Escreva para expressar, não para impressionar.

Será que tenho talento para escrever?

Por Diego Schutt em 25/04/2015 Tópicos: Começar a Escrever, Escrever Ficção
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Do momento em que reconheci meu gosto pela escrita, me fiz a seguinte pergunta centenas de vezes: Será que tenho talento para escrever? Antes de encontrar uma resposta, precisei investigar o que estava por trás da própria pergunta. 

Esse questionamento revela minha ansiedade diante da incerteza sobre que parâmetros devo considerar para avaliar minhas habilidades de escritor.

Se meus amigos afirmam gostar do que escrevo, isso é sinal de que realmente tenho aptidão com as palavras? Se outros escritores apreciam minhas narrativas, significa que eles reconheceram meu talento? Se o instrutor de uma oficina de escrita criativa mostra entusiasmo pelos meus textos, isso é prova irrefutável do meu dom?

Tudo o que você precisa saber para começar a escrever melhor

Ou é preciso que uma editora mostre interesse em publicar meu livro para que eu possa me assegurar de que escrevo bem? Ou quem sabe somente quando meu livro vender centenas de cópias poderei ter certeza sobre meu talento? Ou será que vender centenas de cópias não é suficiente, e meu livro precisa se tornar um bestseller para eu me considerar talentoso?

Mas um único bestseller é suficiente, ou preciso escrever vários livros de sucesso para provar que tenho talento e não sou escritor de um livro só? Ou será que preciso ser reconhecido pela crítica e por escritores de círculos literários para ter essa validação? A opinião de outras pessoas é realmente importante ou, se estou satisfeito com os textos que escrevo, posso me considerar talentoso?

Caso eu descubra que tenho talento, o que isso significa? Estarei qualificado para decidir que outras pessoas também são talentosas? Se eu descobrir que não tenho talento, devo desistir de ser escritor?

Essas perguntas são difíceis de responder porque existem diversas definições para talento e opiniões divergentes sobre quem está autorizado a determinar quem é talentoso e quem não é.

Depois de pensar muito sobre tudo isso, hoje acredito que o mais importante é encontrar minha própria definição de talento, com base nas qualidades que reconheço nas minhas histórias favoritas e que também desejo reconhecer nos meus próprios textos.

Para mim, um escritor talentoso consegue expressar com sensibilidade e clareza a forma peculiar como enxerga e interpreta o mundo e as pessoas. Esse escritor observa tudo com olhos curiosos e atentos. Ele consegue captar pequenos movimentos de grande significado, condensar décadas em algumas poucas frases e expandir um segundo ao longo de várias páginas.

Ele não se contenta com conclusões superficiais e busca sempre um entendimento mais profundo sobre as coisas. Ele olha para tudo ao seu redor aberto para descobrir novas perspectivas. Ele está em busca da verdade escondida por trás do estereótipo e do senso comum. Ele levanta perguntas que direcionam a imaginação do leitor para considerar ideias pouco exploradas, sem a pretensão de encontrar uma única resposta certa.

Esse escritor consegue reconhecer os pensamentos, emoções, imagens e sensações que está tentando expressar em cada passagem das suas narrativas. Ele também tem um olhar aguçado para identificar o que precisa ser refinado no texto para expressar suas ideias com mais clareza.

Essa preocupação com clareza é reflexo do desejo de estabelecer um diálogo com quem lê seus textos. Isso não significa mastigar suas ideias e entregá-las prontas para o leitor engolir. A clareza a que me refiro é a consciência sobre a função de cada parte da narrativa para expressar a beleza ou a importância das informações que o escritor decidiu compartilhar.

Esse escritor sabe que todo texto é uma promessa de que suas palavras estão registrando algo relevante, bonito, poético, curioso, engraçado, aterrorizante, interessante, provocador, excitante ou emocionante.

Por isso, suas escolhas estilísticas focam em evocar os pensamentos e emoções que melhor representam a experiência de leitura que ele deseja criar.

