Escreva para expressar, não para impressionar.

Pare de promover seu livro. Experimente esta estratégia.

Por Diego Schutt em 17/01/2019 Tópicos: Escrever Ficção, Promoção e Marketing
5
117

Semana passada eu estava em Lisboa, Portugal, caminhando por uma área bastante turística da cidade. Quando dobrei uma esquina e caí em uma das ruas principais, em menos de um minuto fui abordado por pelo menos cinco pessoas. “Já conhece nosso restaurante?”, “Quer aproveitar nossa promoção especial de almoço hoje?”, “Somos a melhor pizzaria de Lisboa!”, “Tá com fome? As porções são bem generosas aqui”.

Um desses promotores de restaurante me segurou pelo braço. Outro segurou o cardápio em frente ao meu rosto. Outros me fizeram uma série de perguntas em sequência. Ignorei todas as ofertas e caminhei para uma rua menos movimentada, onde encontrei um restaurante pequeno. Parei para ler o cardápio que estava colado no vidro próximo à porta de entrada.

O garçom esperou eu terminar de ler para se aproximar e dizer “Trabalho neste restaurante há quinze anos e gosto porque é um refúgio desta confusão das outras ruas. Fique à vontade para escolher uma mesa. Se quiser, posso lhe recomendar um prato”.

_____

Coloque as dicas do site em prática com o criador do Ficção em Tópicos.

O curso/oficina online Jardineiro de Ideias vai equipar você com ferramentas práticas para desenvolver suas ideias e inspirações de uma forma mais espontânea e confiante. CLIQUE AQUI PARA SABER MAIS.

_____

Decidi almoçar nesse lugar não porque a comida parecia melhor que nos outros restaurantes, mas porque o garçom parecia genuinamente interessado em me atender bem.

Esse episódio me fez pensar na forma como escritores costumam promover seus livros.

Faço parte de alguns grupos de escritores no Facebook. Vejo muitas pessoas compartilhando uma imagem da capa dos seus livros com um breve resumo da história ou com uma passagem do texto que consideram instigante. Muitos desses grupos têm milhares de participantes, mas esse tipo de postagem costuma receber apenas uma ou duas curtidas.

Acredito que esse tipo de autopromoção dá pouco resultado porque usa uma estratégia de marketing focada no desejo do escritor de vender seu livro. Imagino que muitos vão torcer o nariz ao ler a palavra marketing. A ideia de promover seu trabalho lhes incomoda.

Acreditam que se sua escrita têm qualidade, eventualmente serão descobertos. Sim, é possível que isso aconteça, mas é mais provável que seus textos – apesar de bem escritos – nunca encontrem um público leitor.

A palavra marketing ganhou conotações negativas por estar associada à atitude dos promotores de restaurante que mencionei no início do texto. Sentimos que eles apenas querem o nosso dinheiro. Seus comportamentos beiram a agressividade e parecem tentar nos intimidar a gastar em seus estabelecimentos.

Essa forma de fazer marketing ainda é usada porque funciona em certas situações, mas existe outra forma de promover produtos e serviços que representa uma abordagem diferente.

Essa abordagem encara marketing como um canal de comunicação que permite ao potencial comprador identificar se ele e o vendedor podem estabelecer uma relação onde ambos saem ganhando.

Acredito que o marketing que traz resultados mais duradouros estabelece um diálogo focado em identificar que crenças, valores e objetivos ambas as partes têm em comum.

Nesta TedTalk, Simon Sinek fala sobre o que ele chama de círculo de ouro. No círculo maior, está O QUE empresas oferecem. No caso dos escritores independentes, o que eles oferecem são seus livros.

Em um círculo menor dentro deste círculo maior está COMO empresas oferecem seus produtos e serviços, ou seja, como elas se diferenciam de seus concorrentes. Muitos escritores tentam se diferenciar resumindo o que sua história tem de mais excitante.

Finalmente, em um círculo menor, localizado dentro desses dois outros círculos, está o PORQUÊ empresas fazem o que fazem. Esse porquê não se refere ao retorno financeiro. Esse porquê é o propósito da empresa, suas crenças e valores, sua razão para existir e, principalmente, o valor que ela gera na vida das pessoas.

O marketing ao qual todos nós estamos acostumados (e que é responsável pelas conotações negativas dessa palavra) tenta estabelecer um diálogo de fora para dentro, mais focado nos círculos do O QUE e do COMO.

Escritores costumam promover seus livros com essa mentalidade. O QUE: “Escrevi um livro. Aqui está a capa. É sobre um adolescente que descobre um portal para outra galáxia dentro da sua geladeira.” COMO: “É uma história super original, cheia de suspense e aventura. Você não vai conseguir parar de ler. Compre aqui.”

O Simon Sinek diz que uma abordagem mais poderosa e eficaz é estabelecer esse diálogo de dentro para fora, do círculo menor para o maior, do PORQUÊ para O QUE. Me vem à mente a Esther Perel, uma terapeuta de casais que conheci assistindo a esta TedTalk.

Nessa palestra, Esther Perel começa compartilhando POR QUE ela faz o que faz (ajudar casais a encontrar uma forma de manter o fogo do desejo aceso, mesmo depois de anos juntos) e COMO ela faz o que faz (ensinando as pessoas a reconciliar a necessidade de segurança e estabilidade com o desejo por aventura e excitação).

