Escreva para expressar, não para impressionar.

A influência do ritmo da narrativa na experiência de leitura

By Diego Schutt on 19/09/2018 in Dicas, Escrever Ficção, Estilo, Técnicas
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Este é o segundo artigo da série “A influência do ritmo do texto na experiência de leitura”.

No primeiro artigo, falei sobre a influência do ritmo da linguagem na experiência de leitura através do uso de pontuação, vozes verbais, frases prolongadas e variações estruturais.

Neste artigo, vou falar sobre a influência do ritmo da narrativa na experiência de leitura através do uso de prosa dramática, prosa subjetiva e prosa contemplativa.

Prosa Dramática

A prosa dramática foca em acontecimentos concretos e nos comportamentos dos personagens. São as passagens que descrevem o que está acontecendo em uma cena, e as ações e reações externas dos personagens.

Você pode usar prosa dramática para aumentar ou diminuir o ritmo da narrativa. Observe este trecho do conto “Obscenidades para uma dona de casa”, do escritor Ignácio de Loyola Brandão:

“Andava para lá, entrava na cozinha, preparava nescafé. Ligava televisão, desligava, abria o livro. Regava a planta já regada, girava a agenda telefônica, à procura de amiga a quem chamar. Apanhava o litro de martíni, desistia.”

Para representar a ansiedade da personagem, o escritor descreve uma sequência de comportamentos que aceleram o ritmo da narrativa.

Para diminuir o ritmo da narrativa, este mesmo trecho poderia ser reescrito desta forma:

“Entrou na cozinha, caminhou até o armário próximo à mesa e abriu a porta. A mão vasculhou entre os potes, os dedos ansiosos para agarrar alguma coisa. Encontrou nescafé. Abriu a tampa e inspirou o pó com os olhos fechados. Sorriu. Depois encheu a chaleira com água quente na torneira da pia e foi até o fogão.”

Perceba como o ritmo da narrativa diminuiu e como a personagem não parece mais tão ansiosa, em comparação com a versão original do texto. Esse efeito é resultado do acréscimo de detalhes sobre certas ações da personagem.

Na primeira versão, em quatro frases, o escritor estabelece que a personagem andava pela casa, entrava na cozinha, preparava café, ligava e desligava a tv, abria um livro, regava a planta, girava a agenda telefônica, e apanhava o martíni. Na segunda versão, mesmo depois de cinco frases, a personagem ainda nem preparou o café.

Ou seja, o ritmo da narrativa acelera ou desacelera à medida que você descreve mais ou menos passos do personagem para fazer alguma coisa.

Prosa Subjetiva

A prosa subjetiva foca na experiência subjetiva de um personagem. São as passagens que revelam seu fluxo de pensamentos e emoções, descrevendo o que, de fato, está se passando na mente de um personagem em um determinado momento.

Você pode usar prosa subjetiva para aumentar ou diminuir o ritmo da narrativa. Observe este outro trecho do conto “Obscenidades para uma dona de casa”, do escritor Ignácio de Loyola Brandão:

“Quatro horas, vontade de descer, perguntar se o carteiro chegou, às vezes vem mais cedo. Por que há de vir? Melhor esperar, pode despertar desconfiança. Porteiros sempre se metem na vida dos outros, qualquer situação que não pareça normal, ficam de orelha em pé. Então, ele passará a atenção no que o carteiro está trazendo de especial para a mulher do 91 perguntar tanto, com uma cara lambida. Ah, aquela não me engana! Desistiu. Quanto tempo falta para ele chegar?”

Nessa passagem, o narrador compartilha os pensamentos da personagem sobre o porteiro do seu prédio. São apenas alguns pensamentos rápidos e pouco elaborados. Por isso, o ritmo da narrativa é acelerado.

Para diminuir o ritmo da narrativa, este mesmo trecho poderia ser reescrito desta forma:

“Quatro horas, vontade de descer, perguntar se o carteiro chegou, às vezes vem mais cedo. Por que há de vir? Melhor esperar, pode despertar desconfiança. Porteiros sempre se metem na vida dos outros, qualquer situação que não pareça normal, ficam de orelha em pé. Então, ele passará a atenção no que o carteiro está trazendo de especial para a mulher do 91 perguntar tanto, com uma cara lambida. Ah, aquela não me engana. O desespero ansioso, a agitação excitada. São emoções intensas demais para uma dona de casa sentir no meio da tarde. Não devia satisfação nenhuma ao porteiro. Ele quem deveria se preocupar em não perder o emprego. Mas o homem poderia inventar mentiras a seu respeito por tão pouco, esculhambar sua vida, sua rotina, suas certezas. Não valia a pena. Desistiu. Quanto tempo falta para ele chegar?”

Ao fixar a atenção do leitor por mais tempo no fluxo de pensamentos da personagem sobre o porteiro do prédio, esta versão diminui o ritmo da narrativa.

Na primeira versão, o escritor dedica três frases para descrever os pensamentos da personagem sobre o porteiro. Na segunda versão, usei oito frases.

Ou seja, o ritmo da narrativa acelera ou desacelera a medida em que você descreve mais ou menos pensamentos da personagem sobre um determinado tópico.

