Aprenda a criar experiências com palavras

Subtexto: a arte de expressar o inconsciente dos personagens #3

Por Diego Schutt em 11/03/2018 Tópicos: Escrever Ficção, Estilo
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Este é o terceiro artigo da série “Subtexto: a arte de expressar o inconsciente dos personagens”.

No primeiro artigo da série, mostrei como texto, subtexto e intertexto influenciam no significado que o leitor dá para a história.

No segundo artigo da série, exemplifiquei como você pode usar subtexto para criar diálogos mais complexos e verossímeis.

Neste artigo, vou me concentrar em exemplificar o uso de subtexto em histórias contadas por um narrador.

Para trabalhar no subtexto e intertexto dos diálogos de uma história, você parte do seu conhecimento sobre as emoções e intenções ocultas dos personagens para escrever falas mais sutis e verossímeis, que simulam a forma indireta e comedida como o ser humano normalmente se comunica.

Para trabalhar no subtexto de uma história contada por um narrador, é importante que, primeiro, você entenda os três tipos de prosa que pode usar ao escrever um texto de ficção.

1. Prosa Narrativa

A prosa narrativa foca em acontecimentos concretos e nos comportamentos dos personagens. São as passagens que dão um senso de movimento para o enredo. A prosa narrativa descreve o que está acontecendo em uma cena, e as ações e reações externas dos personagens.

2. Prosa Subjetiva

A prosa subjetiva foca na experiência subjetiva de um personagem. São as passagens que revelam seu fluxo de pensamentos e emoções. A prosa subjetiva descreve o que, de fato, está se passando na mente de um personagem.

3. Prosa Contemplativa

A prosa contemplativa foca em compartilhar as percepções, críticas ou reflexões do narrador a respeito de um certo assunto. São as passagens do texto que descrevem detalhes do cenário, revelam memórias e informações sobre o passado de um personagem, contemplam detalhes sobre sua personalidade, suas crenças, valores ou desejos. A prosa contemplativa também pode ilustrar o modelo mental de um personagem ou do narrador, ou seja, prosa narrativa pode ser usada para revelar, defender ou explicar um ponto de vista pessoal e subjetivo sobre um tema.

 

Em diálogos, o leitor tem contato direto com as falas dos personagens e, portanto, o subtexto é aquilo que não é dito verbalmente, ou seja, são os pensamentos e emoções que os personagens decidiram não compartilhar com seu interlocutor. Em textos em prosa, entretanto, o leitor toma contato com a história por intermédio de um narrador. Isso muda a dinâmica de criação de significado da história e, como consequência, muitos escritores acabam confundido subtexto com prosa subjetiva e intertexto com prosa contemplativa.

Um narrador tem o poder de revelar o “não dito” – aquilo que um personagem pensa, sente e deseja, mas não expressa verbalmente – e até mesmo o “indizível” – o conteúdo inconsciente da mente do personagem. Isso não significa que, ao escrever em prosa, revelar o subtexto e intertexto dá profundidade para a história. Muito pelo contrário. Ao expor um personagem tão explicitamente e artificialmente, o escritor revela sua imaturidade ao reduzir a complexidade da mente humana a certas associações lógicas e conclusões superficiais.

Como escritor, você precisa aprender a separar as informações que representam o resultado de um mergulho profundo na mente dos seus personagens – parte do seu processo de criação que não deve aparecer no texto – e que informações precisa compartilhar para criar uma experiência de leitura envolvente. 

Observe como o escritor Ignácio de Loyola Brandão mistura os três tipos de prosa mencionados acima no início do conto “Obscenidades para uma dona de casa”. O que é prosa narrativa está marcado em itálico. O que é prosa subjetiva está marcado em negritoO que é prosa contemplativa está sublinhado

Três da tarde ainda, ficava ansiosa. Andava para lá, entrava na cozinha, preparava nescafé. Ligava televisão, desligava, abria o livro. Regava a planta já regada, girava a agenda telefônica, à procura de amiga a quem chamar. Apanhava o litro de martíni, desistia, é estranho beber sozinha às três e meia da tarde. Podem achar que você é alcoólatra. Abria gavetas, arrumava calcinhas e sutiãs arrumados. Fiscalizava as meias do marido, nenhuma precisando remendo. Jamais havia meias em mau estado, ela se esquecia que ele é neurótico por meias, ao menor sinal de esgarçamento, joga fora. Nem dá aos empregados do prédio, atira no lixo.

