Escreva para expressar, não para impressionar.

Subtexto: a arte de expressar o inconsciente dos personagens #4

Por Diego Schutt em 23/03/2018 Tópicos: Escrever Ficção, Estilo
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Este é o quarto artigo da série “Subtexto: a arte de expressar o inconsciente dos personagens”.

No primeiro artigo da série, mostrei como texto, subtexto e intertexto influenciam no significado que o leitor dá para a história.

No segundo artigo da série, exemplifiquei como você pode usar subtexto para criar diálogos mais complexos e verossímeis.

No terceiro artigo da série, me concentrei em exemplificar o uso de subtexto em histórias contadas por um narrador.

Neste artigo, vou mostrar como subtexto pode ser usado para transformar atividades insignificantes em ações significativas.

No livro “Dialogue: The art of verbal action for the page, stage, and screen”, Robert Mckee diferencia atividade de ação. Ele compara atividade ao texto, ou seja, as falas, pensamentos e comportamentos superficiais de um personagem. Ação, segundo o autor, seria comparável ao subtexto, ou seja, o verdadeiro significado por trás de cada uma dessas falas, pensamentos e comportamentos.

Robert Mckee apresenta três tipos de ação.

1. Ação Física

Ação física se refere aos gestos faciais, movimentos corporais e às tarefas que um personagem executa em um determinado contexto. Você pode descrever tais comportamentos com a intenção de modificar a interpretação ou intensificar o significado do que um personagem pensa ou diz, ou simplesmente como uma forma de expressar concretamente o conteúdo interno da mente de um personagem.

Atividade física, em contraste, seria todo comportamento cuja intenção é objetiva, clara e prática.

Por exemplo, atividade física é lavar a louça suja acumulada na pia. Ação física é lavar a louça com uma expressão fechada, enquanto encara o namorado nos olhos. O primeiro comportamento tem uma intenção objetiva, clara e prática. O segundo comportamento sugere insatisfação de quem está lavando a louça e representa certa tensão no relacionamento do casal.

2. Ação Verbal

Ação verbal se refere às palavras que um personagem escolhe dizer em um determinado contexto, motivado por uma estratégia que ele acredita ser suficiente para provocar uma certa reação no seu interlocutor.

Atividade verbal, em contraste, seria toda fala cuja intenção é objetiva, clara e prática.

Por exemplo, atividade verbal é perguntar para a vendedora de uma loja “Qual é o valor total dessas peças?”. Ação verbal é perguntar “Se eu levar todas essas peças, que valor você pode fazer para mim?”. A primeira pergunta é objetiva e requer apenas uma resposta simples. A segunda pergunta sugere que o comprador espera algum desconto caso ele decida comprar todos os itens.

3. Ação Mental

Ação mental se refere a uma reflexão do personagem motivada por um momento de súbita clareza intelectual ou emocional. Essa nova compreensão pode ou não motivar uma fala ou comportamento. Mas mesmo que externamente tudo siga como estava antes, internamente a forma de olhar para o mundo do personagem foi, em algum nível, alterada.

Atividade mental, em contraste, seria todo pensamento rotineiro que vem à mente com uma intenção objetiva, clara e prática.

Por exemplo, atividade mental é lembrar que precisa comprar xampu enquanto se arruma o cabelo em frente ao espelho. Ação mental é perceber os primeiros fios de cabelos brancos na cabeça enquanto se arruma o cabelo em frente ao espelho e refletir sobre seus sonhos não realizados.

 

Considere o seguinte trecho do conto “Lavanderia Angel’s”, extraído do livro “Manual da faxineira – Contos escolhidos”, de Lucia Berlin.

“O índio costumava ficar sentado lá, bebericando Jim Beam e olhando para as minhas mãos. Não diretamente, mas pelo espelho pendurado na nossa frente, em cima das máquinas de lavar Speed Queen. No início não me incomodou. Um velho indio observando as minhas mãos pelo espelho sujo, entre um aviso amarelado que dizia PASSAR A FERRO $ 1,50 DÚZ e uma oração da serenidade em laranja fosforescente. CONCEDEI-ME, SENHOR, SERENIDADE PARA ACEITAR AS COISAS QUE NÃO POSSO MUDAR. Mas depois eu comecei a me perguntar se ele tinha alguma tara por mãos. Aquilo me deixava nervosa, ele me vigiando enquanto eu fumava, assoava o nariz, folheava revistas de anos atrás. A primeira-dama Lady Bird Johnson descendo as corredeiras.

Por fim, ele acabou me fazendo olhar para as minhas mãos. Eu o vi quase sorrir porque tinha me flagrado olhando para as minhas próprias mãos. Pela primeira vez nossos olhos se encontraram no espelho, logo abaixo de NÃO SOBRECARREGUE AS MÁQUINAS. Havia pânico nos meus olhos. Pelo espelho, eu olhei para os meus próprios olhos e de novo para as minhas mãos. Manchas de velhice horrendas, duas cicatrizes. Mãos não indígenas, nervosas, solitárias. Eu via filhos, homens, jardins nas minhas mãos.”

Na passagem acima, a personagem descreve o momento em que percebe o índio sentado ao lado dela na lavanderia olhando para suas mãos. A ação verbal da narradora, neste caso, é o próprio relato da personagem, ou seja, todas as informações que ela decide mencionar sobre aquele momento com a intenção de nos ajudar a recriar a cena em nossas mentes.

