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A influência do ritmo da história na experiência de leitura

By Diego Schutt on 14/11/2018 in Dicas, Escrever Ficção, Estilo, Técnicas
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Este é o terceiro artigo da série “A influência do ritmo do texto na experiência de leitura”.

No primeiro artigo, falei sobre a influência do ritmo da linguagem na experiência de leitura através do uso de pontuação, vozes verbais, frases prolongadas e variações estruturais.

No segundo artigo da série, falei sobre a influência do ritmo da narrativa na experiência de leitura através do uso de prosa dramática, prosa subjetiva e prosa contemplativa.

Neste artigo, vou falar sobre a influência do ritmo da história na experiência de leitura através do uso de ação, tensão e mistério.

Ação

Ação corresponde aos comportamentos dos personagens. É o que dá um senso de movimento para o enredo, e permite ao leitor imaginar vividamente o que está acontecendo.

Você pode usar a descrição de ações para aumentar ou diminuir o ritmo da história. Observe este trecho do conto “Uma vela para Dario”, do escritor Dalton Trevisan.

“Dario vem apressado, guarda-chuva no braço esquerdo. Assim que dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede. Por ela escorrega, senta-se na calçada, ainda úmida de chuva. Descansa na pedra o cachimbo.

Dois ou três passantes à sua volta indagam se não está bem. Dario abre a boca, move os lábios, não se ouve resposta. O senhor gordo, de branco, diz que deve sofrer de ataque.

Ele reclina-se mais um pouco, estendido na calçada, e o cachimbo apagou. O rapaz de bigode pede aos outros se afastem e o deixem respirar. Abre-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe tiram os sapatos, Dario rouqueja feio, bolhas de espuma surgem no canto da boca.”

Perceba como a história se desenrola com rapidez, como cada frase representa uma ação dramática, ou seja, um acontecimento que tem impacto no desenvolvimento da história. Não há pausas para contemplação ou detalhamento. A narrativa segue em linha reta, um acontecimento atropelando o outro, criando um ritmo acelerado para a história.

Para diminuir o ritmo dessa passagem, o escritor poderia incluir as descrições de pequenas ações que detalham a ação principal. O trecho acima poderia ser reescrito desta forma:

“Dario caminhava apressado, seus passos tão largos quanto suas pernas curtas permitiam. Segurava o guarda-chuva com a mão esquerda, os dedos visivelmente moles e cansados, a mão cerrada ameaçando se abrir. Com a mão direita, segurava o chapéu que o vento assoprava com insistência. A cada passo, a chuva parecia encontrar novas formas de molhá-lo.”

Perceba como a história não sai do lugar neste parágrafo. O único evento relevante compartilhado é Dario caminhando pela chuva. Isso representa a ação principal desse momento da história. O próximo momento crucial acontece quando ele “dobra a esquina, diminui o passo até parar, encosta-se a uma parede”, que na versão original do texto, aparece logo após a primeira frase.

Para diminuir o ritmo do texto, incluí a descrições de pequenas ações que detalham a ação principal apresentada nessa primeira frase. Revelo a forma como ele caminha, como segura o guarda-chuva e o chapéu, e como a chuva estava molhando ele por completo. Ao aumentar a distância entre dois acontecimento cruciais do enredo, o ritmo da história diminui.

Tensão

Tensão é um momento em que algo perturbador, surpreendente ou inesperado acontece, provocando apreensão. Momentos de tensão introduzem um conflito imediato no enredo.

Você pode usar tensão para aumentar ou diminuir o ritmo da história. Veja como isso funciona em outro trecho do conto “Uma vela para Dario”, do escritor Dalton Trevisan.

“A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. Um grupo o arrasta para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? Concordam chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede – não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.”

Essa passagem compacta dois momentos de tensão: a velhinha gritando que o homem está morrendo (algo perturbador), e o taxista perguntando quem pagará a corrida (algo inesperado). Ao apresentar dois momentos de tensão tão próximos, o escritor acelera o ritmo da história.

Uma possibilidade para diminuir o ritmo desse trecho seria introduzir outros acontecimentos para aumentar a distância entre o primeiro e o segundo momento de tensão.

“A velhinha de cabeça grisalha grita que ele está morrendo. As mulheres suspiram com a mão tapando a boca. O burburinho da multidão acorda um bebê que dormia no colo da mãe. O choro estridente da criança faz muitos abandonarem a cena. Dois homens arrastam Dario pelo braço em direção ao taxi da esquina. Um terceiro recolhe os sapatos que se desprenderam dos pés. Abrem a porta do carro e explicam ao motorista a urgência da situação, enquanto empurram Dario para dentro do veículo. Já no carro a metade do corpo, protesta o motorista: quem pagará a corrida? As pessoas se entreolham, suas expressões agora menos preocupadas e mais constrangidas. Em silêncio, puxam o corpo para fora do taxi. Concordam chamar a ambulância. Colocam Dario de volta e recostado à parede – não tem os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.”  