Prosa Contemplativa

A prosa contemplativa, em um nível concreto, foca em descrever detalhes sobre um cenário, um personagem ou uma situação. Em um nível abstrato, a prosa contemplativa é usada para revelar informações sobre o passado de um personagem, detalhes sobre sua personalidade, suas crenças, valores e desejos. Prosa contemplativa também é usada para compartilhar as percepções, críticas ou reflexões do narrador a respeito de um certo assunto. São as passagens do texto que ilustram, revelam, defendem ou explicam a forma particular como o narrador ou um determinado personagem interpreta uma situação ou tema.

Você pode usar prosa contemplativa para aumentar ou diminuir o ritmo da narrativa. Observe mais um trecho do conto “Obscenidades para uma dona de casa”, do escritor Ignácio de Loyola Brandão:

“Ela não gostava de coisas fora do normal, instituiu sua vida dentro de um esquema nunca desobedecido, pautara o cotidiano dentro da rotina sem sobressaltos. Senão, seria muito difícil viver. Cada vez que o trem saía da linha, era um sofrimento, ela mergulhava na depressão. Inconsolável, nem pulseiras e brincos, presentes que o marido trazia, atenuavam. 

Na fossa, rondava como fera enjaulada, querendo se atirar do nono andar. Que desgraça se armaria. O que não diriam a respeito de sua vida. Iam comentar que foi por um amante. Pelo marido infiel. Encontrariam ligações com alguma mulher, o que provocava nela o maior horror. Não disseram que a desquitada do 56 descia para se encontrar com o manobrista, nos carros da garagem? Apenas por isso não se estatelava alegremente lá embaixo, acabando com tudo.”

Na passagem acima, o narrador compartilha informações para nos ajudar a olhar para o mundo com os olhos da personagem. O trecho sugere que essa dona de casa é conservadora, medrosa e preocupada com a opinião dos outros. Entendemos que essa personagem precisa se sentir no controle da própria vida, caso contrário, ela entra em depressão e tem vontade de se atirar pela janela do apartamento. O narrador também contempla o que impede essa mulher de se matar: as possíveis fofocas que inventariam sobre ela.

Perceba como nada de concreto acontece nesse trecho da história. Os relatos do narrador estão focados na personalidade, nas crenças e nos valores da personagem. Ou seja, trata-se de uma passagem do texto que convida o leitor a contemplar a forma como essa dona de casa olha para o mundo e, por isso, o ritmo da narrativa diminui.

Para aumentar o ritmo desta passagem, eis uma possibilidade:

“Ela não gostava de coisas fora do normal, pautara o cotidiano dentro da rotina sem sobressaltos. Senão, seria muito difícil viver. Cada vez que o trem saía da linha, era um sofrimento, ela mergulhava na depressão. Na fossa, sentia vontade de se atirar do nono andar. O que não diriam a respeito de sua vida. Apenas por isso não se estatelava alegremente lá embaixo.”

O trecho acima também é caracterizado pelo uso de prosa contemplativa, mas como extraí uma série de detalhes da versão original, o ritmo da narrativa aumenta. Isso significa que você pode controlar a velocidade com que a narrativa se desenrola compartilhando mais ou menos percepções, críticas ou reflexões do narrador a respeito de um certo tópico.

 

Nos próximos artigos desta série, vou falar sobre a influência do ritmo da história na experiência de leitura.

Contribua para enriquecer este artigo deixando um comentário com perguntas ou pontos com os quais você discorda.

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About the Author

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Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 8 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

7 Comments

  1. Benedita Aparecida Lopes 20/09/2018

    Bem pensado este texto porque se considerarmos as entonações das palavras e mesmo a fala cotidiana perceberemos que ela tem ritmo, assim, passar da fala para escrita passa a ser mais lúdico e portanto mais agradável criar o texto. Considerar o ritmo do texto me ajudar a aprimorar meus textos, escrevo poesia esse tópico me ajuda apesar de pontuar o texto narrativo o que para mim facilita tanto para o diálogo com os personagens, quanto para a narrativa propriamente dita, em suma consigo escrever com mais leveza, mesmo ao abordar assuntos ou temas polêmicos.

  2. walterdelucia 21/09/2018

    As vezes me perco em comentar seus artigos, desculpe-me,pela falta de gratidão, continue assim, creio existir muitos como eu, mas hoje quero me redimir e agradecer, deixar meu “muito obrigado”. abraço amigo!

  3. Ivone de Souza Scarsi 21/09/2018

    Texto maravilhoso. Estou há algum tempo pensando em escrever. Mas a autocrítica, a insegurança não me deixam agir. Estou aproveitando muito e grata. Quem sabe,a partir de seus ensinamentos ganho coragem. Parabéns! Gratidão! Abraços.

  4. Author
    Diego Schutt 25/09/2018

    Obrigado pelo comentário, Walter e Benedita! 🙂

  5. Author
    Diego Schutt 25/09/2018

    Obrigado pelo comentário Ivone! Espero que os textos do Ficção em Tópicos motivem você a escrever mais!

  6. Leonardo Kluck 26/09/2018

    Dormi no ponto e aqui estou eu uma semana depois da publicação lendo este post maravilhoso. Preciso criar o hábito de abrir minha caixa de entrada mais vezes kkk

  7. Ruan Carlos 08/10/2018

    Excelente artigo. Em tempos em que o leitor está cada vez mais impaciente e acostumado com meios de informação fugazes (netflix, redes sociais, etc), cabe a literatura encontrar seu espaço diante desse novo contexto de mundo.

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