.

Entender à qual desses padrões de enredo sua história mais se aproxima pode ajudar você a pensar sobre o perfil do protagonista, a linha de ação e os principais conflitos do enredo, ou seja, o conteúdo do texto. O que vai tornar sua narrativa original é a forma particular como você vai usar essas convenções – ou subvertê-las – para expressar suas ideias de uma forma única.

Gênero 1: Monstro na casa

» RESUMO
Um herói culpado é forçado a salvar pessoas de serem assassinadas por um monstro que ele libertou inadvertidamente.

» ELEMENTOS

  • Monstro: É qualquer entidade que tenta matar o protagonista e as pessoas que o cercam.
  • Casa: É o lugar onde acontece a perseguição. Em Atividade Paranormal, por exemplo, é a casa amaldiçoada.
  • Pecado: Alguma ação que era proibida e que libertou o monstro. Em Annabelle, é a tentativa de evocação de um demônio – onde o sangue espirra em uma boneca.

» EXEMPLOS
Frankenstein (Mary Shelley), A estrada da noite (Joe Hill)

Gênero 2: Ritos de passagem

» RESUMO
A única maneira de um herói problemático superar a crise em sua vida é derrotar seu pior inimigo – ele mesmo.

» ELEMENTOS

  • Problema pessoal: Uma falha pessoal que vai causar a culpa. Em Caçador de Pipas, por exemplo, a inveja de Amir por seu melhor amigo Hassan é o que faz com que, em face de uma tragédia, ele não fique do lado do amigo.
  • Uma culpa: O protagonista fez algo que se arrependerá ao longo da sua vida. Talvez ele não tenha defendido um inocente, talvez ele tenha cometido um crime. E isso o corrói por dentro.
  • Aceitação: Depois de passar por diversos problemas escondendo essa culpa, finalmente a personagem aprende a se perdoar e se transforma em uma pessoa melhor, fechando o seu arco dramático.

» EXEMPLOS
Emma (Jane Austen), Caçador de Pipas (Khaled Hosseini)

Gênero 3: Cara com um problema

» RESUMO
Herói involuntário deve sobreviver a todo custo quando é arrastado para uma situação de vida ou morte que nunca viu acontecer e não pode escapar.

» ELEMENTOS

  • Herói inocente: O protagonista é pego de surpresa. Por mais que ele ache que está pronto, nada poderia o preparar para esse evento súbito.
  • Evento súbito: Algo acontece que leva o protagonista a uma situação de vida ou morte. No caso de Perdido em Marte, foi a tempestade que acabou causando a partida antecipada da nave, o que o deixou preso e sozinho em Marte.
  • Situação de vida ou morte: O herói precisa usar tudo o que já aprendeu para conseguir sobreviver. O risco de morte deve ser altíssimo.

» EXEMPLOS
Perdido em Marte (Andy Weir), A firma (John Grisham)

Gênero 4: Motivo do crime

» RESUMO
Um herói obstinado deve encontrar a verdade para um mistério antes de ser engolido pela escuridão que ele desesperadamente procura expor.

» ELEMENTOS

  • Detetive: Alguém que, profissionalmente ou de forma amadora, precisa desvendar um crime.
  • Segredo: O detetive guarda um lado obscuro que não quer que ninguém saiba, mas que o ajudaria a solucionar o crime.
  • Virada sombria: O detetive sucumbe ao seu lado negro (que por muitas vezes é um vício como o alcoolismo) e atinge o seu fundo do posso. É de lá que ele consegue enxergar os crimes pelos olhos do criminoso e, enfim, solucionar o crime.

» EXEMPLOS
E não sobrou nenhum (Agatha Christie), A garota no trem (Paula Hawkins)

Gênero 5: Instituição

» RESUMO
A única maneira de um forasteiro salvar sua individualidade é ir contra os muitos que desejam integrá-lo ao seu rebanho.

» ELEMENTOS

  • Grupo: Um grupo age de uma forma nociva e o protagonista confronta este comportamento. Ele não quer se enquadrar no padrão e pode correr risco de vida por isso.
  • Escolha: Se enquadrar no grupo, mesmo contra a sua vontade, ou resistir e enfrentar o perigo.
  • Sacrifício: Toda escolha exige sacrifícios. Muitas vezes, a própria vida do protagonista.

» EXEMPLOS
O conto da aia (Margaret Atwood), O grande Gatsby (F. Scott Fitzgerald)

Gênero 6: Super-herói

» RESUMO
Um herói excepcionalmente especial deve derrotar um oponente ainda mais poderoso usando os mesmos poderes que o desconectam das pessoas que ele espera salvar.

» ELEMENTOS

  • Poder especial: Uma habilidade especial que o transforma em um ser humano superior.
  • Arqui-inimigo: O vilão que tem meios de vencer o herói.
  • Maldição: É uma fraqueza (criptonita do Super-Homem), uma tragédia (como o passado do Batman) ou um senso moral que precisa ser respeitado (como a responsabilidade que tio Bem falou para Peter Park).

» EXEMPLOS
Harry Porter e a Pedra Filosofal (J.K. Rowling), Cinder (Marissa Meyer)

Gênero 7: Tolo triunfante (vitória do azarão)

» RESUMO
A única maneira de um herói inocente derrotar os preconceitos de um grupo é mudar a si mesmo sem perder o que o tornou alvo do grupo – sua singularidade.

» ELEMENTOS

  • Tolo: Um protagonista ingênuo e tido como inferior.
  • Força institucional: Um grupo que o julga como inferior.
  • Transformação: Uma transformação, normalmente interior, que mude a percepção (de inferior para superior) da força institucional em relação ao tolo.

