Escreva para expressar, não para impressionar.

Livros com muitos fatos e pouca narrativa derretem na mão do leitor

Por Dawn Field em 22/01/2019 Tópicos: Escrever Ficção, Estrutura
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Foto de Patrick Fore no Unsplash

Uma história bem construída tem um bom equilíbrio entre fatos e narrativa. Este texto transforma tal conceito em uma metáfora doce e colorida.

Já aconteceu de você estar lendo um livro e, de repente, pensar “Há uma série de fatos nesta passagem, mas o que está acontecendo? Qual é o significado maior deste trecho? Como isso está ligado à história principal?”

Em um bom livro, o que nos mantém lendo é um fio condutor, a progressão da história, o porquê de cada passagem do texto.

Se você perdeu isso de vista, é possível que tenha se distraído.

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No trabalho de um escritor amador, em um trabalho inacabado ou simplesmente em uma história mal escrita, isso pode significar que a narrativa desvaneceu, enquanto o fluxo de fatos seguiu ininterrupto.

Este é o problema de um milhão de jujubas e nenhuma tigela.

Você não consegue segurar uma grande quantidade de coisas pequenas sem um recipiente para colocá-las. Não importa o quão coordenado você seja, suas mãos têm uma capacidade limitada para segurar jujubas, e se você está ocupado com isso, não pode fazer mais nada.

Sem contar que, quando você segura certas coisas na palma da mão por muito tempo, elas tendem a derreter.

Seus leitores não conseguirão registrar uma enxurrada de fatos sem um fio condutor que os ajude organizá-los e interpretá-los. Esse fio condutor é a narrativa.

Frequentemente, um texto confuso é resultado de um excesso de informações compartilhadas no início do livro ou de longas explicações sobre o passado dos personagens e o mundo ficcional. Mas o problema de muitas jujubas e poucas tigelas pode acontecer em qualquer parte de um livro.

Se você começar a atirar jujubas no leitor antes de lhe dar uma tigela, muitas dessas jujubas vão se perder. Se você dá uma tigela grande para o leitor mas não oferece muitas jujubas, o leitor se sente desrespeitado. O segredo está em encontrar um equilíbrio.

A escrita se constitui de pequenas partes. Escrever bem é organizar com perícia palavras em frases, frases em parágrafos e parágrafos em passagens, capítulos e, finalmente, um livro.

A narrativa é o coração das histórias.

A narrativa é a substância do texto sem todos os detalhes requintados [da prosa]. É o fio condutor [que guia a compreensão de cada passagem]. Se as jujubas são fatos [sobre algum ingrediente da história], a narrativa é a tigela [que ajuda o leitor a entender a relevância desses fatos].

Narrativas bem construídas dão aos leitores um senso dos porquês:

  • Ah, estou lendo essa passagem longa em que Mark encontra seu caminho na floresta porque…
  • Ah, estou lendo esta passagem longa sobre como tecer cestas porque…
  • Ah, estou tendo que ler esta cena de tortura muito desconfortável porque… (é melhor que você tenha uma boa justificativa para isso)

Se os leitores não têm uma noção da grande narrativa que serve como fio condutor das pequenas narrativas, eles não saberão como interpretar cada passagem individual do texto. Eles não conseguirão se envolver com a história.

Talvez eles desistam da leitura. Se aquilo que você compartilha no texto não têm uma conexão forte com a grande narrativa do livro, você está apenas apresentando blocos de informação isolados.

É parte do seu trabalho despertar a curiosidade dos leitores. Eles continuarão lendo seu texto com satisfação se estiverem ansiosos por desvendar a resposta para uma pergunta e por descobrir o que acontecerá na sequência.

Então, na verdade, um livro é um armário cheio de tigelas de diferentes tamanhos.

Cabe a você encher essas tigelas com jujubas. Você pode oferecer tigelas minúsculas para organizar o conteúdo de um único parágrafo – por exemplo, a descrição de um personagem. Para conter um capítulo, você precisa oferecer uma tigela grande. A maior de todas as tigelas é a que contém sua visão para a grande narrativa que dá coesão para o livro.

Idealmente, seu armário é bem construído e tem tudo em seu lugar – e um lugar para tudo. A arte de arquitetar um bom livro consiste na construção de um armário, na organização de tigelas e no preenchimento dessas tigelas com jujubas saborosas.

Releia seu livro e tente identificar as jujubas e as tigelas. Você têm tigelas suficientes para todas as jujubas? Você têm bastante jujubas para preencher todas as tigelas? Como o seu armário está organizado?

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Sobre o Autor

Dawn FieldLer todos os textos de Dawn Field
Dawn Field ama livros e se interessa em entender de que são feitas as grandes histórias. Depois de uma carreira de 20 anos em pesquisa científica, seu primeiro livro “Biocode” foi publicado pela Oxford University Press. Ela mora no estado de Virgínia, nos Estados Unidos, e deseja trabalhar com escritores de ficção como mentora, editora e consultora sobre o processo de publicação. Ela também é criadora do site unityinwriting.blog. Dawn Field autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

2 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. C. Vieira 04/02/2019

    Eu me preocupo bastante com este equilíbrio quando escrevo. Nos primórdios de minhas aventuras como escritora, meu maior problema era que eu escrevia gigantescas descrições (muitas vezes, por preguiça de escrever outras ao longo da estória) e depois simplesmente não conseguia criar o equilíbrio com a narrativa. Havia também a questão dos diálogos que não brotavam fácil deste terreno que é a minha mente. E assim, as histórias se reduziam a gigantescas descrições, que eram inúteis sem um contexto lógico (narrativa) para estarem em um capítulo. Como diz no texto, muitas jujubas, uma infinidade delas e praticamente nenhuma tigela.
    Era enlouquecedor. Mas fui teimosa o suficiente para gradualmente aprender como equilibrar descrição e narrativa. Considero meus textos ainda medianos, precisando de mais lapidação. Mas só o tempo me ensinará como melhorá-los cada vez mais.
    E antes que me esqueça, ótimo artigo!

  2. Diego Schutt 05/02/2019

    Oi Cris

    Vale reforçar que o problema não é a escrita de descrições gigantescas mas, como você falou, a falta de habilidade para, ao editar o texto, encontrar esse equilíbrio entre fatos e narrativa.

    Que ótimo saber que sua teimosia (prefiro chamar de persistência) ajudou você a refinar suas histórias. Espero que o Ficção em Tópicos contribua no constante aperfeiçoamento das suas habilidades de escritora.

    Obrigado pelo comentário e pela leitura.
    abs
    Diego

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