Escreva para expressar, não para impressionar.

A influência do ritmo do texto na experiência de leitura #1

Por Diego Schutt em 06/09/2018 Tópicos: Dicas, Escrever Ficção, Estilo, Técnicas
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Este é o primeiro artigo da série “A influência do ritmo do texto na experiência de leitura”.

Quando você escuta uma música e acompanha batendo o pé ou batendo palmas, você faz isso seguindo o ritmo da canção. Ritmo é, basicamente, um padrão de movimento que dá forma para uma música.

Um pagode tem um ritmo mais lento que um funk. Um jazz tem um ritmo mais complexo que uma balada. Cada gênero musical tem um padrão rítmico que influencia na forma como uma música afeta quem a escuta.

Em textos, no entanto, ritmo não é um elemento tão óbvio e fácil de identificar mas, assim como em música, ele influencia na forma como interpretamos e reagimos a uma narrativa. 

Em textos de ficção, podemos identificar três tipos de ritmos: o ritmo da linguagem, o ritmo da narrativa, e o ritmo da história.

Neste artigo, falo sobre a influência do ritmo da linguagem na experiência de leitura através do uso de pontuação, vozes verbais, frases prolongadas e variações estruturais.

Pontuação

Um aspecto da linguagem que tem grande influência no ritmo de um texto é o uso de pontuação. Observe este exemplo extraído do conto “Chapeuzinho Vermelho” de Nara Vidal (disponível aqui):

“Dois olhos verdes se cruzam com o meu. É um homem. Lá do alto de uma clareira ele corta lenhas, corta com o machado qualquer coisa que imagino ser lenha. Nossos olhos se encontram e eu finjo desdém. Eu finjo desdém porque tenho muito medo do homem. Tenho medo porque o privilégio é todo dele. É ele quem pode vir me pegar, correr atrás de mim se assim quiser.”

Perceba como essa sequências de frases curtas interrompe o fluxo de leitura do texto, criando um ritmo que passa um senso de imediatismo e urgência.

Agora observe uma versão do parágrafo acima, onde a extensão das frases é mais longa: “Dois olhos verdes se cruzam com o meu e eles perecem a um homem que, lá do alto de uma clareira, corta lenhas, corta com o machado qualquer coisa que imagino ser lenha. Nossos olhos se encontram e eu finjo desdém porque tenho muito medo do homem e porque o privilégio é todo dele, já que é ele quem pode vir me pegar, correr atrás de mim se assim quiser.”

Repare como essa sequência de frases mais longas faz a leitura do texto fluir com mais leveza, criando um ritmo que passa um senso de contemplação.

Qual das opções funciona melhor? Essa é uma decisão subjetiva, que está relacionada ao estilo do escritor e à experiência de leitura que ele deseja criar.

Vozes Verbais

Outro aspecto da linguagem que contribui para o ritmo do texto é a escolha da voz verbal. A voz verbal é a forma que o verbo assume para indicar se o sujeito da frase é agente ou recipiente da ação. Existem três vozes verbais em português: ativa, passiva e reflexiva.

Na voz ativa, o sujeito gramatical pratica a ação expressa pelo verbo. Por exemplo, “O Diego escreveu esta frase.” Na voz passiva, o sujeito gramatical é recipiente da ação expressa pelo verbo. Por exemplo, “Esta frase foi escrita pelo Diego.” Na voz reflexiva, o sujeito tanto pratica quanto recebe a ação. Por exemplo, “O Diego se permitiu escrever esta frase.”

De uma forma geral, o uso da voz ativa dá mais dinamismo para o texto. O uso das vozes passiva e reflexiva comumente dão um tom mais contemplativo para o texto.

Um bom exercício é considerar que passagens da sua história podem se beneficiar de mais dinamismo ou de um tom mais contemplativo. Experimente mudar as vozes verbais das frases e veja que impacto isso tem no ritmo da leitura.