» EXEMPLOS
Diário de uma princesa (Meg Cabot), Diário de Bridget Jones (Helen Fielding)

Gênero 8: Amor e amizade

» RESUMO
Um herói inadequado deve superar uma situação extremamente difícil para continuar do lado do parceiro excepcionalmente improvável, que é o único capaz de lhe trazer paz.

» ELEMENTOS

  • Herói incompleto: Uma pessoa que não consegue ser feliz por si só. Falta-lhe alguém.
  • Contraparte: A outra metade do herói. Até os defeitos dessa pessoa têm o poder de transformar o herói.
  • Complicação: Algo que impede que os dois fiquem juntos. Costuma acontecer ou no meio ou no final, tendo final feliz ou triste, respectivamente.

» EXEMPLOS
Orgulho e preconceito (Jane Austen), A culpa é das estrelas (John Green)

Gênero 9: Fora da lâmpada

» RESUMO
Um herói ganancioso deve aprender a desfazer um feitiço que tanto desejava, antes que este se transforme em uma maldição que ele não poderá desfazer.

» ELEMENTOS

  • Desejo: O herói deseja algo acima de tudo.
  • Feitiço: Algo que dá ao herói o que ele deseja.
  • Lição de vida: O protagonista precisa aprender que tudo deve ser conquistado com seu esforço para que o feitiço seja cancelado e ele se desenvolva como pessoa.

» EXEMPLOS
Menina de 20 (Sophie Kinsella), Todo Poderoso (filme estrelado por Jim Carrey)

Gênero 10: Velocino de ouro

» RESUMO
Um herói deve liderar um grupo de aliados para recuperar um tesouro valioso em uma jornada perigosa, diferente do que o herói esperava.

» ELEMENTOS

  • Estrada: O caminho que deve ser percorrido durante a jornada para recuperar ou conquistar o tesouro.
  • Time: Os companheiros que irão ajudar o herói em sua jornada.
  • Tesouro: Algo que precisa ser conquistado a qualquer custo e que vai salvar a vida do herói ou de todos. Normalmente, o risco tem sentido literal.

» EXEMPLOS
Peter Jackson e ladrão de raios (Rick Riordan), Ready player One (Ernest Cline)

 

Faço uma confissão aqui: quase não abri o livro “Save the cat!”. Mesmo depois de comprado, o tom sensacionalista do marketing americano me incomodou bastante. E é bom que te incomode mesmo. O método promete mundos e fundos e você só conseguirá usar efetivamente esta ferramenta se duvidar dela.

Esses dez gêneros, por exemplo, parecem não fazer sentido à primeira vista. Contudo, essa divisão é muito eficiente para diagnosticarmos de forma rápida se a história que estamos escrevendo peca em algo fundamental. Considerar à qual gênero nossa ideia mais se aproxima e se o enredo contém todos os elementos dessa categoria é um ótimo exercício para ter insights sobre como lapidar sua história.

Essa praticidade para analisar o enredo de uma história é a grande virtude dessa metodologia, o que a transforma em uma interessante ferramenta de diagnóstico.

Vou propor o seguinte exercício para você experimentar o real valor do método “Save the cat!”:

  • Primeiro, defina qual o gênero engloba melhor a sua história. Ela tem todos os três elementos da categoria bem desenvolvidos?
  • Em seguida, encaixe o seu enredo nos 15 beats, com o finale de 5 eventos. Existem beats repetidos ou faltando?
  • Agora, faça testes. Tente deixar os elementos do gênero mais impactantes, gerando um conflito maior. Crie os beats que faltam, agrupe os beats repetidos.
  • Analise se a sua história fica melhor ou pior com essas modificações.

Preste especial atenção em cinco beats: Catalizador (4), Entrando no Ato 2 (6), Meio (9), Tudo está perdido (11) e Entrando no Ato 3 (13).

Sim, esse exercício dá trabalho. Contudo, a análise traz amplos benefícios no diagnóstico de problemas estruturais na trama, além de chamar sua atenção para decisões instintivas que você tomou enquanto escrevia e de oferecer um entendimento macro da história.

Como todas, esta metodologia não é para ser seguida às cegas. Estude o modelo. Veja onde sua história difere e onde ela se encaixa. Tome decisões com base no que você acredita ter o potencial de tornar o enredo mais interessante.

Use o bom senso. Não use este método como Snyder queria que ele fosse usado – como um passo-a-passo para criação. Em vez disso, use as ideias como uma ferramenta para provocar você a pensar sobre o que escreveu e editar seu texto para que ele expresse suas ideias com mais impacto.

 

Sobre o autor: Bruno Crispim nasceu em Niterói-RJ. Apaixonado por ficção, comportamento humano e finanças, transitou, por muito tempo, nessas áreas. Até seu ano sabático, quando morou no Canadá. Aproveitou o inverno congelante para escrever O Segundo Caçador. Um esforço que rendeu frutos. O romance foi vencedor do III Prêmio UFES de Literatura e publicado. De volta ao Brasil, ganhou destaque no Wattpad com GUIA do Escritor de Ficção e foi convidado para participar da oficina de escrita criativa do premiado autor Marcelino Freire. Recentemente, finalizou seu segundo romance Morte e Ascensão de Darla Abranches e participou da coletânea de contos da revista Superinteressante Realidades Alternativas (Ed. Abril).

Tudo o que você precisa saber para começar a escrever melhor

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 10 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

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