Escreva para expressar, não para impressionar.

Um calendário para ajudar você a escrever histórias mais autênticas

By Diego Schutt on 12/12/2017 in Dicas, Escrever Ficção, Inspiração
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Abaixo, algumas reflexões sobre como o calendário pode ajudar você a escrever histórias mais autênticas.

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Pense em uma pequena gota d’água grudada no teto do seu quarto. Imagine que essa gota se juntou a outras, formando uma goteira que, agora, começou a molhar sua cama. Se mais gotas se juntassem a essa goteira, em breve o chão do seu quarto estaria alagado. O acúmulo de ainda mais gotas alagariam a sua casa inteira e depois a sua rua inteira e depois o seu bairro inteiro e a sua cidade inteira e assim por diante. Perceba como, sozinha, uma única gota d’água não tem grande impacto mas, quando consideradas em conjunto, essas gotas têm um poder transformador.

Esse fenômeno se chama emersão e ele oferece pistas de como escrever histórias mais autênticas.

Este ótimo vídeo do Kurzgesagt – In a Nutshell explica que emersão é um dos fenômenos mais fascinantes e misteriosos do universo. Emersão acontece quando uma série de unidades menores formam uma unidade maior com propriedades que são mais do que a simples soma das propriedades de cada unidade individual. Emersão é complexidade que surge de simplicidade, é algo incomum criado pelas interações entre várias unidades individuais comuns que vão se acumulando e, a cada adição de uma nova unidade, aumentam seu grau de complexidade. Emersão é o fenômeno que transforma milhares de gotas d’água em um alagamento.

Emersão acontece quando todas as unidades individuais de um todo seguem o mesmo conjunto de regras. Por estarem próximas, tais unidades começam a interagir, criando um efeito que, individualmente, nenhuma delas poderia alcançar.

Pense no conceito de consciência. O que é a sua consciência? É a conexão única entre todos os seus pensamentos, emoções, instintos, experiências, desejos, medos, traumas, etc.

Sua consciência é resultado de emersão na medida em que ela só existe quando essas diferentes unidades individuais são consideradas em conjunto.

Ainda que cada unidade individual esteja sempre se transformando (seus pensamentos, emoções e desejos mudam constantemente), o resultado das interações entre essas unidades permanece o mesmo: a sensação de que você é você. Ou seja, o “eu” a quem você se refere quando fala de si emerge da interação entre essa série de sensações internas que seguem um conjunto de regras definidas pela pessoa que você quer ser.

O que isso tudo tem a ver com escrita de ficção? Histórias também são resultado de emersão. Elas só existem porque uma série de palavras interagem entre si com base no mesmo conjunto de regras ditadas pela experiência de leitura que o escritor deseja criar.

Sozinha, uma única frase não tem grande impacto. Um conjunto de frases, entretanto, têm o poder transformador de fazer uma história emergir na mente do leitor. 

Quando comecei a escrever ficção, eu acreditava que cada frase precisava ser surpreendente e, de alguma forma, demonstrar a originalidade da minha forma de pensar e me expressar. Na ansiedade de escrever textos envolventes, eu tentava – sem sucesso – criar alagamentos com algumas poucas gotas d’água. Aos poucos, fui percebendo que não é a beleza, profundidade ou criatividade de cada frase individual que envolve o leitor, mas o impacto cumulativo da emergência das imagens, pensamentos e emoções que elas evocam em conjunto quando apresentadas em uma determinada sequência.

Também observo essa pressa em querer impressionar o leitor nos textos de muitos dos escritores com quem trabalho. Alguns tentam fazer isso revelando informações incompreensíveis no início da história por acreditarem que isso despertará curiosidade para seguir lendo o texto. Entretanto, quando essa técnica é usada cedo demais na narrativa – antes que o leitor tenha a chance de se interessar pelo universo de ficção – ela tem o potencial de confundir e prejudicar a experiência de leitura.