As ideias que ela compartilha são tão fascinantes e bem fundamentadas que, ao final do vídeo, eu espontaneamente busquei O QUE ela tem para vender (livros, podcasts etc).

Se você assistir à palestra, vai perceber como Esther Perel se preocupa em, primeiro, afirmar suas crenças, valores e objetivos, compartilhando informações que tragam um benefício imediato para quem a escuta, independentemente da compra de seus livros ou contratação de seus serviços.

Ela entrega valor mesmo sem garantias de que receberá algo em troca.

Caso você ainda não tenha percebido, o Ficção em Tópicos foi criado com base nessa mesma filosofia.

Como exercício, vamos imaginar como seria se Esther Perel começasse sua palestra focando na parte de fora do círculo de ouro, apresentando O QUE ela tem para vender. Ela começaria sua TedTalk mostrando seu livro, resumindo o conteúdo da obra e reforçando o quanto ela é uma terapeuta de casais competente e experiente.

Depois, ela reforçaria como o conteúdo do seu livro ensina as pessoas a reconciliar a necessidade de segurança e estabilidade com o desejo por aventura e excitação. Finalmente, ela diria que sua missão é ajudar casais a encontrar uma forma de manter o fogo do desejo aceso, mesmo depois de anos juntos.

Tudo que fiz foi inverter a ordem de apresentação das informações, mas isso mudaria nossa percepção sobre Esther e seu trabalho. Se ela começasse falando do seu livro, o foco estaria no objeto em si.

Como ela começa falando do que inspira seu trabalho, sobre qual sua missão e no que ela acredita, o foco é redirecionado para o valor que ela pode trazer para casais que desejam repensar seus relacionamentos. O livro se torna apenas o veículo que ela usa para fazer isso.

Eis a lição fundamental que Simon Sinek compartilha em sua palestra:

As pessoas não compram O QUE você faz, elas compram POR QUE você faz o que faz.

Seu objetivo não deve ser encontrar pessoas que comprem seu livro, mas sim encontrar pessoas que se interessem em pensar sobre os temas que você escreve. Seu livro é apenas uma representação material do valor que você quer trazer para o mundo, um manifesto sobre que ideias, na sua opinião, merecem ser contempladas.

Ao invés de apenas tentar vender um livro, foque em se conectar com leitores que potencialmente vão querer ler tudo o que você escreve. Se você investir sua energia em compartilhar os seus porquês, possivelmente vai atrair mais pessoas com interesse genuíno em conhecer seu ponto de vista. Seus livros seriam apenas o veículo para que isso acontecesse.

Ao invés de promover seu livro usando a fórmula previsível e desgastada de capa + sinopse + passagem, experimente criar e compartilhar conteúdo focado nos temas que você explorou no texto e no porquê tais temas interessam você.

As pessoas não compram livros pelas qualidades que seus escritores enaltecem sobre suas obras, mas pela crença de que a leitura trará algum valor para suas vidas, seja esse valor entretenimento, distração, inspiração, emoção ou contemplação.

Pare de promover o que você escreve em busca de validação, de aprovação, de busca por fama ou dinheiro. Tenha a intenção genuína de informar, entreter ou inspirar outras pessoas. Mesmo que seu livro siga vendendo pouco, pelo menos você estará contribuindo para tornar o mundo um pouco melhor.

Que estratégias você já usou para promover seus livros? Quais deram resultado?

Aprenda a escrever para expressar, não para impressionar.

O Jardineiro de Ideias é um curso/oficina ONLINE que ensina a escrever ficção de um jeito mais intuitivo, espontâneo e criativo. CLIQUE AQUI para saber mais.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 10 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

5 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. R Guerra Cruz 18/01/2019

    Ótimo trabalho! Eu sigo divulgando um pouco tradicionalmente, o velho marketing 2.0 tentando ir pro 3.0 onde valores importam. Eu faço vídeos e conto do meu processo criativo, como eu me aventuro na escrita, faço conteúdo sobre temas que gosto e que aparecem nos livros, como filmes que inspirou-me. Por aí vai!

  2. Sônia Borges 19/01/2019

    Achei muito interessante essa abordagem. Acabei de escrever um romance e essa dica me valeu muito. Obrigada.

  3. Abel Sidney 20/01/2019

    Parabéns, Diego, pelo texto bem elaborado e inspirador.

    Penso em ampliar a minha presença como escritor no Domínio Público (www.dominiopublico.gov.br). Creio que seja uma maneira interesse de partilhar tudo o que já escrevi e está engavetado.

    Um dos meus contos, lá postado, já passou das 200 mil visualizações. Algumas editoras voltadas aos livros didáticos já me compraram os direitos.

    Vou, pois, nesta direção, da partilha em larga escala…

  4. Carlos Estevez 30/01/2019

    Ótimo texto! Abraço!

  5. Vanessa Barbosa 18/04/2019

    Tenho o sonho de me tornar escritora. Nunca cheguei a escrever um livro, estou começando algumas páginas, mas já estou pesquisando sobre divulgação e afins. Enfim vou atrás desse sonho de infância. Amei o texto, vai me ajudar muito. Espero um dia escrever tão bem assim.

Gostou do texto? O autor vai adorar saber. Deixe um comentário e compartilhe o artigo com outros escritores.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

 

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Copyright 2010-2019 Diego Schutt - Todos os Direitos Reservados | Ficção em Tópicos