Escreva para expressar, não para impressionar.

Seus textos ficam em cima do muro?

Por Steven Pressfield em 06/02/2019 Tópicos: Escrever Ficção, Inspiração
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Foto de Michael Rosner-Hyman no Unsplash

Outro dia, escutei por acidente esta conversa:

Homem 1: “Eu encontrei Frank Smith (não é seu nome real) na praia ontem…”

Homem 2: “Não é esse o cara que traiu a esposa, foi pego dirigindo bêbado e disse todas aquelas coisas horríveis sobre a nora da Jill?”

Homem 1: “… Bem… sim… mas eu tento não julgar.”

Me deparo frequentemente com essa postura de “Eu não julgo outras pessoas” e isso me enfurece em muitos níveis. Mas como este é um blog sobre o que é preciso para se criar arte, vou abordar por que essa “posição moral” é, na melhor das hipóteses, hipócrita e, na pior das hipóteses, uma força tão enfraquecedora e sombria quanto a Resistência.

Se você deseja criar arte, precisa fazer julgamentos morais sobre comportamentos humanos e se posicionar.

O quão bem você expressa e embasa seu ponto de vista é um indicador da suas habilidades. Usar arte para expressar julgamentos óbvios – como aquela estátua hilária do fundador do Faber College em Animal House com o epitáfio “Conhecimento é bom” – resulta em humor porque revela conclusões genéricas.

O epitáfio diz ao espectador que a história vai se passar em uma faculdade fundada por um idiota. O que é realmente maravilhoso nessa cena é que ela aparece nos créditos de abertura, sem deixar dúvidas sobre [o tipo de julgamentos que o filme vai fazer].

A cena do filme Manhattan, de Woody Allen, onde o personagem de Woody está conversando com um grupo em um coquetel no Museu de Arte Moderna, é outra das minhas favoritas.

Convidado 1: “Alguém leu que os nazistas vão marchar em New Jersey?”

Woddy: “A gente devia juntar um pessoal e ir lá. Pegar uns tijolos e uns tacos de beisebol e explicar algumas coisas para eles.”

Convidado 2: “Publicaram uma peça satírica devastadora sobre isso no New York Times.”

Woddy: “Bem, uma peça satírica no Times é uma coisa, mas tijolos vão direto ao ponto.”

Convidado 2: “Mas uma boa sátira é melhor que usar força física.”

Woddy: “Não, força física funciona melhor com os nazistas.”

[…]

Assumir uma postura passiva por medo de represálias é um ato covarde. Fazer um julgamento, assumir uma posição e, em seguida, agir contra uma injustiça ou agir para apoiar algo em que se acredita são atitudes de “heróis do cotidiano”.

E sim, não dizer nada, “não julgar” o comportamento horrível ou honrado de outras pessoas, também é uma atitude. […]

Se você não confronta pessoas com as quais discorda, está se colocando acima delas, como se as ações de tais pessoas fossem tão inconsequentes para sua vida que não merecem ser consideradas. Você se coloca acima de todos e não se preocupa com nada além de seus próprios interesses.

O mesmo vale para quem não aplaude de pé um trabalho que admira porque outras pessoas permanecem sentadas. Se você gostou do trabalho de alguém, diga isso para o artista. Ele precisa de todo encorajamento disponível. Criar é um trabalho duro.

Apesar do argumento aparentemente convincente de que “não julgar” é uma forma de empatia – “Quem sabe, se eu estivesse nas mesmas circunstâncias, talvez fizesse algo assim também?” – isso não é verdade. É uma desculpa para não defender o que [você acredita].

Ficar calado é demonstrar indiferença. Ficar calado significa que você não quer correr o risco de ser desafiado a defender sua opinião. 

[…]

Estou ciente de que o mundo não é preto e branco. Existem tons de cinza entre os dois polos extremos de um julgamento. No espectro entre dizer a verdade e enganar, contar uma mentira branca quando sua prima pergunta se ela ficou bem em seu maiô não é o mesmo que criar um esquema de pirâmide de bilhões de dólares. Eu sei disso.

E sim, na maior parte do tempo, manter nossas bocas fechadas é a coisa certa a se fazer. Somos todos culpados de pequenos delitos e não precisamos de “pessoas perfeitas” apontando nossas falhas. E quando decidimos confrontar alguém sobre suas ações, precisamos fazê-lo com tato e cuidado. Isso é empatia.

Mas essa postura de “Não julgo, estou em cima do muro” é perigosa. Não existe em cima do muro. Não julgar é um julgamento e isso afasta as pessoas. “É melhor não cometer erros julgando pessoas porque senão ninguém vai gostar de mim… É melhor ficar quieto e ser agradável.”– ao invés de uni-las – “Achei que eu era o único que achava “Animal House” genial…”

Na conversa que mencionei no início do texto, o homem que “não julga” o motorista adúltero e alcoólatra manda uma mensagem ao mundo dizendo que tais ações destrutivas são desculpáveis. É o que é… Não há certo e errado. Absurdo.

Esse comportamento passivo-agressivo de desdenhar o homem que julga alguém como culpado […] é ainda pior. Ele mascara uma covardia como virtude. […]

Neste mundo, você precisa se posicionar sobre inumeráveis questões morais e precisa defender seus julgamentos. Woody Allen fez isto em seis linhas de diálogo. […]

Se você é um aspirante a artista e deseja evitar fazer julgamentos, descobrirá que não tem nada a dizer.

 

Steven Pressfield autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

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Sobre o Autor

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Steven Pressfield é autor de bestsellers de ficção e não-ficção, entre eles “The War of Art” e “The Legend of Bagger Vance”. Em seu livro mais recente, “The Authentic Swing”, ele compartilha em detalhes como conseguiu publicar sua primeira obra.

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