Escreva para expressar, não para impressionar.

Já escrevi 50 páginas com ideias para uma história. E agora?

Por Diego Schutt em 29/03/2018 Tópicos: Começar a Escrever, Escrever Ficção
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“Socorro me Ajuda” é uma série de artigos que responde às dúvidas dos leitores do Ficção em Tópicos. Quer enviar uma pergunta? Clique aqui.

O Mateus me mandou uma mensagem dizendo que já preencheu mais de cinquenta páginas com ideias para uma história. Ele perguntou como pode saber se sua ideia é boa o suficiente para se tornar um livro.

Quando o escritor mergulha de cabeça em um universo de ficção, como parece ser o caso do Mateus, ele geralmente está entusiasmado com os personagens que criou, o enredo que desenvolveu, ou os cenários que imaginou. E isso é ótimo. O Mateus já deu o primeiro passo no processo de criação de uma história, que é enfrentar a página em branco e começar a escrever. Mas e agora?

Vamos imaginar que o Mateus foi ao supermercado comprar ingredientes para preparar um jantar para seus amigos. Ele não tinha nenhuma receita específica em mente. Então, enquanto caminhava pelos corredores, ele foi colocando no carrinho todos os produtos que ele imaginou que poderiam render um bom prato para esse jantar. O Mateus voltou para casa com diversos ingredientes diferentes.

No supermercado, o Mateus tomou suas decisões de compra por impulso. Ele selecionou ingredientes que, no momento, pareciam ter o potencial de render um bom prato, ainda que ele não soubesse ao certo qual seria o cardápio do jantar que ele estava organizando.

Diante dessa situação, eu diria para o Mateus colocar tudo o que comprou sobre a mesa da cozinha.

Provavelmente, ele aproveitou a ida ao supermercado para fazer as compras da semana. Coisas para outras refeições, produtos de limpeza, de higiene pessoal etc. Diante disso, é importante que o Mateus comece separando as compras que são somente para ele e quais são para o jantar com os amigos.

Depois, eu diria para ele fazer uma lista de todos os ingredientes que comprou com o jantar para os amigos em mente e considerar que tipo de experiência gastronômica ele gostaria de criar. Se ele comprou uma grande variedade de carnes, talvez ele estivesse pensando em fazer um churrasco. Se ele comprou bastante massa e molho de tomate, talvez ele esteja mais inclinado a fazer uma macarronada.

Para o Mateus escritor, avaliar os produtos que ele comprou para o jantar é o equivalente a reler o que ele escreveu e identificar os ingredientes da história que ele já tem. Você definiu um protagonista? Você sabe qual é o conflito central da história? Você estruturou o enredo? Você considerou o tema que deseja explorar? O objetivo do Mateus aqui é refletir a partir de uma perspectiva mais macro sobre a história que ele deseja contar.

Se o texto tem um ritmo acelerado e várias cenas de ação, talvez ele esteja inclinado a escrever uma história de aventura. Se a narrativa foca mais nos pensamentos e emoções de um personagem, talvez o Mateus tenha intuitivamente decidido escrever um romance psicológico.

Durante a produção dessas cinquenta páginas de texto, o Mateus provavelmente tomou muitas decisões sobre a forma e o conteúdo da narrativa por impulso.

Agora é o momento de avaliar quais dessas decisões enriquecem a história e quais precisam ser repensadas para criar a experiência de leitura que ele deseja.

Assim como o Mateus cozinheiro não pode começar a preparar o jantar até que ele decida o que deseja servir aos seus convidados, o Mateus escritor não pode começar a refinar e estruturar o que escreveu até que ele decida que história deseja contar para seus leitores.

A outra pergunta do Mateus é como saber se sua ideia de história é boa o suficiente para se tornar um livro. Vamos pensar primeiro no Mateus cozinheiro. Como ele pode saber se sua ideia de cardápio é boa o suficiente para se tornar um jantar para seus amigos? Tudo depende do tipo de experiência que ele deseja criar para seus convidados.

Será um jantar mais formal e sofisticado, onde ele vai preparar pratos com uma variedade de ingredientes refinados? Ou ele tem em mente um jantar mais informal, com gostinho de comida caseira? Ele vai preparar pratos que já cozinhou antes ou vai se aventurar experimentando uma receita de um livro novo que comprou? À medida que o Mateus toma essas decisões, as opções de cardápio e a seleção de ingredientes vão ficando cada vez mais claras em sua mente.

Minha recomendação para o Mateus escritor é que ele se faça perguntas similares. Que tipo de experiência de leitura ele deseja criar com sua história? Que outras histórias que ele já leu servem como referência para o tipo de texto que ele deseja escrever? O que a história dele tem de original quando comparada a outras histórias do mesmo gênero? Que perspectiva nova ele tem a oferecer sobre o tema que deseja explorar nessa narrativa?

Para responder a tais perguntas, o Mateus vai precisar usar seu senso crítico e sua bagagem como leitor.

Ele precisará refletir sobre o tipo de texto que gosta de ler, sobre as qualidades que reconhece nesses textos, e sobre qual sua intenção para escrever a história que está desenvolvendo.

O Mateus só será capaz de responder a essas perguntas quando tiver uma ideia mais clara sobre qual é sua história e porque ele quer compartilhá-la com outras pessoas. Se ele não tiver a menor ideia sobre como responder a essas perguntas e se ele não se sente motivado para refletir sobre isso, eu diria que provavelmente a ideia dele não é boa o suficiente para se tornar um livro.

Caso ele esteja disposto a seguir trabalhando no texto até encontrar uma forma de recompensar o tempo que os leitores vão investir em sua história, seja qual for sua ideia, acredito que ela é boa o suficiente para se tornar um livro.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 8 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

Um escritor tem algo a dizer sobre este texto

  1. Mateus 29/03/2018

    Bom Dia!

    Fiquei surpreso ao ver a resposta. Obrigado!
    Isso ajuda e muito, pois sei que tenho um longo caminho.

    Me identifiquei e muito com o que você escreveu.
    Vários questionamentos que você aborda digamos que fazem eco (bate e volta pra mim) na minha maneira de ver a historia, os personagens e principalmente no enredo. Já comprei tudo para o “jantar”, agora falta decidir, por exemplo, se faço arroz branco ou carreteiro para acompanhar o Churrasco e se incluir tal tempero será realmente bom. Muito Obrigado.

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