Frases Prolongadas

“Como nossas ideias ainda não estão claras, é muito comum que os primeiros rascunhos de um texto sejam bastante recheados de palavras, expressões e frases que não acrescentam valor à narrativa e simplesmente ocupam espaço na página por serem extremamente redundantes.” Tal frase exemplifica o uso de frases prolongadas.

Eis uma forma mais objetiva de expressar a mesma ideia: “Nos primeiros rascunhos de um texto, a falta de claridade sobre nossas ideias resulta na escrita de frases prolongadas.” A primeira frase tem 41 palavras e diminui o ritmo do texto. A segunda, 19 palavras e acelera o ritmo do texto.

Ao eliminar frases prolongadas, o texto ganha em objetividade e dinamismo. Mas muitas vezes, certas palavras e expressões – apesar de desnecessárias para o entendimento de uma ideia – tornam a frase mais bonita, precisa ou intrigante.

Sua intenção e sensibilidade são seus melhores guias para avaliar quando é pertinente sacrificar objetividade por estética e vice-versa.

Variações Estruturais

Se você usar repetidamente a mesma estrutura frasal em uma passagem do texto, o resultado pode soar artificial. O escritor americano Gary Provost deu um ótimo exemplo disso:

Esta frase tem cinco palavras. Aqui há mais cinco palavras. Frases de cinco palavras funcionam. Mas várias juntas fica monótono. Escute o que está acontecendo. A leitura se torna tediosa. O som começa a zumbir. É como um disco riscado. O ouvido pede mais variedade.

Ao intercalar frases com estruturas diferentes, você dá mais dinamismo para o texto. Novamente, um exemplo dado pelo escritor americano Gary Provost:

Agora ouça. Vario o comprimento de cada frase, e crio música. Música. A escrita canta. Tem um ritmo agradável, uma cadência, uma harmonia. Uso frases curtas. E uso frases de comprimento intermediário. E às vezes, quando estou certo de que o leitor está descansado, o envolvo com uma frase de comprimento considerável, uma frase que arde com energia e que sobe com todo o ímpeto de um crescendo, do rufar de tambores, do choque dos címbalos – sons que dizem: ouça isto, é importante. Portanto, escreva com uma combinação de frases curtas, médias e longas. Crie um som que agrade ao ouvido do leitor. Não escreva apenas palavras. Escreva música.

Perceba como a variação na estrutura das frases cria movimento no texto. Frases curtas e simples são como ondas que molham nossos pés. Frase de comprimento intermediário e estrutura mais elaborada molham nossas pernas. Mas são as frases mais longas e complexas, as frases com orações coordenadas e subordinadas, que nos molham por completo, que nos convidam a mergulhar mais fundo no que está sendo dito e, assim, nos envolvem no texto.

O segredo desse efeito musical está no ritmo criado pelo contraste entre as diferentes estruturas frasais. Frases curtas ganham mais ênfase quando intercaladas com frases mais longas e vice-versa.

 

Sugestão de leitura: Clique aqui para ver o ritmo e estilo de diferentes obras literárias brasileiras de acordo com o número de palavras por frase.

Nos próximos artigos desta série, vou falar sobre a influência do ritmo da narrativa na experiência de leitura.

Contribua para enriquecer este artigo deixando um comentário com perguntas ou pontos com os quais você discorda.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 8 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

13 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Leonardo Kluck 09/09/2018

    Acabei de chegar e já me considero um grande fã deste blog. Todos aqui em casa já se acostumaram com os meus gritos de êxtase toda vez que abro um novo tópico. É um tema mais pertinente que o outro. Considero-me alguém com sorte por ter finalmente achado um lugar onde posso aprender mais sobre essa arte. É isto.

  2. Author
    Diego Schutt 10/09/2018

    Oi Leonardo

    Que bacana saber que você descobriu o Ficção em Tópicos e que está gostando do conteúdo.

