Escreva para expressar, não para impressionar.

Escreva como se fosse um filme

Por Steven Pressfield em 17/04/2019 Tópicos: Dicas, Escrever Ficção, Técnicas
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“As pessoas saíam de suas casas e, depois de aspirarem o ar quente e picante, tapavam o nariz com desgosto. As crianças também saíam de casa, mas sem correrem ou gritarem, como fariam se tivesse caído uma bátega de chuva. Os homens postavam-se junto das suas vedações, a olharem para os milheirais devastados, agora a secarem inteiramente, apenas com fiapos verdes a mostrarem-se através da camada de pó. Os homens conservavam-se calados e pouco se moviam. E as mulheres saíam das casas, para se porem ao lado dos homens – a ver se desta vez eles desanimavam. […] Ás crianças mantinham-se por ali, desenhando figuras na poeira com os dedos dos pés nus, e elas próprias olhavam às vezes para os homens e para as mulheres, a ver se o desânimo se estampava na cara dos pais. Os cavalos chegavam-se às selhas e abriam com o focinho as camadas de pó que cobriam a água. Não tardou muito que os rostos dos homens perdessem a confusa indecisão e se tornassem duros, irados e persistentes. Então as mulheres perceberam que estavam salvas e que não havia desânimo.”

Você sente o poder desta passagem de “Vinhas da Ira”, de John Steinbeck? Por que essa passagem simples funciona tão bem? Acho que é porque ela foi escrita como um filme. Os sentimentos dos personagens são expressados quase unicamente pelo que podemos observar externamente. Em outras palavras, estamos vendo como a câmera vê.

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Não há nenhum monólogo interior, nenhuma declaração ou descrição de emoção, não há nenhum diálogo.

A passagem é poderosa porque nós, os leitores, somos compelidos pela técnica usada pelo escritor a participar do drama. Vemos os homens em silêncio, as mulheres observando, as crianças desenhando na terra com os dedos dos pés. Vemos as expressões nos rostos dos homens e pensamos (não podemos deixar de pensar): Essas famílias estão à beira do abismo. Sua terra está secando, suas colheitas estão morrendo. Eles estão prestes a entrar em pânico, perto de desistir.

Mas ninguém diz isso abertamente. Nem os personagens, nem o narrador. Nós, leitores, imaginamos tudo isso enquanto lemos a história.

O que torna os filmes tão poderosos quando são bem feitos é a capacidade de nos mostrar rostos e posturas (ou seja, pistas não-verbais) que nos ajudam a interpretar emoções.

Nós pensamos Jackson Maine (Bradley Cooper) está se apaixonando por Ally (Lady Gaga) na cena no clube de drag queens do filme “Nasce uma estrela”, mesmo que ele ainda não tenha dito uma palavra direta ou feito qualquer ato romântico. Vemos isso em seus olhos e ouvimos em sua voz.

Steinbeck era um mestre em retratar emoções na página impressa, não as declarando abertamente ou através de diálogo, mas descrevendo cenas e ações concretas, do jeito que uma câmera as registraria – o movimento e a quietude e a hesitação e a ação dos personagens.

Você e eu também podemos fazer isso em nossos livros e nossas peças de teatro. Podemos escrevê-los (ou pelo menos partes deles) como um filme.

“Coloquei a correspondência na mesa, voltei para o quarto, tirei a roupa e tomei um banho. Eu estava me esfregando quando ouvi a campainha tocar. Coloquei meu roupão e meus chinelos e fui até a porta. Era o Brett. Atrás dela estava o conde. Ele estava segurando um grande buquê de rosas.”

Há uma razão pela qual Ernest Hemingway ganhou o Prêmio Nobel e não foi só porque ele usava palavras curtas.

Hemingway aprendeu a escrever não apenas como a câmera vê, mas a maneira como o olho vê. […]

“Era Brett. Atrás dela estava o conde. Ele estava segurando um grande buquê de rosas.”

Na primeira leitura, pode parecer que nenhuma emoção particular está sendo transmitida nessa passagem. O que está acontecendo, podemos pensar, é apenas a magia da tinta preta no papel criando uma imagem cinematográfica em nossa mente.

Mas se olharmos um pouco mais perto, nós vemos a porta se abrindo. Nós vemos Brett. Então vemos o conde. Então vemos o grande buquê de rosas. É exatamente assim que o olho funciona, não é? É precisamente a ordem e a sequência como você ou eu abriríamos a porta do nosso apartamento em Paris, veríamos alguém parado ali, depois outra pessoa de pé atrás dela, depois o que quer que a segunda pessoa estivesse carregando.

Mas o que Hemingway faz é nos mostrar isso através dos olhos do nosso narrador, Jake Barnes (que está apaixonado por Brett, mas que teve sua masculinidade destruída pela guerra), que nesta noite em particular quer ficar sozinho após seu banho, mas agora está sendo convocado pela obrigação da boa camaradagem para uma noite de bebedeira e festa que vai rasgar suas entranhas.

Tudo isso em seis frases curtas, sem diálogo e sem expressar abertamente emoções.

Escreva como se fosse um filme.

Steven Pressfield autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

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Sobre o Autor

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Steven Pressfield é autor de bestsellers de ficção e não-ficção, entre eles “The War of Art” e “The Legend of Bagger Vance”. Em seu livro mais recente, “The Authentic Swing”, ele compartilha em detalhes como conseguiu publicar sua primeira obra.

Um escritor tem algo a dizer sobre este texto

  1. Antonio Lucas 26/04/2019

    Com o uso desse procedimento, muda-se o modo de se escrever e se põe o leitor a, mentalmente, visualizar a cena e o comportamento e raeções dos personagens.

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