Escreva para expressar, não para impressionar.

A arte de escrever metáforas

By Diego Schutt on 11/08/2014 in Dicas, Escrever Ficção, Técnicas
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Em um vídeo super bacana do TED-Ed, Jane Hirshfield fala sobre a arte de escrever metáforas e como usá-las para dar vida a uma cena ou emoção. Abaixo, minha tradução do conteúdo do vídeo, que tem áudio original em inglês.

O TED-Ed é formado por um grupo de educadores e artistas que criam conteúdo gratuito e sem fins lucrativos. Para apoiar este projeto que oferece tanto conteúdo de qualidade, visite a página oficial deles no Patreon clicando aqui.

Quando falamos, às vezes somos diretos. “Vou até a loja. Volto em 5 minutos.” Outras vezes, falamos de um jeito que invoca uma pequena cena. “Está chovendo cães e gatos”, dizemos (expressão em inglês que significa “está chovendo muito forte”) ou “Eu estava esperando o outro sapato cair” (expressão em inglês que significa “antecipar que algo vai acontecer baseado em experiências prévias”).

Metáforas são uma forma de falar sobre uma coisa descrevendo outra coisa. Isso pode parecer redundante, mas não é. Vendo, ouvindo e degustando são as primeiras formas como tomamos contato com o mundo. O filósofo William James descreveu o mundo dos recém-nascidos como uma confusão barulhenta e intensa. Ideias abstratas não tem graça nenhuma para um bebê, se comparadas com abelhinhas e flores coloridas.

Metáforas pensam com a imaginação e os sentidos. 

Nelas, pimentas ardidas explodem na boca e na mente. Metáforas também são precisas. Não paramos para pensar sobre um pingo de chuva do tamanho de um gato ou cachorro, mas assim que o fazemos, nos damos conta que temos quase certeza de que se trata de um cachorro pequeno. Provavelmente um cocker spaniel ou um bassê, e não um labrador ou um Terra-Nova. Um beagle deve ser o tamanho certo para comparar a esses pingos de chuva.

Uma metáfora não representa uma verdade ou mentira. Metáforas são arte, não ciência. Mas mesmo assim, elas podem nos passar a sensação de estarem certas ou erradas. Uma metáfora que não é boa deixa você confuso. Você provavelmente consegue imaginar o que significa sentir-se como uma roda quadrada, mas provavelmente não sabe ao certo o que é estar cansado como uma baleia.

Há um paradoxo nas metáforas: elas quase sempre enunciam algo que não é verdadeiro. Se você diz: “tem um elefante na sala”, não há um elefante de verdade, procurando por um prato de amendoim. As metáforas entram por baixo da pele, ultrapassando a mente lógica. Além disso, elas fazem sentido porque estamos acostumados a pensar com imagens. Toda noite sonhamos coisas impossíveis e, quando acordamos, esse modo de pensar vívido influencia a forma como pensamos quando estamos acordados.

Algumas metáforas usam as palavras “como” ou “tão quanto”. 

“Tão doce quanto o mel”, “forte como uma árvore”. Essas metáforas são chamadas de símiles. Um símile é uma metáfora que admite estar fazendo uma comparação. Símiles tendem a fazer você pensar. Metáforas permitem que você sinta as coisas diretamente. Por exemplo, a famosa metáfora de Shakespeare: “O mundo é um palco”. Por algum motivo “O mundo é como um palco” parece uma frase mais pobre, mais entediante.

Metáforas também podem viver em verbos. Emily Dickinson inicia um poema assim: “Não vi um caminho, os ceús foram costurados”, e sabemos imediatamente como nos sentiríamos se o céu fosse costurado como um tecido.

Metáforas podem viver em adjetivos também. “Águas paradas são profundas”, dizemos de alguém quieto e pensativo. E a profundidade, nesta frase, importa tanto quanto a imobilidade e a água.

Um dos lugares onde encontramos boas metáforas é em poemas.

Tomemos como exemplo um haicai japonês do século XVIII, do poeta Issa. “Em um tronco flutuando na corrente de um rio, um grilo canta.” O primeiro modo de analisar uma metáfora é olhando para o mundo através dos olhos dela: um inseto canta sobre o tronco que passa no meio do rio.

Ao imaginar essa cena, parte de você reconhece na imagem um pequeno retrato de como é viver neste mundo de mudanças e de momentos passageiros. O destino do ser humano é desaparecer, tão certo quanto o daquele pequeno grilo e, ainda assim, fazemos o que ele faz. Vivemos e cantamos.

Às vezes, um poema pega uma metáfora e a expande, usando uma ideia como base para desenvolver outras ideias de diferentes formas. Aqui está o começo do famoso poema “Mãe para filho”, de Langston Hughes: “Bem, filho, vou te contar. A vida para mim não foi uma escadaria de cristal. Ela tinha tachinhas e farpas e degraus quebrados e locais sem carpete no chão.”

Langston Hughes está fazendo uma metáfora que compara a vida dura com uma casa aos pedaços, onde você é obrigado a viver. Essas farpas e tachinhas parecem reais. Elas machucam seus pés e seu coração. Mas a mãe está descrevendo sua vida, não sua casa de verdade. Fome, frio, trabalho exaustivo e pobreza é o que encontramos dentro daquelas farpas.

Metáforas não são sempre sobre nossas vidas e sentimentos. O poeta Carl Sandburg, de Chicago, escreveu: “A neblina vem no ritmo das pegadas de um gatinho. Ela senta-se silenciosamente em suas patas traseiras para olhar o porto e a cidade, e então segue em frente.” A comparação aqui é simples. A neblina é descrita como um gato.

Mas uma boa metáfora não é um quebra-cabeças ou uma forma de transmitir um significado oculto. É uma forma de permitir a você sentir e conhecer algo de um jeito diferente. 

Ninguém que escuta esse poema de Carl Sandburg o esquece. Você vê a neblina e imagina um gatinho cinza por perto.

Metáforas dão às palavras um jeito de ir além de seus próprios significados. Metáforas são maçanetas nas portas do que podemos saber e do que podemos imaginar. Cada porta leva a uma casa nova e a algum mundo novo que apenas aquela maçaneta pode abrir. E o mais extraordinário é isto: ao criar uma maçaneta, você pode criar um mundo.

Para ver a animação original, assista ao vídeo abaixo. Áudio em inglês.

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About the Author

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Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 8 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

2 Comments

  1. Emidio Lhewicheski Freitas 04/11/2014

    O mais interessante de todo o texto, e fala do vídeo, é o final. Onde ela explica uma metáfora com outra metáfora. Simplesmente genial 😀

  2. Guilherme Martins 27/09/2017

    Excelente matéria, Diego. Gosto dos seus textos e quase nunca comento, resolvi quebrar o hábito hoje. Continue com o ótimo trabalho.

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