Aprenda a criar realidades com palavras

Cenas

Em sua forma mais básica, uma história é uma sequência de acontecimentos que apresenta um personagem enfrentando obstáculos que o impedem de alcançar um desejo. O escritor pode apresentar tais acontecimentos para o leitor de duas formas:

Sumários Narrativos

Um sumário narrativo é um trecho do texto que apresenta acontecimentos que tem alguma relevância para o desenvolvimento da história de maneira compacta. É uma forma de avançar no tempo da narrativa rapidamente, passando para o leitor somente as informações mais importantes para contextualizar a cena seguinte ou caracterizar certos personagens.

Exemplo:

“Depois de terminar o café da manhã, Heitor vestiu a camisa com a ajuda da esposa.”

Observe como, ao invés de descrever detalhes sobre a forma particular como o personagem termina seu café da manhã, o texto avança no tempo e simplesmente resume o que aconteceu (Heitor terminou sua refeição matinal) e compartilha o que aconteceu na sequência (ele vestiu a camisa com a ajuda da mulher).

Cenas

Uma cena é uma passagem do texto que foca nas ações e reações (internas e/ou externas) dos personagens durante um período de tempo delimitado e ininterrupto, dando a sensação que a história está se desenrolando durante a leitura. Ao invés de simplesmente contar resumidamente o que aconteceu, cenas permitem que o leitor testemunhe, em tempo real, os personagens se movimentando e interagindo no universo da história. 

Exemplo: 

“Heitor limpa os arredores da boca no guardanapo com a precisão de quem faz a barba. Então pinça, um a um, os poucos farelos de bolo sobre a barriga e os coloca ao lado do prato, limpo o suficiente para ser devolvido ao armário. De pé, ele apanha uma das camisas penduradas no trinque da cozinha e entrega para Elvira. Ela segura a peça pelo colarinho, enquanto Heitor encaixa os braços com cuidado.”

Observe como esse trecho de uma cena passa a sensação que os acontecimentos estão se desenrolando ao mesmo tempo em que lemos o texto, e como a narrativa descreve em mais detalhes o que está acontecendo naquele momento e, ao mesmo tempo, dá pistas sobre a personalidade de Heitor, o protagonista da história.

Cada cena tem uma função específica na narrativa. Você determina essa função definindo como a cena atual será interpretada com base nas informações compartilhadas antes dela começar, e no impacto que tal cena terá na interpretação do que será compartilhado no resto da história.

Existem quatro tipos de cena.

  1. Cenas de contextualização: esse tipo de cena compartilha informações sobre os personagens principais e sobre o universo de ficção, que ditam a atmosfera da narrativa e servem como pano de fundo para o leitor interpretar o que acontecerá na história. Por exemplo, uma cena que descreve um pequeno vilarejo e seus habitantes conservadores para apresentar o contexto social do local onde a história vai se passar.
  2. Cenas de ação: esse tipo de cena mostra as atitudes de um personagem para alcançar um objetivo concreto. Cenas de ação são usadas para avançar o enredo da história, permitindo que o leitor acompanhe o que está acontecendo em tempo real. Por exemplo, uma cena onde o personagem A vai até a casa do personagem B com a intenção de matá-lo.
  3. Cenas de reação: esse tipo de cena foca no impacto físico ou psicológico, na vida de um ou mais personagens, resultado de algo que aconteceu em uma cena anterior. Cenas de reação são usadas para revelar dimensões mais profundas da psicologia de um personagem. Por exemplo, uma cena onde observamos a reação fria e indiferente do personagem A no dia após ele matar o personagem B.
  4. Cenas de aprofundameto: esse tipo de cena permite ao leitor conhecer os cenários e personagens da história em mais detalhes. Cenas de aprofundamento são usadas para dar textura e complexidade para a narrativa e, assim, envolver o leitor no universo de ficção. Por exemplo, uma cena onde o personagem A conversa com o personagem C sobre as primeiras impressões que ele teve a respeito do vilarejo quando se mudou para lá 5 anos atrás.

Algumas cenas apresentam características de mais de um dos tipos acima, mas é importante definir a principal função que cada cena vai cumprir em cada momento da história. Essa função é o que determina o tipo de informação que você deve focar em compartilhar com o leitor nesta parte do texto.

Ou seja, em uma cena de ação, onde o foco está em apresentar os comportamentos de um personagem para alcançar um objetivo concreto, incluir muitos detalhes sobre o cenário ou os personagens pode prejudicar o ritmo da narrativa. Em uma cena de reação, onde o foco está em apresentar o impacto físico ou emocional de um acontecimento na vida de um personagem, dar um objetivo concreto complexo para ele alcançar pode desviar a atenção de suas emoções internas para comportamentos externos.

Cada cena é uma micro-história dentro da história. Portanto, toda cena precisa de um começo, um meio e um fim. Para determinar quando uma cena termina e outra começa, pense na função que cada uma delas tem na história. Se a função da CENA 1 é caracterizar o protagonista, a cena termina quando você tiver passado todas as informações necessárias para o leitor conhecer as características mais importantes sobre esse personagem. Se a função da CENA 2 é mostrar a reação do personagem a algo que aconteceu na cena anterior, a cena termina quando entendemos o impacto emocional que o acontecimento teve neste personagem.

Portanto, o que delimita as fronteiras entre uma cena e outra é sua função, não a mudança de cenário onde os personagens estão. Um jantar que acontece ao longo de uma hora, por exemplo, pode ter várias cenas que se passam no mesmo local, sem nenhuma interrupção no fluxo de tempo. Ao mesmo tempo, uma conversa entre dois personagens que começa na cozinha, continua no carro e termina em um estacionamento pode ser classificada como uma única cena, já que sua função não muda ao longo do tempo, apesar da movimentação dos personagens entre diferentes cenários.

Toda história de ficção é como um quebra-cabeça que só revela sua imagem completa no final.

Cada cena é uma peça desse quebra-cabeça que dá pistas dessa imagem. Ao longo da narrativa, o leitor procura encontrar padrões na forma e no conteúdo de cada peça e, aos poucos, começa a criar expectativas sobre a figura que o escritor está tentando lhe mostrar.

O seu principal trabalho é entregar para o leitor peça por peça desse quebra-cabeça, de forma a deixá-lo curioso para descobrir que figura é essa e sugerir possíveis interpretações sobre o que ela significa.

Para julgar que cenas são necessárias e quais são dispensáveis, é importante que você tenha em mente a imagem completa que deseja criar com sua história.

Você não precisa necessariamente decidir isso antes de começar a escrever, mas é importante que em algum momento no seu processo de criação você considere o que deseja expressar com sua história.

Quanto mais consciente você estiver do tipo de cena que está escrevendo e da reação que você espera provocar no leitor, mas facilidade terá para envolve-lo no universo de ficção da sua história.

Copyright 2010-2017 Diego Schutt - Todos os Direitos Reservados | Ficção em Tópicos ® é uma marca registrada