Escreva para expressar, não para impressionar.

Subtexto: a arte de expressar o inconsciente dos personagens #2

Por Diego Schutt em 27/02/2018 Tópicos: Dicas, Escrever Ficção, Técnicas
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A imagem acima usa um ícone criado por Freepik do Flaticon. Licença para uso disponível aqui.

Este é o segundo artigo da série “Subtexto: a arte de expressar o inconsciente dos personagens”.

No primeiro artigo da série, mostrei como texto, subtexto e intertexto influenciam no significado que o leitor dá para a história.

Neste artigo, vou exemplificar como você pode usar subtexto e intertexto para criar diálogos mais complexos e verossímeis.

No livro “Dialogue: The art of verbal action for the page, stage, and screen”, Robert Mckee diferencia as três dimensões da linguagem de um personagem.

1. O Dito

O dito são as ideias e emoções que um personagem escolhe compartilhar com os outros. Isso corresponde ao texto, ou seja, ao significado explícito das palavras proferidas pelo personagem. Em um nível superficial, o que é dito é interpretado literalmente, independente do quanto sabemos sobre quem fala ou as circunstâncias em que tal pessoa se encontra.

2. O Não Dito 

O não dito é aquilo que o personagem pensa, sente e deseja, mas não expressa verbalmente. Isso corresponde ao subtexto, ou seja, ao significado subentendido nas entrelinhas de suas falas. Interpretamos ou intuímos o que um personagem não revela explicitamente levando em conta o que sabemos sobre ele e as circunstâncias em que ele se encontra.

3. O Indizível

O indizível é o conteúdo inconsciente da mente do personagem, ou seja, o repositório emocional e irracional de desejos, medos e teorias sobre a vida, que ele não consegue expressar em palavras ou mesmo pensar com clareza a respeito. Isso corresponde ao intertexto, ou seja, ao significado implícito na motivação inconsciente do personagem para se expressar de uma forma específica. Interpretamos ou intuímos o que é indizível para um personagem quando percebemos certas contradições entre o conteúdo do texto (o que ele diz) e do subtexto (o que ele está sentindo de verdade).

Considere o seguinte diálogo, extraído do primeiro episódio da série “Fargo” (disponível na Netflix). Marido (Lester) e mulher (Pearl) estão conversando na mesa da cozinha de casa, enquanto almoçam. Você pode assistir à cena no vídeo abaixo (áudio e legendas em inglês).

Pearl: “A Kitty disse que eu tenho que fazer um rolo-de-carne. Eu disse que a gente ia levar uma salada, mas a Kitty disse rolo-de-carne, então… Amor?”

Lester: “Que foi que você disse, amor?”

Pearl: “Eu disse que é o aniversário do seu sobrinho hoje à noite e a gente tem que estar lá às quatro. Com um rolo-de-carne.”

Lester: “A máquina de lavar está fazendo um barulho diferente hoje. Você não acha? Ela parece irritada.”

Pearl: “Tô lavando toalhas. Ela faz esse barulho quando lavo toalhas.

Lester: “Ah…”

Pearl: “A Kitty me contou que eles compraram uma das aquelas máquinas européias chiques, que fazem tudo. Diz que ela lava e seca, uma máquina só. Dá pra acreditar?”

Lester: “Aposto que eles se endividaram pra comprar.”

Pearl: “Ele tá bem de dinheiro, o seu irmão. A Kitty disse que ele acabou de ser promovido. Depois de trabalhar lá só por um ano. A Kitty disse que eles também compraram um daqueles novos sistema de som chiques, com várias caixas. Eu acho que casei com o irmão errado.”

Lester: “Oh…”

Pearl: “Foi isso que eu disse pra Kitty. A gente deu risada.”

Lester: “Os negócios estão meio devagar para mim. Lá na loja.”

Pearl: “Ai amor. Isso é o que você sempre diz. Devagar…”

Lester limpa a boca com o guardanapo e se levanta: “Tá na hora de eu voltar pro trabalho.”