Esse escritor convida, não intimida. Ele consegue desapegar do seu ego e escrever histórias para expressar a forma particular como ele interpreta a vida, não para exibir domínio técnico, impressionar o leitor, ou tentar provar sua inteligência.

Com base nesses critérios, sou um escritor talentoso? Considerando que, por definição, talento é uma facilidade natural para fazer alguma coisa, a resposta é não. Mas pelo menos agora sei quais habilidades preciso desenvolver para me tornar esse escritor.

As vinte e cinco dicas e exercícios deste livro servem como um guia para identificar que habilidades você precisa desenvolver para se tornar o escritor que deseja ser, refinar seu processo de criação de histórias e escrever com mais autenticidade, confiança e impacto.  

E para você, que habilidades um escritor talentoso tem? Que escritor você quer se tornar?

Tudo o que você precisa saber para começar a escrever melhor

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 10 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

14 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Tales 26/04/2015

    Tenho observado que a validação como “bom escritor” costuma depender do olhar dos outros, em particular para a maioria de nós que trava por medo de não agradar aos demais ou de não ser bom o bastante (para, em última instância, agradar aos demais). Parece que há um desejo de que a alcunha de “bom escritor” preceda o texto, meio como uma medida de segurança para facilitar e impulsionar, talvez até justificar, a criação. Outros sujeitos, talvez menos dotados de preocupações sociais, perfazem um caminho mais teimoso, menos ligado ou ocupado com o que as pessoas têm a dizer, e a alcunha de “bom escritor” não é tanto um objetivo quanto um resultado.

    Estas são algumas reflexões que teu texto me fez revisitar.

  2. Kelly Freire 26/04/2015

    Olà sou Kelly Freire e adoro o site, vocês não fazem ideia de como me ajudam com as materias. Sou aspirante a escritora, estou trabalhando em meu primeiro livro, e com a ajuda das materias consigo ganhar impulso para que a minha siga. Com relação a esta materia em questao só posso dizer que adorei porque era exatamente essas perguntas que me passavam pela mente e ver que não sou a unica me tirou um fardo das costas. Obrigada por tudo.

  3. Januária 27/04/2015

    Matéria muito oportuna pra mim Diego, continue com grandes idéias em postar assuntos importantes como este, Januária. 🙂

  4. Jair Pereira 27/04/2015

    Este texto me ajudou muito. Meus textos estavam muito técnicos.

  5. John 15/05/2015

    Muito bom! Ficção em tópicos como sempre nos brindando com ótimos textos, doses de inspiração e reflexão!

  6. Domingos António 11/06/2015

    Eu sou o Domingos António, eu gostei muito deste site tudo porque me motivou mais ainda em escrever meus artigos. Aos 11/06/2015. Luanda/Angola

  7. Sérgio Quintiliano 30/11/2015

    Estou a ter um daqueles bloqueios de “será que a minha história é interessante e pior; a forma como eu a conto é interessante”? Isso causa-me imensos bloqueios de inspiração e ofusca a minha determinação, porque acho sempre que aquilo que estou a escrever não é suficientemente bom. Porém, este texto ajudou-me a ter uma perspectiva mais real do que realmente está a acontecer comigo e por essa razão, eu agradeço.
    Um abraço de Portugal

  8. Meu nome é Elias 24/12/2015

    Caramba. Valeu pelo texto e pela escrita. Aliás, era um saco mesmo ficar pensando no que as pessoas iriam pensar do meu trabalho. Essa parte não cabe mim, cabe a elas.
    Acreditei que não tinha mais jeito para a escrita, que a única parte boa dos meus textos era o primeiro parágrafo.
    Agora, espero eu, não ligar mais, ou não tanto assim, se as pessoas irão gostar ou odiar, ou até mesmo querer me matar por terem perdido seu tempo. Vou apenas fazer os meus textos e minhas hostorias, tentando melhorar e expressar cada vez mais.
    Parte da insegurança ainda me abraça,Vou tentar pedir o divórcio. Ahh! Ela não vai ficar com a casa.

