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Qual a diferença entre cena e capítulo?

Por Diego Schutt em 15/05/2018 Tópicos: Escrever Ficção, Estrutura
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O Gabriel me mandou uma mensagem perguntando qual a diferença entre cena e capítulo.

Uma cena é uma passagem do texto que foca nas ações e reações dos personagens durante um período de tempo delimitado e ininterrupto, dando a sensação que a história está se desenrolando durante a leitura. Ao invés de simplesmente contar resumidamente o que aconteceu, cenas permitem que o leitor testemunhe em “tempo real” os personagens se movimentando e interagindo no universo da história.

Um capítulo é uma divisão que o escritor arbitrariamente cria no texto. Não existem regras sobre a extensão ou número de capítulos que um livro precisa ter. Um capítulo pode incluir apenas uma cena ou pode incluir várias cenas. Ou ainda, uma cena pode começar em um capítulo e terminar em outro.

Um capítulo pode conter apenas uma página ou conter vinte páginas. Capítulos podem ser intitulados ou não. Também é possível escrever uma história sem capítulos, onde o texto inicia na primeira página e segue sem interrupções até o final.

A decisão sobre como e por que criar essas divisões na história fica a critério do escritor. 

Na prática, livros são divididos em capítulos para tornar a experiência de leitura mais amigável. É fácil ler um conto em uma sentada porque esse tipo de texto é muito mais curto em comparação a uma novela. Quando lemos narrativas mais longas, no entanto, interrompemos a leitura várias vezes.

Se um livro é uma viagem de carro do norte ao sul do Brasil, cada capítulo é uma parada ao longo do caminho para os viajantes esticarem as pernas, irem ao banheiro, contemplarem quanto chão já percorreram e como foi a experiência da viagem até agora.

Do ponto de vista do escritor, a escolha de dividir um texto em capítulos pode ter diferentes objetivos.

1. Criar uma estrutura para o enredo

Se você gosta de arquitetar suas histórias antes de começar a escrever, subdividir a narrativa em capítulos pode ajudar você a estruturar seu texto. Pense em cada capítulo como uma etapa na jornada do protagonista para resolver o conflito que o ponto de virada introduziu em sua vida. Definir a essência dos eventos mais importantes do enredo é um ótimo exercício para ajudar você a focar suas sessões de escrita. Você pode, por exemplo, transformar cada etapa da Jornada do Herói em um capítulo.

Outro exemplo. Você pode subdividir sua história em cinco capítulos. O foco do primeiro capítulo pode ser apresentar os personagens e o mundo da história. O foco do segundo capítulo pode ser introduzir um ponto de virada na vida do protagonista e dar para o leitor uma dimensão da importância desse acontecimento na vida do personagem. O foco do terceiro capítulo pode ser intensificar o conflito até que ele atinja sua intensidade máxima. O foco do quarto capítulo pode ser mostrar as consequências das escolhas do protagonista ao longo do enredo e resolver (ou não) o conflito da história. O foco do quinto capítulo pode ser ajudar o leitor a dar um sentido para tudo o que aconteceu.

2. Sinalizar uma mudança estrutural

Mudar subitamente algum aspecto da estrutura narrativa estabelecida no início da história tem o potencial de confundir o leitor e prejudicar a experiência de leitura. Para evitar que isso aconteça, você pode sinalizar mudanças estruturais no texto iniciando um novo capítulo. Por exemplo, se sua narrativa intercala a descrição da vida de uma mulher ao longo de três décadas, iniciar um novo capítulo é uma forma de sinalizar para o leitor que o foco do texto mudou para uma outra fase da vida da personagem.

O mesmo vale para mudanças de cenário. Em uma narrativa que descreve histórias acontecendo em paralelo em cidades ou países diferentes, criar um capítulo cada vez que você alterna entre um local e outro pode ajudar o leitor a estabelecer uma fronteira clara entre esses diferentes espaços onde a história se passa. Finalmente, se você usa múltiplos narradores, uma ótima estratégia é criar um novo capítulo cada vez que você mudar o foco narrativo.

3. Ajudar o leitor a se orientar

Você também pode usar o título dos capítulos da sua história para ajudar o leitor a entender onde e quando certos eventos estão acontecendo. Alguns exemplos de títulos de capítulos que cumprem essa função: Hospital Mãe de Deus, 13:50, Parque da Harmonia, 06:22, Rua Borges de Medeiros, 23:48.

Em histórias focadas em conflitos externos, você pode estruturar cada capítulo ao redor de um objetivo pontual do protagonista, que representa mais uma etapa na sua estratégia para alcançar seu grande objetivo. Em histórias mais focadas em conflitos internos, você pode estruturar cada capítulo ao redor de uma coleção de momentos e situações que revelam uma dimensão diferente da personalidade ou identidade do protagonista.

4. Dar um gostinho da história

Antes de decidir investir tempo na leitura de um livro, muitos leitores querem saber se vão encontrar o tipo de experiência de leitura que estão procurando. Intitular capítulos é uma forma de sugerir o tipo de universo de ficção que o escritor criou em sua história.

Observe os títulos dos capítulos do livro “Alice no país das maravilhas”: Na Toca do Coelho, O Mar de Lágrimas, Uma Corrida Eleitoral e uma Longa História, O Coelho dá uma Tarefa a Bill, Conselhos de uma Lagarta, O Porco e a Pimenta, Um Chá de Loucos, O Campo de Croquet da Rainha, A História da Falsa Tartaruga, A Quadrilha da Lagosta, Quem Roubou as Tortas, O Depoimento de Alice. Perceba como eles dão um senso do universo de fantasia e de aventura da história.

 

Estude livros do mesmo gênero que você quer escrever. Analise se eles usam divisão de capítulos ou não, se intitulam cada capítulo ou não, qual a extensão de cada capítulo e como isso tudo influencia na atmosfera da história, no ritmo da narrativa e na experiência de leitura.

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Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 8 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

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