Pearl: “Você é responsável pelo seu sucesso. Foi o que a Kitty disse que seu irmão disse pra ela. Vendedores fazem seu próprio sucesso. Você precisa se esforçar mais, amor. Sorria, Jesus amado. Quem sabe usa uma gravata melhor.”

Lester: “Você me deu essa gravata.”

Pearl: “Bom, se você fosse um vendedor melhor, eu teria comprado uma gravata melhor pra você.”

Lester está prestes a sair da cozinha. 

Pearl: “Pelo menos dá uma olhada na máquina de lavar antes de sair. Eu acho que o problema deve ser a configuração.”

 

Perceba como superficialmente, no nível do texto, as falas dos personagens são aparentemente inofensivas. Quando consideramos o subtexto, entretanto, podemos entender o que está realmente se passando dentro da mente de cada personagem. Abaixo, o que eu escuto nas entrelinhas de cada fala.

Vale reforçar que parte do subtexto sugerido neste diálogo está na linguagem não verbal usada pelos atores. Em uma narrativa de ficção, o texto poderia ser enriquecido intercalando certas falas com a descrição de alguns comportamentos, gestos, expressões faciais e tom de voz dos personagens.

 

Pearl: “Eu queria levar uma coisa, mas a Kitty me disse pra levar outra. Olha que desaforo… Ei! Eu tô falando sozinha?”

Lester: “Eu não estava prestando atenção. O que foi?”

Pearl: “Você é um avoado. Eu disse que estou fazendo a gentileza de preparar um prato pro aniversário do seu sobrinho e nem que prato levar posso decidir.”

Lester: “Estou sentindo algo estranho no ar. Você não?”

Pearl: “Que bobagem. Nossa vida é o tédio de sempre.”

Lester: “Pois é…”

Pearl: “Seu irmão faz de tudo pra dar uma vida boa pra esposa.”

Lester: “Eles desperdiçam dinheiro comprando bobagens.”

Pearl: “Diferente de você, seu irmão é bem sucedido e ganha dinheiro suficiente pra comprar bobagens que fazem a esposa dele feliz. Me arrependo de ter casado com você.”

Lester: “Que piada.”

Pearl: “Você é uma piada. Até a esposa do seu irmão concorda.”

Lester: “Estou fazendo meu melhor pra te dar uma vida boa, mas não depende só de mim.”

Pearl: “Lá vem você, sempre com a mesma desculpa.”

Lester limpa a boca com o guardanapo e se levanta: “Eu vou embora antes que você me deixe ainda mais desmotivado.”

Pearl: “Seu irmão não fica reclamando. Ele vai lá e faz. Enquanto isso, olha para você! Até sua cara e suas roupas gritam fracasso.”

Lester: “Por que você só me coloca para baixo?”

Pearl: “Se você me desse a vida que eu quero, eu te colocaria para cima.”

Lester está prestes a sair da cozinha.

Pearl: “Pelo menos pensa sobre o que falei. Acho que tem alguma coisa errada com você.”

Superficialmente, esta é uma cena comum de um casal tomando café da manhã. Mas na forma como os personagens escolhem expressar seus pensamentos, emoções e desejos, podemos perceber que existe uma contradição entre texto e subtexto.

Durante o diálogo, eles sorriem e se referem um ao outro como “amor”. Nas entrelinhas de suas falas, entretanto, fica evidente a frustração dos dois. Pearl é quem conduz a conversa e é mais explícita ao revelar sua irritação, mas Lester também revela sutilmente que está tão infeliz no casamento quanto ela.

É interessante considerar porque o escritor decidiu focar o tema da conversa dos personagens no irmão de Lester e sua esposa, ao invés de permitir que os personagens dissessem exatamente o que estavam sentindo, como na versão do diálogo que escrevi revelando o subtexto de cada fala.

Como mencionei no primeiro artigo desta série, um escritor maduro entende que são raros os momentos em que dizemos exatamente o que está se passando na nossa mente. Na maior parte do tempo, disfarçamos nossas verdadeiras emoções por medo das possíveis consequências de revelá-las.

