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Como criar suspense nas suas histórias

By Diego Schutt on 04/12/2017 in Dicas, Escrever Ficção, Técnicas
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Nesta ótima lição do TED-Ed, Victoria Smith compartilha cinco técnicas para criar suspense nas suas histórias. Abaixo, minha tradução livre do conteúdo do vídeo, que tem áudio original em inglês.

O TED-Ed é formado por um grupo de educadores e artistas que criam conteúdo gratuito e sem fins lucrativos. Para apoiar este projeto que oferece tanto conteúdo de qualidade, visite a página oficial deles no Patreon clicando aqui.

Como se escreve uma boa história de terror? É claro, você pode incluir alguns monstros horríveis, chafarizes de sangue e criaturas assustando o protagonista em todas as cenas. Mas como o clássico escritor de terror H.P. Lovecraft disse, “O tipo de medo mais antigo e mais impactante é o medo do desconhecido”. Escritores exploram esse medo não revelando coisas horríveis, mas deixando os leitores ansiosos com a possibilidade dessas coisas horríveis acontecerem, ou seja, os colocando em um estado de suspense.

Os exemplos mais familiares de suspense vêm de filmes de terror e histórias de mistério. O que há dentro da mansão mal assombrada? Qual dos convidados do jantar é o assassino? Mas suspense também é usado em outros gêneros. O herói vai salvar o mundo? O casal vai ficar junto no final? Qual é o segredo oculto que causa tanta dor no protagonista?

O fundamental para se criar suspense é estabelecer uma ou mais perguntas que deixem a audiência curiosa para descobrir as respostas. Para manter a atenção dos leitores, é preciso manter seu interesse no que está acontecendo e fazê-los seguir tentando adivinhar o que vai acontecer na sequência, até que a história ofereça as respostas que eles anseiam por descobrir.

Então que técnicas você pode usar para alcançar criar suspense nos seus textos?

1. Limite o ponto de vista

Ao invés de usar um narrador onisciente que pode ver e compartilhar tudo o que acontece, conte a história da perspetiva dos personagens. Eles talvez comecem a história sabendo tão pouco quanto o leitor e, à medida que eles descobrem certas informações, o leitor também ganha esse conhecimento. Histórias clássicas como “Drácula”, por exemplo, são contadas através de cartas e páginas de diários, onde os personagens relatam suas experiências e seus medos sobre o que pode acontecer.

2. Escolha bem o cenário e a linguagem

Mansões velhas ou castelos com corredores sinuosos e passagens secretas sugerem que coisas perturbadoras estão escondidas nesses locais. Noites escuras, neblina e tempestades também têm um papel importante porque limitam a visibilidade e limitam os movimentos dos personagens. É por isso que a Londres vitoriana é um cenário tão popular. Mas mesmo lugares e objetos ordinários podem ser apresentados de uma forma sinistra, como na novela gótica “Rebecca”, onde as flores na casa nova da protagonista são descritas como vermelho-sangue.

3. Atenção para o estilo e a forma

Você pode criar suspense prestando atenção cuidadosa não somente ao que acontece, mas como tal acontecimento é apresentado e em que ritmo você revela certas informações. Edgar Allan Poe expressa o estado mental do narrador na história “The Tell-Tale Heart” com frases fragmentadas que são interrompidas repentinamente que, aliadas a outras frases dramáticas na história, criam uma mistura de pressa ofegante com pausas angustiantes. No cinema, a cinematografia de Alfred Hitchcock é conhecida pelo uso de longos silêncios e imagens de lances de escada que criam uma sensação de desconforto.

4. Use ironia dramática

Você não pode manter o leitor no escuro durante toda a história. Às vezes, suspense funciona melhor quando você revela partes importantes do grande mistério para o leitor, mas não para os personagens. Essa é uma técnica conhecida como ironia dramática, onde o mistério não está no que vai acontecer, mas quando e como os personagens vão descobrir esse grande mistério. Na peça clássica “Oedipus Rex”, o protagonista não sabe que matou seu próprio pai e casou com sua mãe, mas a audiência sabe. Assistir a Oedipus descobrindo a verdade, pouco a pouco, permite que a história atinja um clímax angustiante.

5. Cliffhangers

Cuidado para não usar esta técnica em excesso. Muitos consideram um truque fácil e amador, mas é difícil negar sua eficiência. Cliffhanger é quando um capítulo, episódio, volume ou temporada é interrompida um pouco antes de algo crucial ser revelado ou no meio de uma situação perigosa, onde há pouca esperança para o personagem. A espera, seja por alguns poucos momentos ou por anos, nos faz imaginar possibilidades sobre o que pode acontecer na sequência, resultando em ainda mais suspense. O grande desastre apresentado em um cliffhanger é quase sempre evitado, criando um senso de resolução e catarse. Mas isso não impede que a gente se preocupe e se envolva com o protagonista na próxima vez que ele estiver diante de um desastre praticamente inevitável.

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About the Author

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Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 8 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

3 Comments

  1. Vilto Reis 08/12/2017

    Bá, muito bom traduzir e disponibilizar este conteúdo, Diego.
    Eu sempre fico pensando o quanto usar do cliffhanger porque, como está no texto, é algo que funciona, sem dúvidas.
    Mais uma vez parabéns!

  2. José eraldo 21/12/2017

    Ótimas dicas Diego.

    encontrei o seu site no livro “7 coisas que aprendi” as suas dicas no livro foram uma das mais técnicas e específicas.
    Vou passar a acompanhar.
    Em relação a última dica, sem dúvida funciona.
    sempre uso em um ou outro capitulo.

    abraço!

  3. Maria Christina M Castro 20/01/2018

    Sou admiradora e freguesa. Funciona, na minha casa, uma oficina literária, onde quem vem é estimulado a escrever. Depois, a ler em voz alta para os outros. Depois, a escutar. Aceita ou não os comentários, faz ou não alterações,é, afinal, o dono de seu texto.
    Dá certo. Fiz oficina igual com o Luiz Ruffato e vi nosso avanço. Ler alto é surpreendente e revelador até para o autor do texto. Ao falar, percebe melhor suas falhas, seu descuido.
    E os textos do Diego Schutt são lidos e discutidos em aula. Têm sido um extraordinário apoio de aperfeiçoamento.
    Muito obrigada,
    Maria Christina Monteiro de Castro

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