As ações físicas da personagem nesta passagem são observar o índio pelo espelho, reparar em detalhes da lavanderia, e olhar para seus próprios olhos e mãos. Cada um desses comportamentos parecem pequenos e insignificantes se considerados isoladamente. Eles poderiam facilmente ser confundidos com simples atividades físicas.

O que dá um senso de importância para esses comportamentos da personagem é o contexto criado pelo momento de súbita clareza intelectual da narradora, que representa uma ação mental. “[…] comecei a me perguntar se ele tinha alguma tara por mãos. Aquilo me deixava nervosa, ele me vigiando enquanto eu fumava, assoava o nariz, folheava revistas de anos atrás.”

No início, perceber que o índio estava olhando para suas mãos não a incomodou, ou seja, ela interpretou o comportamento dele como uma simples atividade. Foi a ideia súbita de que talvez ele tivesse alguma tara por mãos que a deixou inquieta. Quando a narradora imaginou uma possível intenção oculta no olhar do índio, ela transformou uma atividade em uma ação. Ao fazer isso, a narradora mergulha mais fundo na substância da história.

O que é importante você entender é que a inclusão de qualquer ação verbal, física ou mental na narrativa representa uma informação que o escritor considera significativa para se interpretar a história. Em outras palavras, toda ação tem um subtexto e, portanto, convida o leitor para considerar não apenas as informações que aparecem na página, mas também aquelas que ficam subentendidas.

Uma estratégia para dar mais dinamismo e substância a uma narrativa de ficção é fazer com que certas atividades sejam catalisadoras de uma ação e certas ações sejam catalisadoras de atividades.

Ou seja, faça com que uma ação sugira o subtexto de uma atividade e com que uma atividade sugira o subtexto de uma ação.

Por exemplo, na passage do texto acima, Lucia Berlim usou uma atividade física do índio (olhar para as mãos dela) como catalisadora de uma ação mental da narradora (a ideia súbita de que talvez o homem tinha uma tara por mãos), abrindo espaço para pensarmos sobre o subtexto da história. A inquietação da personagem com as possíveis perversões que esse homem enxerga em suas mãos é justaposta ao que ela mesma enxerga quando olha para suas mãos (“Manchas de velhice horrendas, duas cicatrizes. Mãos não indígenas, nervosas, solitárias. Eu via filhos, homens, jardins nas minhas mãos”).

Esse contraste sugere a ansiedade causada pela ideia de que as mesmas mãos que trabalharam para cuidados de filhos, de maridos e de jardins (todas atividades alinhadas com a “moral e os bons costumes”) poderiam evocar pensamentos libidinoso em um estranho.

A profundidade e complexidade do conto “Lavanderia Angel’s” (que você pode ler inteiro aqui) vêm do que a escritora deixa subentendido na dinâmica estabelecida entre as atividades e as ações apresentadas ao longo do texto.

Entenda que o uso de subtexto não tem como objetivo explicar ou justificar porque os personagens agem como agem, pensam como pensam ou dizem o que dizem.

Explicações e justificativas têm como objetivo CLARIFICAR para simplificar a compreensão intelectual, o que faz sentido em textos de não ficção como crônicas, ensaios e trabalhos acadêmicos. Em narrativas de ficção, no entanto, seu trabalho como escritor é EXPRESSAR para ampliar um entendimento emocional. Isso significa que entender racionalmente tudo o que acontece na história é menos importante do que experimentar intuitivamente uma forma particular de viver e olhar para o mundo.

Quanto mais ambíguo e aberto for o significado da sua narrativa, mais ela se aproxima de textos literários (que convidam o leitor a refletir sobre o conteúdo para encontrar sentido). Quanto mais literal e fechado é o significado da sua narrativa, mais ela se aproxima da literatura de gênero (que deixa o sentido do texto mais evidente para o leitor).

Esse é um tópico complexo. Caso algum ponto mencionado no artigo não tenha ficado claro, deixe um comentário para que eu possa editar o texto e incluir informações complementares.

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Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 8 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

3 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Patrícia 25/03/2018

    Realmente complexo, esse assunto! Gostaria de agradecer pelo tópico extremamente útil. Sou iniciante na arte da escrita. Faz um ano que concluí meu primeiro romance e estou reescrevendo-o pela segunda vez, pois sempre que o releio sinto que algumas partes se parecem com roteiros e que alguns diálogos estão superficiais. Entretanto, a cada reescrita feita após leitura de tópicos como o seu e de variados livros, me sinto mais satisfeita com o resultado.

    Mais uma vez, obrigada.

    Patrícia

  2. Wesleyhawer 24/06/2018

    Gostei muito da Série… tenho uma pergunta: Os textos literários, ao seu ver, são os que permitem maior possibilidades de interpretações para o leitor?

  3. Author
    Diego Schutt 26/06/2018

    Oi Wesleyhawer

    De uma forma geral, eu diria que sim. Textos literários sugerem sentido de uma forma mais sutil que literatura de gênero. Por isso, eles abrem mais espaço para que cada leitor interprete como quiser certas ambiguidades da narrativa.

Gostou do texto? O autor vai adorar saber. Deixe um comentário e compartilhe o artigo com outros escritores.

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