Quatro horas, vontade de descer, perguntar se o carteiro chegou, às vezes vem mais cedo. Por que há de vir? Melhor esperar, pode despertar desconfiança. Porteiros sempre se metem na vida dos outros, qualquer situação que não pareça normal, ficam de orelha em pé. Então, ele passará a atenção no que o carteiro está trazendo de especial para a mulher do 91 perguntar tanto, com uma cara lambida. Ah, aquela não me engana! Desistiu. Quanto tempo falta para ele chegar? Ela não gostava de coisas fora do normal, instituiu sua vida dentro de um esquema nunca desobedecido, pautara o cotidiano dentro da rotina sem sobressaltos. Senão, seria muito difícil viver. Cada vez que o trem saía da linha, era um sofrimento, ela mergulhava na depressão. Inconsolável, nem pulseiras e brincos, presentes que o marido trazia, atenuavam.

Na fossa, rondava como fera enjaulada, querendo se atirar do nono andar. Que desgraça se armaria. O que não diriam a respeito de sua vida. Iam comentar que foi por um amante. Pelo marido infiel. Encontrariam ligações com alguma mulher, o que provocava nela o maior horror. Não disseram que a desquitada do 56 descia para se encontrar com o manobrista, nos carros da garagem? Apenas por isso não se estatelava alegremente lá embaixo, acabando com tudo.

Perceba como a prosa narrativa predomina no primeiro parágrafo deste texto, onde a intenção do escritor é nos ajudar a imaginar essa dona de casa e dar um senso de movimento para a história. Nos parágrafos seguintes, no entanto, o texto muda o foco para prosa subjetiva e contemplativa para nos ajudar a experimentar o mundo com a mente dessa personagem.

Mas essa prosa subjetiva e contemplativa – que revela certas ansiedades, medos e desejos que essa dona de casa jamais compartilharia com outras pessoas – não representa o subtexto da história. O subtexto não é definido pelos pensamentos e emoções que um personagem não expressa verbalmente, mas sim pelas pistas que cada trecho do texto dá para o leitor de como interpretar a substância da história escondida nas entrelinhas.

Releia a passagem do conto usada como exemplo. Repare como superficialmente, no nível do texto, o narrador está apenas descrevendo o fluxo de pensamento de uma mulher que está ansiosa a espera da chegada de uma carta.

Quando consideramos o subtexto, entretanto, podemos imaginar o que está realmente se passando dentro da mente dessa personagem.

O que me parece estar subentendido nessa passagem é o senso de excitação e nervosismo que essa mulher está sentindo. Ela tenta se distrair, dirigindo sua atenção para o café, a televisão, o livro, a planta, a agenda telefônica, o martíni, as gavetas e as meias do marido. Essa insistência quase desesperada em tentar parar de pensar na tal carta sugere sua importância, o que nos deixa curiosos para descobrir quem é seu remetente e qual é seu conteúdo.

Outro ponto que o subtexto me parece deixar evidente é a ansiedade dessa dona de casa para corresponder as expectativas que os outros têm a respeito dela. Ela não bebe martini a tarde para não acharem que ela é alcoólatra. Ela não desce para perguntar para o porteiro se a carta já chegou para não levantar suspeita. Ela não se atira do nono andar por causa das fofocas que inventariam sobre ela.

A narrativa também sugere que essa dona de casa tem uma rotina repetitiva e limitada. Ela não é o tipo de pessoa que se arrisca ou se aventura. Portanto, o texto deixa implícito que não há surpresas – boas ou ruins – na vida dela. O texto nos influencia a acreditar que ela é uma mulher infeliz, limitada a viver a vida tradicional de uma dona de casa.

Para considerar o intertexto dessa passagem, ou seja, o conteúdo implícito na relação entre texto e subtexto, preste atenção a algumas das imagens que o escritor evoca em certos trechos. Por exemplo, o narrador compara os momentos de sofrimento dessa dona de casa a um trem que sai da linha.

Além disso, o narrador revela que, para ela, “seria muito difícil viver” se tivesse que trilhar por caminhos desconhecidos. No contexto deste texto, esses caminhos desconhecidos me parecem se referir às atividades que não combinam com a imagem de uma dona de casa conservadora. A palavra “trem” também evoca a ideia de que ela é uma passageira passiva em uma viagem cujo destino já está definido.

