Escreva para expressar, não para impressionar.

Como escrever um texto rico em subtexto e intertexto?

Por Diego Schutt em 18/02/2019 Tópicos: Dicas, Escrever Ficção, Técnicas
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“Socorro me Ajuda” é uma série de artigos que responde às dúvidas dos leitores do Ficção em Tópicos. Quer enviar uma pergunta? Clique aqui.

A Adriana me disse que está escrevendo um livro onde uma menina expressa seus pensamentos e sentimentos em um diário. Ela quer saber como escrever um texto rico em subtexto e intertexto.

A Adriana está se referindo a conceitos que apresentei na série “Subtexto: a arte de expressar o inconsciente dos personagens“.

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O texto são as palavras que aparecem na página. São as informações que o narrador revela para o leitor. Esse é o nível mais superficial de significado de uma história.

Cada frase é interpretada literalmente, independente do contexto em que ela é apresentada. O texto revela explicitamente o que o narrador deseja que o leitor saiba.

O subtexto é o conteúdo emocional que está nas entrelinhas do texto. São as informações que o narrador sugere para o leitor. Esse é o nível intermediário do significado de uma história.

A interpretação de cada frase depende do que sabemos sobre o narrador e do contexto em que ela é apresentada. O subtexto deixa subentendido o que o narrador deseja que o leitor entenda.

O intertexto é conteúdo irracional implícito na relação entre texto e o subtexto. São as informações que o narrador esconde do leitor. Esse é o nível mais profundo do significado de uma história.

A interpretação de cada frase depende das intenções ocultas que o leitor atribui ao narrador, ao considerar o que está por trás da escolha de uma forma particular de se expressar. O intertexto é um convite para o leitor preencher com suas próprias conclusões as lacunas de informação deixadas na narrativa.

A história da Adriana vai focar em revelar os pensamentos e emoções que a personagem registra em um diário. Para que a narrativa seja rica em subtexto e intertexto, é importante que o texto não demonstre uma preocupação excessiva em explicar ou justificar os pensamentos e emoções da personagem.

Vou usar um trecho do livro “O diário de Bridget Jones”, de Helen Fielding, para ilustrar o que quero dizer.

“Janeiro – Um péssimo começo

Domingo, 1º de Janeiro

58,5 kg (mas pós-Natal), 14 unidades alcoólicas (na verdade, divididas em dois dias, já que as primeiras quatro horas da festa foram antes da meia-noite), 22 cigarros, 5424 calorias.

Comida ingerida hoje:

  • 2 pacotes de queijo fatiado
  • 14 batatinhas em conserva
  • 2 bloody mary (conta como comida, já que contém molho inglês e tomate)
  • 1/3 de ciabatta com queijo brie
  • 1/2 pacote de coentro desidratado
  • 12 bombons (é melhor acabar logo com tudo o que é doce e começar amanhã a dieta)
  • 13 espetinhos de queijo com abacaxi
  • Um prato do peru ao curry com ervilha e banana de Una Alconbury
  • 1 fatia da torta surpresa de Una Alconbury, feita com massa de biscoito, framboesa em conserva, 30 litros de chantili e decorada com frutas cristalizadas”

O trecho do livro reproduzido acima representa o texto, ou seja, aquilo que o narrador deseja que o leitor saiba.

Para analisarmos o subtexto dessa passagem, vamos considerar o que está subentendido no que a personagem escolheu registrar em seu diário neste dia.

O texto começa revelando o peso da personagem, quanto ela bebeu, a quantidade de cigarros que ela fumou e as calorias que ela ingeriu naquele dia. Na sequência, ela compartilha uma lista detalhada de tudo o que comeu.

O subtexto dessa passagem me parece revelar a preocupação de Bridget com seu estilo de vida. A obsessão com seu peso e com a quantidade de comida e bebida que ela ingere sugere sua ansiedade em relação a sua aparência e saúde.

O intertexto dessa passagem, ou seja, o conteúdo implícito na relação entre texto e subtexto, me parece revelar a baixa autoestima da personagem e, simultaneamente, uma disposição para reassumir o controle da própria vida. Ao registrar a quantidade de comida e álcool que ingere diariamente, Bridget demonstra interesse em reganhar controle sobre a sua vida.

As emoções que a personagem expressa em seu diário não representam o subtexto.

O subtexto é sugerido pelas pistas que cada trecho do texto dá para o leitor de como interpretar as emoções que a personagem está sentindo.

Para escrever uma história rica em subtexto e intertexto, a Adriana precisa aprender a separar as informações que representam o resultado de um mergulho profundo na mente da sua protagonista – parte do processo de criação que não deve aparecer no texto – das informações que ela precisa compartilhar para criar uma experiência de leitura envolvente.

Isso significa que quando a personagem expressar seus pensamentos e sentimentos ao escrever em seu diário, o texto precisa sugerir certo contraste ou tensão entre o que a personagem escolheu expressar, o que ela escolheu não revelar e o que ela nem tem consciência de que está revelando.

Recomendo a leitura deste outro texto da série “Subtexto: a arte de expressar o inconsciente do personagem”  para investigar mais a fundo essas três dimensões da linguagem: o dito, o não dito e o indizível.

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Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 10 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

5 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Adriana 22/02/2019

    Excelente explicação Diego, mais uma vez muito obrigada!

  2. Maria Christina Monteiro De Castro 23/02/2019

    Acompanho o ” Ficção….”há muito tempo. Sou fã. Tenho uma Oficina na minha casa( RJ) e com frequência uso os textos como base do encontro. São simples, claros e de compreensão descomplicada. São pequenos achados.
    O mérito é do Diego: chegou um pouco antes, encontrou antes. E divide conosco. Que bom ter descoberto este site!

  3. Author
    Diego Schutt 24/02/2019

    Que felicidade saber que você usa o conteúdo do site nos seus encontros, Maria Christina.

    Muito obrigado pela leitura e pela mensagem carinhosa. <3

    abs
    Diego

  4. Author
    Diego Schutt 24/02/2019

    Obrigado por enviar a pergunta, Adriana! 😉

  5. Tiago 04/03/2019

    Interessante, e parece bastante complexo. Descobrir o intertexto de uma cena pare mais algo que o próprio sherlock faz para desvendar seus casos. É bem como ele diz, nós vemos mas não observamos.
    Será que o unico meio de treinar o intertexto seja analisando outros livros?
    Alias, boa materia, como sempre.

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