Se Pearl e Lester revelassem o que, de fato, estavam sentindo, a conversa soaria artificial, mastigada, explicada e melodramática, além de transformar os personagens em caricaturas ocas. Ao invés disso, o escritor usa subtexto para estabelecer uma atmosfera de mistério e tensão na cena, sugerindo que o verdadeiro conteúdo daquela conversa estava no não dito.

O uso de subtexto estimula a curiosidade do leitor para considerar que informações estão escondidas por trás de cada informação revelada. Você pode colocar isso em prática relendo os diálogos da sua história e imaginando o subtexto das falas de cada personagem, como fiz acima.

Se o que os personagens dizem corresponde exatamente ao que eles estão pesando, e se você não consegue identificar certas contradições entre suas falas e emoções, grandes chances de que o diálogo é artificial ou melodramático.

Quando você está desenvolvendo uma ideia de história, seu foco deve estar na produção do texto. Quando você revisa e edita o que escreveu, no entanto, seu foco deve estar na compreensão do subtexto. Esse processo representa um mergulho na psicologia de cada um dos seus personagens.

Um mergulho raso revela o subtexto. Um mergulho mais profundo revela o intertexto, ou seja, o significado implícito na motivação secreta do personagem para se expressar de uma forma específica.

Se a personagem Pearl está tão frustrada com o marido, por que ela escolheu criticá-lo de uma forma indireta? Por que ela não disse exatamente o que estava sentindo? Essa pergunta é a porta de entrada para considerarmos o intertexto das falas dessa personagem.

Talvez Pearl esteja infeliz no casamento, mas se sinta dependente do marido. Talvez ela tenha medo de Lester divorciá-la em função do casal morar em uma cidade pequena e conservadora. Sua estratégia para conseguir o que deseja neste cena (motivar Lester a se esforçar para fazer mais dinheiro) é ccompará-lo ao seu irmão bem sucedido. Ela faz isso escolhendo cuidadosamente uma forma de se expressar que deixa evidente sua frustração, mas não põe em risco seu casamento.

Do ponto de vista de Lester, se ele está cansado de se esforçar para agradar a esposa ingrata, por que ele escolheu apenas sorrir amarelo e não demonstrou raiva ao escutar as provocações de Pearl? Por que ele não revelou que também estava infeliz no casamento? Por que ele não disse para ela que compará-lo ao irmão que ele tanto odeia não é nada motivador?

Talvez Lester se sinta sortudo por ter encontrado alguém para casar, apesar de ele ser um fracassado. Talvez Lester tenha medo da esposa o abandonar e ele, além de ser um fracassado, se tornar um fracassado solitário.

Sua estratégia para conseguir o que deseja neste cena (evitar conflito) é não responder às provocações de Pearl e, na sua forma de se expressar, sugerir sutilmente sua frustração para a esposa. Ao meu ver, quando ele diz “A máquina de lavar está fazendo um barulho diferente hoje. Você não acha? Ela parece irritada”, ele está inconscientemente indicando para a esposa a irritação que ELE está sentindo.

Ao escrever diálogos, é importante que você aprenda a separar o que é texto e o que é subtexto.

Só assim você poderá tomar decisões sobre quais informações devem ficar explícitas na narrativa, e quais apenas você, escritor, precisa conhecer para escrever falas mais verossímeis e autênticas para cada personagem.

Esse é um tópico complexo. Caso algum ponto mencionado no artigo não tenha ficado claro, deixe um comentário para que eu possa editar o texto e incluir informações complementares.

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Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 8 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

2 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Sônia Borges 27/02/2018

    E quando há apenas pensamentos do personagem, como fica? Devo escrever realmente o que ele está sentindo?

  2. Author
    Diego Schutt 28/02/2018

    Oi Sônia

    Não existe uma reposta simples para a sua pergunta. Depende da história, do gênero, do perfil do leitor e do seu estilo de escritora.

    No próximo artigo da série, vou investigar mais a fundo o uso do subtexto em narrativas na primeira e terceira pessoa. Acredito que vou poder responder a sua pergunta de uma forma mais completa.

    Obrigado pela leitura.

    abs
    Diego

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