Escreva para expressar, não para impressionar.

Subtexto: A arte de expressar o inconsciente dos personagens #1

Por Diego Schutt em 21/02/2018 Tópicos: Dicas, Escrever Ficção, Técnicas
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Este é o primeiro artigo da série “Subtexto: a arte de expressar o inconsciente dos personagens”.

O uso de subtexto é provavelmente uma das marcas mais evidentes de um escritor maduro e habilidoso. Tal técnica tem o poder de transformar uma história clichê em uma história boa, ou mesmo transformar uma história boa em uma história excelente.

Por esse motivo, resolvi escrever uma série de artigos que revela como o uso de subtexto pode ajudar você a refinar o estilo das suas narrativas, desenvolver uma identidade peculiar para seus textos, criar personagens mais complexos, e delinear experiências de leitura mais envolventes.

Neste artigo, vou apresentar como texto, subtexto e intertexto influenciam o significado que o leitor dá para a história.

Do ponto de vista do leitor, toda narrativa tem três níveis de significado.

1. Texto

O texto são as palavras que aparecem na página. São as informações que o narrador revela para o leitor. Esse é o nível mais superficial de significado de uma história.

Cada frase é interpretada literalmente, independente do contexto em que elas são apresentadas. O texto apresenta explicitamente o que o narrador deseja que o leitor saiba.

2. Subtexto

O subtexto é o conteúdo emocional que está nas entrelinhas do texto. São as informações que o narrador sugere para o leitor. Esse é o nível intermediário do significado de uma história.

A interpretação de cada frase depende do que sabemos sobre o narrador e do contexto em que ela é apresentada. O subtexto deixa subentendido o que o narrador deseja que o leitor entenda.

3. Intertexto

O intertexto é conteúdo irracional implícito na relação entre texto e o subtexto. São as informações que o narrador esconde do leitor. Esse é o nível mais profundo do significado de uma história.

A interpretação de cada frase depende das intenções ocultas que o leitor atribui ao narrador, ao considerar o que está por trás da escolha de uma forma particular de se expressar. O intertexto é um convite para o leitor preencher com suas próprias conclusões as lacunas de informação deixadas na narrativa.

A palavra intertexto é normalmente usada para definir narrativas que fazem referência ao textos de outros autores, sugerindo a grandiosidade e a relevância do tema que está sendo abordado. Neste artigo, estou propondo um novo significado para esta palavra.

Uso intertexto para fazer referência ao possível significado da escolha do narrador para se expressar de uma forma específica, sugerindo a grandiosidade e a relevância das forças inconscientes que moldam sua linguagem.

Se comparamos os níveis de significado de um texto às partes de um iceberg, o texto é o que está visível acima do nível do mar. O subtexto é o que você enxerga quando coloca a cabeça embaixo da água. O intertexto só é visível para quem mergulha fundo no mar, onde a luz do sol não chega. Lá embaixo, tudo é vasto, obscuro e difícil de definir.

Esses três níveis de significado de um texto estão intimamente relacionados ao fato de sermos seres sociais. Nos primeiros anos de vida, dizemos o que se passa na nossa cabeça com aquela honestidade típica das crianças, que às vezes é engraçada, às vezes é adorável, mas às vezes é assustadora.

No início da vida, nos comunicamos de uma forma tão direta porque ainda não aprendemos a usar os filtros sociais que nos ajudam a considerar diferentes estratégias para expressarmos nossos pensamentos, emoções e desejos.

Ou seja, quando crianças, nos comunicamos usando apenas texto. Por isso, estamos limitados a revelar o que sentimos através de falas e comportamentos simples e crus, tais como são nossas emoções. 

À medida que crescemos, começamos a perceber o impacto que a forma como expressamos nossos pensamentos, emoções e desejos tem em outras pessoas. O processo de nos tornarmos seres sociais tem como base fundamental as conexões que estabelecemos entre certas falas e comportamentos, e as reações que tais falas e comportamentos provocam nas pessoas que consideramos importantes em nossas vidas.

Basicamente, criamos um repertório de relações de causa e consequência, e usamos isso como referência para tomar decisões sobre a melhor forma de navegar o mundo. Começamos a pensar nestes termos: “Se eu me comportar desta forma ou expressar esta ideia deste jeito, provavelmente as pessoas vão reagir desta forma.”

Essa constatação motiva, aos poucos, o abandono da forma espontânea, ingênua e autêntica de se expressar – característica do universo infantil – que é substituída por um estilo de comunicação verbal e não verbal mais comedido, sagaz e calculado.

Ou seja, quando amadurecemos, descobrimos o poder de nos comunicarmos usando subtexto. Nos tornamos capazes de dar pistas sobre o que sentimos através de falas e comportamentos mais sutis e indiretos, que melhor representam a complexidade das nossas emoções.  

Um escritor maduro entende que são raros os momentos em que compartilhamos tudo que está se passando na nossa mente, seja porque não sabemos como expressar certos pensamentos com exatidão, ou porque temos receio da reação que tais pensamentos poderão causar. Isso não quer dizer que estamos mentindo, sendo intencionalmente vagos, ou escondendo nossas emoções. Muitas vezes, não temos certeza sobre o que estamos sentindo.

