Aprenda a criar realidades com palavras

Diálogos

Como escrever diálogos envolventes para suas histórias de ficção

Um diálogo é uma conversa ou discussão entre duas ou mais pessoas que tem como objetivo explorar um tema ou resolver um problema. Na vida real, esses objetivos não são necessariamente claros ou conscientes para os participantes, que simultaneamente vão criando o conteúdo do diálogo a medida que interagem. Já em histórias de ficção, o autor deve escrever diálogos que cumpram uma função específica na narrativa.

Diálogos permitem ao escritor dar vida aos personagens porque trazem a história para o tempo real, além de possibilitar ao leitor observar diretamente a forma como eles se comportam, se expressam e se relacionam. É uma oportunidade que o escritor oferece ao leitor de testemunhar e tomar contato direto com o que está acontecendo em uma determinada cena.

A diferença básica entre descrição e diálogo está, justamente, na forma como o escritor deseja que o leitor tenha contato com os personagens.

Em descrições, existe a influência forte de um narrador, que observa o que está acontecendo e escolhe uma forma de descrever que reforce sua perspectiva. Esse narrador seleciona, edita e, em certos casos, analisa os comportamentos dos personagens. De uma forma geral, descrições dão ao escritor mais controle para guiar a percepção do leitor para interpretar o que está acontecendo da forma como ele deseja.

Se quero contar a história de uma professora de português, por exemplo, posso descrever o método militar com que ela conduz suas aulas, o tom impessoal com que ela trata os alunos, a forma correta e artificial como ela usa o português mesmo em situações informais. A outra opção é demonstrar isso através de diálogos entre a professora e outros personagens, expondo o leitor diretamente à personalidade dela e permitindo que ele reconheça essas características na tal professora, sem que o escritor precise descrevê-las.

É preciso ter em mente que isso expõe o personagem. Ele não será mais visto somente através da perspectiva do narrador. Ele está agora em frente ao leitor, sujeito às interpretações diretas de suas falas e comportamentos.

Diálogos também funcionam como um teste de credibilidade do narrador.

Em descrições, o narrador pode dizer o que quiser sobre os personagens, já que o leitor, não tendo outra fonte de informação, tende a aceitar o que está sendo dito como verdade. Quando os personagens começam a conversar ou discutir em frente ao leitor na forma de diálogos, isso expõe o escritor, já que agora é possível comparar o que foi dito anteriormente com o que o leitor pode observar. A competência do escritor na construção de personagens passa a ser avaliada.

Se durante dez parágrafos eu apresento a professora de português do exemplo anterior como alguém extremamente preocupada em falar corretamente, um diálogo entre ela e um aluno deve demonstrar isso. A gramática das suas falas deve ser impecável, seu vocabulário deve ser rebuscado, ou o narrador perde credibilidade.

Diálogos são, em essência, trocas de informações e percepções entre personagens com o objetivo de caracterizar suas personalidades, criar tensão e conflito ou fornecer informações relevantes para avançar o enredo da história. Ficar enchendo linguiça com conversas repetitivas, longas e sem propósito é receita para escrever diálogos ruins.

Abaixo, alguns pontos para você considerar quando estiver revisando e editando os diálogos da sua história:

  1. Defina que impressão que você deseja que o leitor tenha de cada participante do diálogo. Que emoção melhor representa cada personagem nesta cena? Corajosa? Agressivo? Deprimido? Impaciente? A resposta para essa pergunta é um bom guia para você decidir que falas e comportamentos causariam essa impressão. Considere, por exemplo, como uma pessoa deprimida responderia ao convite para ir a uma festa, ou como uma pessoa agressiva responderia a um comentário sobre o frio do inverno.
  2. Pessoas de verdade conversam sobre coisas aleatórias. Diálogos que começam muito direto ao ponto, incluindo apenas o que o escritor precisa que os personagens falem para seguir desenvolvendo a história, parecem artificiais e sem vida. Para que seus diálogos soem mais verossímeis, inicie a conversa com um assunto completamente aleatório e, em seguida, faça com que as falas, naturalmente, comecem a focar no tópico desejado.
  3. Considere quem participará da conversa e as intenções de cada personagem. Pense nas suas motivações, objetivos e desejos dentro do contexto da cena. As falas de um personagem podem assumir significados e nuances completamente diferentes, dependendo da intenção por trás do que ele diz. A fala “Me dá sua mão” tem um tom e um significado diferente se o personagem deseja consolar a mãe ou se ele deseja seduzir a vizinha. Considere cada fala de um personagem como uma tentativa de alcançar algo que ele deseja naquele preciso momento.
  4. Esqueça formalismos e regras gramaticais. Fale como seus personagens falariam, considerando sua educação, profissão, personalidade, identidade, senso de humor. Cometa os erros que eles cometeriam. Construa a voz de cada personagem considerando a forma como você os apresentou antes do diálogo.
  5. Ignore seus valores e crenças pessoais. Pense, sinta e fale como cada personagem. Permita que eles expressem suas opiniões, mesmo que você não concorde com elas. Escrever as falas de um antagonista o caracterizando como uma máquina de maldades e imoralidades, somente para reforçar o quão maravilhoso é seu protagonista, resultará em um diálogo superficial e melodramático. Todo personagem se considera o herói de sua própria versão da história. É seu trabalho como escritor descobrir a versão de todos os seus personagens principais e escrever suas falas com base nisso.
  6. Certifique-se que o leitor pode facilmente identificar quem está falando em cada linha, sem precisar repetir fulano disse, beltrano disse após cada fala. Procure usar o vocabulário, a inflexão das frases, o ritmo da fala e peculiaridades da personalidade de cada personagem para ajudar o leitor a identificar quem está falando.
  7. Exclua todas as falas que não tenham um propósito específico. Introduções (oi, tudo bem, como você está) e despedidas (beijo, até mais, tchau), a não ser que tenham alguma importância específica no enredo ou caracterização dos personagens, são como um peso morto nos diálogos.
  8. Os personagens devem direcionar suas falas uns para os outros, não para o leitor. Usar diálogos para explicar sua ideia ou detalhes do universo de ficção da sua história provavelmente resultará em falas artificiais. “Heitor, nos conhecemos há 10 anos e desde os tempos da faculdade você diz que vai pedir demissão dessa fábrica de sapatos” é um exemplo de fala que soa mais como do escritor, não do personagem.
  9. Em diálogos sinceros, honestos e confessionais, as pessoas nunca revelam a verdade sobre tudo o que estão pensando. Isso não quer dizer que elas estão mentindo. O comportamento mais humano é deixar de fora aquilo que não ajuda a construir a imagem que desejamos projetar sobre nós mesmos para os outros. Reserve falas onde personagens revelam sua vulnerabilidade para momentos importantes da história.
  10. Existem outras formas de um personagem revelar opiniões e pensamentos sem os explicar didaticamente. Diálogos são ótimas oportunidades para troca de experiências. Faça seus personagens trocarem histórias do seu passado que ilustram o que eles pensam sobre um assunto. É uma ótima forma de aprofundar nosso conhecimento sobre os personagens e criar um senso de proximidade com eles. Ao invés de usar a fala “Tenho pavor de abelhas”, permita ao personagem contar de quando era adolescente e foi atacado por um exame na frente dos amigos.
  11. Escolha um cenário que permita a você explorar os comportamentos dos personagens para enriquecer a cena. Dois personagens discutindo a relação em um parque de diversões oferece a possibilidade de criação de um diálogo mais dinâmico do que se eles estivessem em casa, sentados no sofá.
  12. Mantenha os personagens ocupados durante o diálogo. Coloque em suas mãos um cigarro, uma cerveja, uma faca, um livro, e faça eles manipularem tais objetos em momentos significativos da conversa, usando esses comportamentos para dar pista do que está se passando na cabeça de cada um deles.
  13. Saiba quando utilizar o silêncio. Às vezes, o que não é dito tem mais impacto do que aquilo que é dito. Quando um personagem se recusa a responder a uma pergunta específica ou a falar com uma pessoa, o leitor imediatamente intui que há tensão relacionada ao tema da pergunta ou ao personagem que a fez, sem que o escritor precise explicar isso.

Diálogos ricos e complexos convidam o leitor a interpretar o que os personagens dizem, considerando o contraste entre o que está sendo dito, o contexto e os comportamentos e emoções que dão o tom de suas falas. Talvez o ponto mais importante a se considerar ao escrever diálogos é que as falas dos personagens são menos importantes do que o contexto que você cria para o leitor interpretá-las. Em outras palavras, é o subtexto que dá vida para o texto.

Texto é o que um personagem fala, são as palavras que saem da sua boca. Subtexto é o que está sendo dito nas entrelinhas, é a intenção/motivação do personagem, implícita na forma como ele fala ou se comporta.

Subtexto é determinado pelo contexto da cena, ou seja, o que o leitor sabe sobre o universo de ficção e sobre os personagens antes do diálogo começar. O “bom dia, meu amor” que uma esposa diz para o marido no primeiro dia da lua de mel é completamente diferente do “bom dia, meu amor” que a mesma esposa diria para o marido em casa, momentos depois de descobrir que ele estava tendo um caso com sua melhor amiga.

O mesmo texto (“bom dia”) tem um peso e significado diferente em função do subtexto criando pela situação dramática em que os personagens se encontram e as emoções e sentimentos que verdadeiramente motivam suas falas. O “bom dia, meu amor” da lua de mel é honesto e provavelmente vem acompanhado de um sorriso, que diz nas entrelinhas “eu te amo, seu maravilhoso”. O “bom dia, meu amor” depois da descoberta da traição é debochado e provavelmente vem acompanhado de uma pausa longa na vírgula, que diz nas entrelinhas “você vai me pagar, seu desgraçado”.

Se você está escrevendo uma cena onde um personagem revela estar apaixonado, por exemplo, considere como suas falas podem expressar o que ele está sentindo de forma indireta, fugindo de obviedades como “estou apaixonado por você”. Imagine como um personagem poderia indicar para outro que está apaixonado no contexto de uma conversa sobre roupas ou vinhos ou física quântica.

É importante que o escritor desenvolva um senso de equilíbrio entre o uso de diálogo e descrição. Diálogos geralmente funcionam bem para caracterizar personagens, convergir emoção e criar tensão. Descrições geralmente funcionam bem para pintar uma imagem, dar o tom de uma cena e ajudar na compreensão de elementos importantes do universo da história.

Para encontrar um equilíbrio entre essas duas formas de apresentar uma cena, experimente descrever quando um diálogo soar forçado – em especial nos momentos em que você quiser expressar uma ideia ou emoção com mais precisão e detalhe – e experimente escrever um diálogo quando uma descrição distanciar demais o leitor da cena – em especial quando você quiser que os próprios comportamentos dos personagens expressem uma ideia ou emoção de forma mais sutil.

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