Repare também como o narrador nos dá pistas do inconsciente da personagem no trecho “Na fossa, rondava como fera enjaulada, querendo se atirar do nono andar.” O uso da expressão “fera enjaulada” me parece sugerir o desespero dessa dona de casa por ter que reprimir seus instintos e desejos. Esse é o preço que ela paga para manter o casamento e as aparências.

Se o escritor revelasse explicitamente o subtexto e intertexto do início do conto, o resultado seria algo assim:

“Três da tarde ainda, ficava ansiosa pensando em como sua vida era uma viagem com destino marcado. Essa ideia a transtornava. Tentava se distrair pela casa, considerava até mesmo beber no meio da tarde, mas era uma dona de casa respeitável e uma dona de casa respeitável nunca faria isso. Se ocupava, então, dos seus afazeres domésticos. O mais importante deles era a fiscalização das meias do marido. Ao menor sinal de mau estado, ele as descartava. Era triste pensar que sua vida girava em torno desse homem que também não hesitaria em descartá-la, caso percebesse qualquer sinal de que ela não estava cumprindo seu papel de esposa perfeita.

Quatro horas, vontade de descer, perguntar se o carteiro chegou, às vezes vem mais cedo. Por que há de vir? Melhor esperar, pode despertar desconfiança. Era importante manter as aparências no prédio e não criar problemas ou preocupações. Não gostava de coisas fora do normal. Obedecer o marido era o preço que ela pagava por uma vida tranquila. Senão, seria muito difícil viver. Cada vez que sentia perder o controle, era um sofrimento, ela mergulhava na depressão e nem os agrados do marido faziam diferença. 

Na fossa, sentia-se uma prisioneira de sua própria vida. Seus instintos eram domesticados, seus desejos eram ignorados e, por isso, tinha vontade de se atirar do nono andar. Que desgraça se armaria. As fofocas que inventariam a respeito dela, todas mentirosas. Nunca daria a satisfação para os que aguardavam ansiosos que sua vida perfeita fosse desmascarada. Apenas por isso não se estatelava alegremente lá embaixo, acabando com tudo.”

Nesta versão dos parágrafos iniciais do conto, o narrador deixa explícito o conteúdo inconsciente da mente da personagem. O resultado é um texto que soa preocupado demais em explicar e justificar porque essa dona de casa se sente tão angustiada.

Na versão original do texto, Ignácio de Loyola Brandão lança mão de uma estratégia mais sofisticada e sutil para expressar o inconsciente dessa dona de casa. Ele descreve ações concretas (o que a personagem faz para se distrair enquanto espera pela carta) que externalizam preocupações específicas (com o marido e sua reputação) que são iluminadas por imagens evocativas (o trem fora do trilho, a fera enjaulada).

A profundidade de uma história não está nas informações que o escritor revela, mas nas ideias que ele deixa subentendidas, e nas associações e simbologias que ele sugere no contraste entre texto e subtexto.

Os melhores escritores não escrevem histórias apenas para revelar tudo o que descobriram sobre seus personagens, mas para compartilhar como as experiências desses personagens em determinadas circunstâncias podem iluminar algo que palavras não dão conta de expressar.

Histórias recheadas de subtexto são mais envolventes porque demonstram que o escritor reconhece as ambiguidades, complexidades e sutilezas da forma como o ser humano pensa, sente e se comunica.

Esse é um tópico complexo. Caso algum ponto mencionado no artigo não tenha ficado claro, deixe um comentário para que eu possa editar o texto e incluir informações complementares.

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Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 8 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

3 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Caiuã Araújo 14/03/2018

    Essa sua série de artigos está sensacional. Me ajudando muito a refletir e melhorar em certos aspectos da minha escrita.
    Parabéns pelo excelente conteúdo.

  2. Elizabete Sales 15/03/2018

    Maravilhosa essa série de artigos. Orientações importantes principalmente para escritores iniciantes. Com certeza vai ajudar a melhorar minhas narrativas.
    Obrigada por compartilhar conhecimentos tão valiosos.

  3. Thatá Brito 16/05/2018

    Ótimo texto! Quero desenvolver minha escrita e estou aprendendo muito com seu site. Obrigada!

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