Escreva para expressar, não para impressionar.

Como atores podem ensinar você a escrever com mais autenticidade

Por Diego Schutt em 31/07/2018 Tópicos: Começar a Escrever, Escrever Ficção, Técnicas
3
94

Uma única cadeira no centro do palco de um teatro. A atriz britânica Helen Mirren caminha com propósito em direção a ela e se senta. Esse é o começo de sua masterclass, e a primeira coisa que ela diz é que uma das coisas mais difíceis de se fazer como ator é caminhar como você. Acredito que isso também se aplica a escritores.

Escrever como você mesmo é uma das coisas mais difíceis de se fazer.

Mirren menciona um jovem ator que ela viu na tv, e como ele usou um conjunto de movimentos cuidadosamente calculados para transmitir uma atitude relaxada quando ele andava, falava e ficava parado. Para Mirren, tal atuação pareceu artificial e inautêntica. Eu diria que isso é resultado da compreensão ingênua desse ator de seu ofício.

Atuar não é usar técnicas para fingir que você é outra pessoa, mas sim encontrar dentro de si uma maneira de pensar e sentir como seu personagem, vivendo com verdade dentro das circunstâncias da história. Um grande ator baseia sua performance em um entendimento profundo das intenções e motivações do seu personagem.

Muitas vezes me deparo com escritores com uma compreensão igualmente ingênua de seu ofício. Eles acreditam que escrever é usar técnicas para fazê-los soar tão inteligentes e profundos quanto seus autores favoritos. Como os personagens criados por atores ingênuos, as histórias que esses escritores criam parecem artificiais e inautênticas porque desviam a atenção dos leitores da substância do texto para a pretensão de seu criador.

O paradoxo da grande literatura é que uma história só pode ser tão inteligente e profunda quanto seu escritor, mas quando a intenção principal do escritor é provar que ele é profundo e inteligente, a história é empobrecida.

A abordagem da atriz Helen Mirren permite a ela evitar que seu trabalho seja empobrecido pela artificialidade da técnica e pelo vazio do narcisismo. Ela menciona novamente a idéia de caminhar como você mesmo afirmando “A única maneira de fazer isso é, simplesmente, na minha cabeça, ter a intenção de caminhar até a cadeira. Essa é sua única intenção. Você apenas pensa eu tenho que chegar até essa cadeira e tenho que me sentar.”

Essa mesma abordagem pode ser libertadora quando você começa a escrever uma história. Comece simplesmente dando a cada um de seus personagens principais uma intenção específica, como por exemplo convencer um amigo a revelar um segredo, esclarecer um mal-entendido no trabalho ou ser o centro das atenções em um jantar.

Seja qual for a ação escolhida, certifique-se de que ela não esteja limitada a nenhum estado físico ou emocional. Enquanto você escreve a cena, siga seus instintos para definir que passos os personagens vão dar para conseguir o que eles querem. Ao dar para seus personagens em cada cena intenções concretas e específicas, você estará concentrando seus esforços no que interessa: encontrar a verdade de cada momento da história.

A masterclass de Helen Mirren me fez pensar sobre que outras técnicas de atuação poderiam ajudar escritores a se expressarem com mais autenticidade. Aqui estão as sete que achei mais úteis.

1. Mergulhe no passado dos seus personagens 

Muitos atores escrevem biografias sobre seus personagens. Eles imaginam os relacionamentos, as motivações, os medos, os traumas e as experiências que moldaram a personalidade e identidade dos seus papeis. O material que eles criam não aparece na história, mas os ajuda a entender seus personagens de dentro para fora e a fazer escolhas adequadas para suas performances.

Como escritor, você pode usar essa técnica para dar complexidade e criar um senso de propósito para todos os personagens da sua história. Entender como seus personagens se tornaram quem são ajudará você a olhar para eles como seres humanos, ao invés de simples ingredientes do enredo.

Mas tenha cuidado. Alguns escritores se apaixonam por esse processo de descoberta e tentam incorporar tudo o que descobriram sobre os personagens na narrativa, independentemente de sua relevância para a história. É preciso aprender a diferenciar o material que é resultado do processo de criação do material que deve ser incluído no texto porque enriquece a experiência de leitura.

2. Use improvisação para explorar novas ideias

Na segunda metade de sua masterclass, Helen Mirren menciona o conceito de Francis Bacon de “acidente inspirado”. Um acidente inspirado é um momento bem-sucedido de improvisação que é diferente do que o artista havia planejado. Bacon acreditava que o objetivo do estudo de técnicas é aprender como diferenciar acidentes bons de acidentes ruins.

Ao desenvolver sua ideia, se mantenha aberto para reconsiderar os principais elementos da sua história. Imagine como a narrativa poderia se tornar mais envolvente se você mudasse o ponto de vista, o conflito, o protagonista, o enredo, o cenário ou o tema. Em seguida, escreva algumas páginas para testar suas teorias.

Este exercício pode ser uma exercício divertido. Você pode encontrar o caminho para sair de um bloqueio criativo apenas questionando as suposições que guiaram a escrita dessa história. Por exemplo, se um personagem engenheiro fosse uma mulher ao invés de um homem, como trabalhar em um ambiente predominantemente masculino poderia influenciar a forma como você caracteriza a personagem? Ou se o seu protagonista fosse um pintor ao invés de um engenheiro, como isso mudaria a história?

3. Identifique a ação essencial de cada personagem

Grandes atores entendem que o diálogo é apenas a expressão superficial de seus personagens. A substância de um papel não está no texto (o que o personagem diz), mas no subtexto (o que o personagem quer dizer). Subtexto sugere o que um personagem está realmente tentando alcançar quando fala.