Perceba como o acréscimo de informações aumenta a distância entre os dois momentos de tensão apresentados nessa passagem, diminuindo o ritmo da história. Essa versão do texto expande um pouco mais cada momento de tensão (a velhinha gritando que o homem está morrendo, e o taxista perguntando quem pagará a corrida), ampliando a apreensão e a expectativa sobre o que acontecerá na sequência.

A intensidade do ritmo da história é diretamente proporcional à proximidade entre os momentos de tensão do enredo. Momentos de tensão próximos resultam em um ritmo acelerado, momentos de tensão distantes resultam em um ritmo mais lento.

Mistério

Mistério é algo que não pode ser facilmente compreendido ou explicado, ou um acontecimento que provoca curiosidade sobre como uma situação vai se resolver.

Você pode usar mistério para aumentar ou diminuir o ritmo da história. Observe mais um trecho do conto “Uma vela para Dario”, do escritor Dalton Trevisan.

Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O carro negro investe a multidão. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes.

O guarda aproxima-se do cadáver, não pode identificá-lo – os bolsos vazios. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio – quando vivo – só destacava molhando no sabonete. A polícia decide chamar o rabecão.”

Esse trecho introduz um momento de mistério na cena quando o carro da polícia chega ao local. A multidão pisoteia o corpo de Dario e, como leitores, nos perguntamos: o que vai acontecer na sequência? A polícia vai interrogar algumas das pessoas presentes no local? Vai prender alguns suspeitos? Vai transportar o corpo para um necrotério? Seguimos a leitura curiosos para descobrir as respostas para essas perguntas.

Não demora muito para descobrirmos o que acontece. Após seis frases, descobrimos que a polícia decidiu chamar o rabecão (veículo que transporta cadáveres), encerrando o mistério rapidamente e, assim, acelerando o ritmo da história.

Caso o escritor quisesse diminuir o ritmo da história, eis uma possível forma de fazer isso:

“Registra-se correria de uns duzentos curiosos que, a essa hora, ocupam toda a rua e as calçadas: é a polícia. O gemido da sirene do camburão provoca um alvoroço. O carro negro investe a multidão, que se movimenta em todas as direções abrindo espaço para o veículo passar. Várias pessoas tropeçam no corpo de Dario, pisoteado dezessete vezes. Muitos correm para ruas laterais, outros para dentro de estabelecimentos comerciais. Pouco mais de uma dezena de pessoas seguem ao redor do corpo, braços cruzados, expressões curiosas. Todos olham na direção do carro da polícia, estacionado em frente ao corpo. Os vidros escuros impedem que se enxergue dentro do veículo. 

Um guarda sai do carro sem pressa. Ele caminha com a mão direita apoiada no cassetete preso a sua cintura, estudando as pessoas aglomeradas ao redor de Dario. Aproxima-se do corpo, dá tapinhas no rosto do cadáver, confere as horas no seu relógio de pulso. Tateia os bolsos laterais e traseiros de Dario, todos vazios. Não pode identificá-lo. Resta na mão esquerda a aliança de ouro, que ele próprio – quando vivo – só destacava molhando no sabonete. A polícia decide chamar o rabecão.”

Nessa versão do texto, retardei a revelação do mistério sobre o que aconteceria com a chegada da polícia ao local e, assim, diminuí o ritmo da história. Assim como no uso de ação e tensão, mistério também pode ser usado para desacelerar o ritmo do enredo através do aumento da densidade de informações que você compartilha sobre cada momento crucial do enredo.

Um mistério solucionado rapidamente acelera o ritmo da história, enquanto um mistério mantido por páginas ou capítulos diminui o ritmo da história.

 

Alongar a descrição de um certo momento da história pode enriquecer a verosimilhança do texto, mas também pode tornar o ritmo da narrativa arrastado demais. Uma série de eventos importantes apresentados em sequência pode criar um senso de excitação no leitor, mas também pode fazer sua história soar mais como um resumo superficial. Mistérios que demoram para ser resolvidos têm o potencial de despertar curiosidade sobre a história, mas também pode parecer um truque barato para forçar o leitor a não abandonar o texto.

Encontrar um ritmo para sua história é muito mais arte do que ciência. Releia o que escreveu, experimente compartilhar diferentes densidades de informação em certas passagens, peça a opinião de leitores em quem você confia. Trabalhar no ritmo do seu texto pode enriquecer ainda mais a experiência de leitura da sua história.

Contribua para enriquecer este artigo deixando um comentário com perguntas ou pontos com os quais você discorda.

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Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 8 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

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