Outras vezes, não estamos consciente do que estamos sentindo ou preferimos não falar abertamente sobre nossas emoções. Em outros casos, nos convencemos erroneamente de que estamos sentindo uma coisa quando, na verdade, estamos sentindo o exato oposto. Há também situações onde revelar o que estamos sentindo não vai nos ajudar a conseguir o que desejamos. Mas em todos os casos, o significado por trás dos nossos comportamentos observáveis e do conteúdo explícito da nossas falas é mais complexo, ambíguo e profundo do que parece.

Nossa mente é um território complicado e bons escritores têm a capacidade de manipular a linguagem para expressar as sutilezas e peculiaridades de certos pensamentos, emoções e desejos, que somente palavras não dão conta de expressar.

Essa diferença entre o que comunicamos explicitamente, o que estamos sentindo internamente, e a motivação inconsciente para expressarmos nossos pensamentos, emoções e desejos de uma certa maneira é a diferença entre texto, subtexto e intertexto.

No contexto de uma conversa entre dois estranhos que se conhecem na praia, texto é “Você quer ir tomar um café?”. Um possível subtexto dessa fala é “Estou gostando da sua companhia e quero passar mais tempo com você”. Um possível intertexto dessa fala é “Minha autoestima é baixa e sou ansioso. Preciso de confirmação imediata para acreditar que você me considera uma pessoa interessante. Aceite meu convite para demonstrar que você enxerga algo de valor em mim.” 

A pessoa que faz o convite sugere sua intenção no subtexto para evitar a criação de uma situação desconfortável, tanto para ele quando para o seu interlocutor. Dessa forma, ele permite que o convidado possa responder “Obrigado pelo convite, mas tenho que ir embora”, ao invés de “Você está me entediando. Tenho coisas melhores para fazer”. Na sutileza de seu convite, ele demonstra respeito pelas emoções da outra pessoa. Perceba também como a decisão de expressar interesse por essa pessoa através de um convite indireto foi motivada por certas ideias pré-concebidas sobre quem ele é, e como a vida, o mundo e as pessoas são.

Logicamente, o subtexto e o intertexto apresentados no exemplo acima não se aplicam a todos os convites para tomar café. O que estou propondo é que, quando você reflete sobre o contexto de vida de um personagem e sua personalidade e identidade, você pode revisar e editar seus textos considerando como a forma particular como eles se expressam revela fragmentos do seu inconsciente, ou seja, do seu repositório emocional e irracional de desejos, medos e teorias sobre a vida. Entender seus personagens com esse nível de complexidade permite a você revisar e editar seus textos mais consciente de que informações precisa revelar e que informações precisa apenas sugerir para o leitor.

Escritores arquitetos (aqueles que preferem planejar suas histórias antes de começar a escrever) normalmente iniciam seu processo de criação investigando subtexto e intertexto, ou seja, criando e desenvolvendo a psicologia dos seus personagens de antemão. Mais tarde, eles usam isso como base para escrever o texto. Escritores jardineiros (aqueles que preferem começar a escrever a partir de uma inspiração e descobrir suas histórias à medida que escrevem) iniciam seu processo de criação focando na produção do texto. Mais tarde, eles releem o que escreveram e procuram entender a psicologia dos personagens analisando seus comportamentos, falas, ações e reações ao longo da narrativa para, a partir de então, refinar seus textos com base em suas descobertas.

Ao escrever narrativas ricas em subtexto e intertexto, você indica para o leitor que o significado da sua história vai além do que as palavras, as falas e as ações dos personagens deixam explícito. 

Quando você constrói seu texto desta forma, convida o leitor a mergulhar no universo da história, a se fazer perguntas sobre os personagens e as situações em que eles se encontram, a preencher os espaços vazios da narrativa com suas próprias conclusões e, finalmente, a se envolver em uma experiência de leitura mais rica do que a simples compreensão do que está acontecendo no enredo.

Nos próximos artigos desta série, vou aprofundar este tema e compartilhar técnicas para editar suas histórias a partir da perspectiva do subtexto e do intertexto.

Esse é um tópico complexo. Caso algum ponto mencionado no artigo não tenha ficado claro, deixe um comentário para que eu possa editar o texto e incluir informações complementares.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 8 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

6 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Deise 23/02/2018

    Ola Diego!

    Voce poderia indicar alguma obra que retrate isso muito bem?

    Obrigada!

    Deise

  2. Vilma Assis 23/02/2018

    Estou pesquisando sobre escrita egostei muito do seu texto. Estou aqui no blog lendo o restante. Obrigada pelas preciosas dicas e impressões.

  3. Marlene Bastos 23/02/2018

    Deise, na minha opinião, os melhores exemplos são os contos Borgeanos (Jorge Luis Borges – escritor argentino). Tem muitos contos dele em português na internet.

  4. Author
    Diego Schutt 26/02/2018

    Oi Deise

    Os contos do escritor Raymond Carver são recheados de subtexto. Recomendo um livro dele chamado “Iniciantes”.

  5. José Waeny 11/04/2018

    Muito bom seu artigo: lerei todos!

  6. Wesleyhawer 20/06/2018

    Parabéns pelo excelente trabalho!

Gostou do texto? O autor vai adorar saber. Deixe um comentário e compartilhe o artigo com outros escritores.

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