Ao revisar o diálogo em sua história, identifique a ação essencial que cada personagem está tomando cada vez que diz alguma coisa. Considere como o seu tom, expressões faciais e ações físicas poderiam adicionar outra camada de significado as suas palavras.

Quando você cria um contraste entre sentimentos e comportamentos, você sugere que a substância real do diálogo está nas entrelinhas. Como resultado, os personagens parecem mais intrigantes e os leitores se envolvem com a história em um nível mais profundo porque preenchem as lacunas com sua imaginação.

4. Entenda a jornada emocional de cada personagem

Alguns atores se sentem intimidados quando precisam memorizar uma grande quantidade de falas. Uma técnica útil é se concentrar em uma cena de cada vez. Mas memorizar falas não é suficiente. Um ator também precisa entender como as emoções de seus personagens muda de uma cena para outra.

Você pode usar a mesma abordagem para revisar seu texto. Comece dividindo sua narrativa em partes e, em seguida, tente entender o que cada momento representa para a jornada emocional dos personagens principais e do leitor.

Identifique as mudanças de emoções de seus personagens principais de positivo para negativo (e vice-versa) ao longo da história. Isso revelará o formato da jornada emocional de cada personagem, e ajudará você a considerar que mudanças podem melhorar o tom, o ritmo, o fluxo e a estrutura do texto.

5. Estabeleça uma relação pessoal com cada cena

Para analisar uma cena, o livro A Practical Handbook for the Actor” recomenda o uso da técnica “como se”. Isso ajuda atores a encontrar um significado pessoal para as ações específicas de cada personagem. Um exemplo extraído do livro: se o personagem precisa implorar a alguém próximo para lhe dar uma outra chance, um ator pode definir o que essa ação significa em termos pessoais pensando: É como se eu estivesse persuadindo minha noiva a não terminar nosso relacionamento depois que ela descobriu que eu a trai enquanto ela estava viajando.

Quando você estiver escrevendo uma história, se coloque no lugar de seus personagens principais aplicando a técnica “como se”. Pense em uma forma de olhar para cada situação que ajude você a interpretar o que está acontecendo da perspectiva de cada personagem.

Essa técnica é particularmente útil quando você precisa desenvolver personagens com os quais você não se identifica. Encontrar algo que vocês têm em comum e tentar olhar para o mundo a partir do ponto de vista deles tornará sua escrita mais original, e ajudará você a encontrar a verdade de cada momento da história.

6. Filtre os resultados de pesquisa literal com pesquisa poética

Em sua masterclass, Helen Mirren menciona a importância de fazer pesquisas literais e pesquisas poéticas. O objetivo do primeiro tipo é verificar os aspectos concretos da sua história. Para fazer isso, você pode ter que pesquisar a rotina de uma determinada profissão, ou entrevistar pessoas que tenham a mesma condição médica do seu protagonista, ou ler sobre o período histórico em que a história se passa.

Se você usar apenas os resultados da pesquisa literal, no entanto, sua história pode soar como um relatório acadêmico. É aqui que a pesquisa poética deve entrar em cena. É uma maneira de explorar como suas descobertas podem ser aplicadas especificamente a sua história.

Às vezes você deve priorizar verdade emocional ao invés de precisão factual. Encontrar o equilíbrio certo entre esses dois elementos é o que transforma boas histórias em ótimas histórias.

7. Intenção é seu guia e verdade é seu objetivo

Quando atores entram em um palco ou em um set de filmagem, eles só podem controlar sua intenção, ou seja, a maneira como eles acreditam que seus personagens vão agir para conseguir o que querem. O trabalho do ator é aprender a pensar como seu personagem e agir com sinceridade a partir desse entendimento.

Como escritores, quando sentamos para escrever, às vezes nos sentimos inteligentes e conectados a nossa energia criativa. Às vezes nos sentimos como fraudes e amaldiçoamos o dia em que decidimos escrever. Assim como os atores, só podemos controlar nossa intenção.

Nossas histórias são declarações ao mundo de que ideias acreditamos que merecem ser contempladas. Nosso trabalho é entender o valor das nossas idéias e encontrar as palavras certas para expressá-lo aos nossos leitores. Escreva com sinceridade a partir dessa compreensão e suas histórias alcançarão novos níveis de profundidade e complexidade.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 8 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

3 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Maria Christina Monteiro De Castro 31/07/2018

    Acompanho com interesse e enorme prazer e adoto nos meus cursos muitos textos do site do Diego Schutt. Simples didáticos e criativos , chegam sempre na hora certa e viram objeto de debate e aprendizado. Muito obrigada. Meu nome é Maria Christina Monteiro de Castro sou jornalista, tenho dois livros publicados e mantenho , em casa, no Rio, uma oficina literária.

  2. Author
    Diego Schutt 31/07/2018

    Oi Maria Christina

    Tudo bem?

    Muito obrigado pela mensagem. Fico super feliz em saber que vocês debatem meus textos na sua oficina literária.

    Se você tem alguma sugestão de tópico para artigos futuros, me avisa.

    Obrigado por acompanhar o site.

    abs
    Diego

  3. Bárbara Abdalla 21/08/2018

    Eu escrevia muito bem quando era mais nova. Hoje em dia, minhas histórias são bem pobres. Tenho boas ideias, mas não consigo desenvolver nos capitulos.

Gostou do texto? O autor vai adorar saber. Deixe um comentário e compartilhe o artigo com outros escritores.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

 

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Copyright 2010-2018 Diego Schutt - Todos os Direitos Reservados | Ficção em Tópicos