  9. Francisco 16/04/2016

    ótimo site! faz tempo que está nos meus favoritos, essencial para motivação e aconselhamento em nós, aspirantes a escritores. Essa matéria bateu na ferida, a gente quer se lido e elogiado, mas antes de tudo escrever é uma necessidade fisiológica,uma volúpia, é desenhar com palavras e filmar sem câmera.

  10. Rogerio Macedo 10/08/2016

    Sensacional! Muito obrigado por compartilhar esse conhecimento conosco.

  11. Eu quero escrever o melhor livro de todos, isso me faz ser uma péssima escritora, já que esse livro não existe.

  12. Joice Boaventura 14/05/2017

    Eu agradeço por ter dado essas dicas, eu sempre amei ler e escrever mas pesava não ter talento suficiente, obrigado.
    Eu chamo-me Joice Boaventura e tenho 13 anos, as dicas que o Sr. Escritor compartinha vai ajudar-me muito.
    Vou fazer o impossivel para que o meu livro chegue a todas a partes do mundo.

  13. Igor 14/01/2018

    Se você é talentoso para mim? Julgando por esse texto, sim. Mas se é não para você, então que seja. Acho que isso depende do ponto de vista. Talvez em outro texto você não seja como foi nesse para mim. A respeito dele, concordo com todos os critérios, provavelmente devido a esse motivo gostei tanto da sua escrita e porque me identifiquei em cada palavra ali descrita, em maior ou menor grau. Incrivelmente, ou não, antes de ler o presente artigo voltei a escrever meu livro, depois de muito tempo parado, e aconteceu comigo enquanto escrevia muitas dessas qualidades que para você fazem um escritor talentoso. Não estou dizendo que sou talentoso, pelo menos ainda não, mas talvez eu tenha o dom, considerando que cumpri a alguns dos requisitos acima, alguns instintivamente, outros conscientemente, mas fiz mesmo nunca lendo nada sobre escrita criativa e após tanto tempo sem escrever uma palavra, este foi meu primeiro artigo. Não me entenda mal, eu não melhor e nem pior que ninguém, sei que ainda preciso aprender muitooo, mas acho que este artigo foi feito pra mim e a todos que como nós dois estão nessa jornada, então me sinto muito feliz de te-lo lido e conhecido a este blog. Minha jornada continua aqui. Espero aproveitar ao máximo cada lição deste site. Ah, eu gostaria, se você pudesse, que lesse um trecho do meu livro. Sei que com certeza você terá um ponto de vista diferente do meu, e não estou lhe pedindo pra avaliar se tenho talento ou não, apenas gostaria que me desse uma feedback do que eu posso melhorar. 🙂 Caso aceite, por favor mande-me um e-mail para eu saber que está interessado.

  14. VILTO REIS 29/03/2018

    Eu sempre recorro aos seus textos, Diego. Até por saber que aqui, no Ficção em Tópicos, vou encontrar tudo que preciso sobre qualquer assunto relacionado à escrita.

    A relação da ansiedade e do da dúvida sobre o talento é muito precisa. Baseando-me no livro de Stephen Kock “Oficina de escritores”, gravei um vídeo sobre o assunto: http://rusga.com.br/talento-para-escrever/

    Considero que há alguns sinais inegáveis em quem tem talento para escrever. Como:
    – Uma fluência ágil na escrita.
    – Um jeito com as palavras.
    – Uma imaginação que se acende facilmente, sempre pronta a ver, ouvir e sentir.
    – Um ouvido para a música da linguagem, uma tendência para se deixar absorver nos misteriosos movimentos de seu significado e de sua sonoridade.
    – Habilidade para organizar conceitos verbais com coerência, eficácia e razoável rapidez.
    – Aptidão para captar formas e figuras sutis da imaginação vívida e destreza para fixá-las na página.
    – Uma vontade incontrolável de contar histórias, algo que queima dentro de você e que não te deixa em paz.
    – Uma sensibilidade em relação ao público leitor.

    E se não há talento, pode se desenvolver. Concorda?

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