Escreva para expressar, não para impressionar.

Como desinflar seu ego e inflar suas habilidades de escritor

Por Diego Schutt em 27/07/2016 Tópicos: Escrever Ficção, Inspiração
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A imagem acima usa o ícone “Man With Phone” criado por Eugene Dobrik do Noun Project.

Sempre que começo um texto de não-ficção, seja um artigo, uma crônica ou um texto publicitário, ainda que eu me sinta ansioso com o desafio de produzir algo original e envolvente, minha experiência e conhecimento técnico me ajudam a escrever com confiança.

Quando começo a escrever narrativas ficcionais, no entanto, a história é bem diferente. Minha confiança como escritor de ficção ainda é bastante inconstante e vulnerável. Isso ficou ainda mais evidente nos últimos meses, quando comecei a produzir uma série de contos para um projeto que estou desenvolvendo com outra escritora.

Ao terminar um primeiro texto com relativa facilidade e ficar satisfeito com o resultado, elogiei quem eu acreditava ser o responsável por tal conquista: meu ego.

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“Você é bom, hein? Nasceu para ser escritor. Essa facilidade para escrever é prova de um talento desenvolvido.”

No entanto, me engrandecer dessa forma por alcançar um bom resultado é, definitivamente, um dos pontos que mais dificultam que eu ganhe confiança como escritor de ficção.

O que há de errado em me elogiar, em reconhecer que meu esforço resultou em um bom texto?

O problema não está no ato de me elogiar, mas sim para onde direciono os elogios. Isso ficou claro quando comecei a escrever outra história para o mesmo projeto e encontrei muita dificuldade para desenvolver a narrativa. Empaquei, não consegui progredir por semanas, comecei a procrastinar. E, é claro, quem considerei o responsável pelo meu sucesso anterior agora era também o culpado pelo meu fracasso: meu ego.

“Você é uma fábrica de clichês. Tem boas ideias, mas na hora de escrever só sai porcaria. Melhor se concentrar em ajudar outros escritores de ficção a desenvolver o talento deles porque você talento não tem nenhum.”

O problema de direcionar elogios para seu ego está no fato de que você também vai direcionar suas críticas para ele. As características positivas que você associa a sua personalidade quando tudo dá certo são substituídas por críticas severas que geram extrema ansiedade e insegurança quando você encontra dificuldades.

Como podemos evitar que nossa confiança oscile entre esses dois extremos cada vez que começamos a escrever um novo texto?

A psicóloga Carol Dweck, da Standford University, fala nesta entrevista sobre como a forma como interpretamos erros e dificuldades influencia na nossa postura como criadores. Muitos escritores associam o ato de falhar à falta de competência e talento e, como consequência, eles criam certa fobia de serem julgados.

Esse tipo de pessoa tem o que a psicóloga chama de “Modelo de Percepção Fixa”. São escritores assombrados por pensamentos como “Se não ficar bom, as pessoas vão achar que não sou tão inteligente quanto desejo ser e como quero que elas pensem que sou”. Tais escritores acreditam que se, de fato, fossem inteligentes e talentosos, tudo seria mais fácil, escrever não exigiria tanto esforço. O que Carol Dweck propõe é a adoção de um “Modelo de Percepção de Crescimento”, onde problemas são vistos como desafios e erros são encarados como experiências que informarão tentativas futuras.

Enquanto o escritor preso ao “Modelo de Percepção Fixa” pensa “Será que sou talentoso? Será que esse texto está mostrando minha inteligência e sensibilidade?”, o escritor que adota o “Modelo de Percepção de Crescimento” pensa “Como posso melhorar esse texto? Como posso me tornar um escritor melhor?”. O primeiro foca no que está sentindo, na sua preocupação com a opinião dos outros e no efeito do texto no seu ego. O segundo foca no processo de criação, na experiência de leitura que ele deseja criar com seu texto e nas habilidades que ele precisa desenvolver para alcançar tais objetivos.

Mas muitos artistas criativos têm um ego inflado. Então qual é o problema?

O escritor Ryan Holiday fala neste artigo sobre como todos nós temos objetivos, queremos ser importantes e relevantes, queremos o respeito de outras pessoas e reconhecimento pelo nosso trabalho. Não queremos isso apenas por vaidade e egoísmo, mas por um desejo genuíno de atingirmos nosso potencial criativo. Consideramos humildade algo admirável e bonito, mas a verdade é que não temos certeza se essa postura nos ajudará a alcançar nossos objetivos.

Essa percepção se deve, em parte, à imagem que temos de artistas criativos. Pensamos sempre em seus egos inflados, suas posturas exuberantes, sua arrogância, e associamos essas características a sucesso e poder. E então pensamos “Um pouquinho de ego pode me ajudar a ser um escritor de sucesso, certo?”.

É importante diferenciar um ego inflado que vem à tona nas aparições públicas de um artista de um ego inflado que se coloca acima do seu ofício e se alimenta de vaidade. Arrogância e exuberância externas não refletem, necessariamente, arrogância e exuberância internas.

Você pode ser criativo e, ao mesmo tempo, arrogante em relação à outras pessoas. No entanto, não acredito que você possa ser criativo e, ao mesmo tempo, arrogante em relação ao seu ofício. Essa idealização exagerada do seu ego cria uma ilusão de grandeza e impede que você desenvolva uma visão crítica das suas habilidades. Como resultado, autoconfiança vira presunção, persistência vira teimosia e intuição vira desleixo.

Se o seu ego acredita que você é melhor do que realmente é, sua autoestima cresce no curto prazo, mas suas habilidades seguem estagnadas no longo prazo. 

Ao se colocar acima dos outros e do ofício de escrever, você desenvolve uma visão genérica, superficial e simplificada do processo de criação para se convencer que já sabe tudo que precisa saber. Você perde a capacidade de ver o que está na sua frente e enxerga apenas sua fantasia, sua megalomania, suas ambições.

Para fazer arte, entretanto, você também precisa desenvolver uma visão específica, profunda e complexa sobre você, outras pessoas e a natureza humana. Na busca por esse objetivo, não importa quem você é (ou quem você pensa que é), mas sim o que você faz.

A partir de agora, quando você escrever algo que gosta, não elogie seu ego dizendo par si mesmo o quanto você é maravilhoso, criativo e original. Ao invés disso, elogie o seu processo de criação. Pense na curiosidade, na dedicação, na disciplina e na persistência que você investiu nesse texto para alcançar esse resultado.

Você nunca poderá escolher quando será um escritor maravilhoso, criativo e original, mas você sempre poderá escolher trabalhar o quanto for necessário para se orgulhar do que produziu.

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Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 10 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

4 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Neiva Meriele 27/07/2016

    Que texto perfeito!!!

  2. Sabrina 25/09/2016

    Obrigada, adoro suas dicas!

  3. Alice 03/10/2016

    Que artigo incrível cara parabéns! Belas dicas, não sei se quero escrever profissionalmente ou só como um hobbie, mas seus posts me incentivaram a voltar com a prática.

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