    Saber que meus textos provocaram gritos de êxtase é um elogio e tanto! 🙂

    Muito obrigado pela leitura e pelo comentário.

    abs
    Diego

  3. Ricardo 10/09/2018

    Lindo. Perfeito. Era a série de textos que estava esperando para iniciar a revisão dos meus textos. Para você, deixo meus aplausos.

  4. Walter Lencina 10/09/2018

    Diego, este espaço é espetacular. Escrevo profissionalmente há décadas, como redator de publicidade, mas ainda estou engatinhando como pretenso autor. Na verdade, o conteúdo que você posta esclarece uma série de pontos e verbaliza aspectos que intuo, porém não sei como explicar. Afora isso, a variedade e pertinência dos tópicos abordados é coisa de ficção mesmo. Uma grande contribuição para todo e qualquer amante da escrita.

    Obrigado pelo legado, Diego. Assim que dispuser de um tempo maior, farei os seus cursos – estou ansioso por isso. Um abraço! 😉

  5. Author
    Diego Schutt 10/09/2018

    Legal Ricardo! Espero que os artigos ajudem você no processo de revisão dos seus textos. Obrigado pela leitura e pelo comentário.

    Abs
    Diego

  6. Author
    Diego Schutt 10/09/2018

    Oi Walter

    Tudo bem?

    Que ótimo saber que você reconheceu sua intuição no conteúdo dos artigos. É muito bacana receber essa validação de profissionais experientes como você.

    Espero que você siga acompanhando o site e que a gente possa se encontrar em um dos cursos do Ficção em Tópicos no futuro.

    Obrigado pela leitura.

    abs
    Diego

  7. Inês Melo 12/09/2018

    Muito obrigada Diego Schutt pelos seus tópicos excepcionais! Tenho aprendido imenso. Gratidão!

  8. Author
    Diego Schutt 13/09/2018

    Obrigado pelo comentário, Inês! <3

  9. Wagner 18/09/2018

    Diego, tudo bem com você? É formidável seu texto. Vou seguir as dicas de como escrever um texto como um aprendiz. Valeu mestre, boa noite.

  10. Thiago Loriggio 20/09/2018

    Grande texto, Diego! Como sempre bem aprofundado, e muito interessante.
    Mas uma coisa me deixou com dúvida: quando você falou sobre pontuação, você disse que frases curtas deixam a leitura mais rápida… A minha intuição é achar justamente o contrário! Cada ponto final é uma pausa maior do que uma vírgula, que a gente (ou pelo menos eu) faz durante a leitura. O senso de urgência eu concordo, mas ainda me parece que leio mais devagar quando o texto é cheio de frases menores.
    Enfim, continue com o excelente trabalho!

  11. Author
    Diego Schutt 20/09/2018

    Obrigado pela leitura, Wagner!

  12. Author
    Diego Schutt 20/09/2018

    Oi Thiago

    Tudo bem?

    Ótima o seu comentário. Você tem razão. Frases curtas não deixam a leitura mais rápida. Pensei aqui e percebi que o ponto que eu queria destacar não era sobre a velocidade da leitura, mas sobre o fluxo de leitura. Acredito que estas frases expressam a ideia com mais clareza:

    A sequência de frases curtas interrompe o fluxo de leitura do texto, criando um ritmo que passa um senso de imediatismo e urgência.

    A sequência de frases mais longas faz a leitura do texto fluir com mais leveza, criando um ritmo que passa um senso de contemplação.

    O que você acha?

    Muito obrigado pelo comentário.
    abs
    Diego

  13. Thiago Loriggio 21/09/2018

    Tudo certo, Diego! Assim fica mais claro mesmo. Pontuação é uma coisa bem legal de se estudar porque é fácil copiar (mesmo inconscientemente) estruturas bem feitas de livros bons, mas fica muito mais interessante quando começamos a perceber os impactos dela e tomar decisões conscientes.
    Eu que agradeço pelo texto!

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