Outros escritores fazem o contrário. Ao invés de esconder, compartilham informações demais no início do texto, acreditando que isso resultará em envolvimento. Fazem afirmações dramáticas, compartilham reflexões filosóficas, escrevem diálogos sentimentais, revelam experiências traumáticas dos personagens. Neste caso, o problema não é confusão, mas presunção. Desesperados para provar que seus textos merecem atenção, esses escritores revelam informações que exigem envolvimento imediato do leitor. A intensidade e grandiosidade dos primeiros parágrafos das histórias de tais escritores deixam transparecer sua insegurança e inexperiência.

O escritor mais preocupado em impressionar o leitor usa como parâmetro de sucesso o efeito individual de certas passagens do texto – normalmente aquelas que o fazem se sentir orgulhoso de sua inteligência e sensibilidade.

Acredito que um melhor parâmetro de sucesso para avaliar sua história é se perguntar o quão autêntica a narrativa soa.

Ser autêntico não é escrever preocupado com o que vão pensar sobre seu texto mas, ao invés disso, se perguntar que parte de você sua história está oferecendo para o leitor. Ser autêntico é oferecer algo real sobre si, tendo como objetivo sincero estabelecer uma conexão com outra pessoa.

Na prática, você pode criar enredos mais autênticos usando como referência experiências concretas e emocionais que você viveu, e você pode criar personagens mais autênticos aprendendo a amplificar certos aspectos da sua própria personalidade e identidade. O mais fundamental é a compreensão de que tudo o que você precisa para começar a criar histórias já está dentro de você.

Técnicas de escrita existem simplesmente para ajudar escritores a acessar esses lugares remotos dentro de si mesmos, na busca pela sequência de palavras que melhor representa o que eles desejam expressar com seus textos. Nenhuma técnica, entretanto, substitui um senso de curiosidade e abertura para a vida. Um escritor sincero não é aquele que experimenta o mundo consciente da sua intenção de escrever sobre ele, mas sim aquele que está completamente presente quando experimenta o mundo e, por isso, consegue escrever com mais profundidade, autoridade e intenção.

Toda vez que lançamos uma história no mundo, estamos pedindo para nossos potenciais leitores acesso a um lugar dentro deles normalmente ocupado por pensamentos e emoções importantes. Para sermos convidados a entrar nesse lugar tão reservado, precisamos mostrar para o leitor que somos de confiança. Em qualquer texto, confiança não é algo que se impõe ou que se pede, mas algo que se conquista, linha a linha, parágrafo por parágrafo, página após página. 

Uma história soa autêntica quando é criada a partir do reconhecimento do espaço privado e sagrado que ela invade na mente de quem a lê. 

A narrativa que emerge como resultado de uma estrutura pensada para ganhar a confiança do leitor progressivamente é mais do que a simples soma de suas frases. No acúmulo de afirmações francas e despretensiosas sobre o tema da história, o universo de ficção e os personagens, esses textos estabelecem uma conexão real com o leitor. Para alcançar esse resultado, precisamos de tempo, paciência e persistência diária para recalibrarmos a forma superficial e preguiçosa como, com frequência, avaliamos nossa escrita.

Precisamos refletir, revisar e produzir diversas versões do mesmo texto, até que a gente consiga encontrar as frases que registram com mais precisão os pequenos movimentos da nossa consciência que, em suas sutilezas e especificidades, revelam o que temos de mais autêntico: a admissão do nosso medo, fragilidade e ignorância diante do caos da vida, e nossa disposição para compartilhar com outras pessoas um pouco da solidão, agonia e confusão que sentimos quando olhamos para fora e para dentro de nós mesmos.

Feliz ano novo e obrigado por seguir acompanhando o Ficção em Tópicos.

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About the Author

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Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 8 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

6 Comments

  1. Gabriel Souza 13/12/2017

    Cara, que beleza de texto.
    Deu até uma animada aqui.
    Valeu, Diego!

  2. Denise 18/12/2017

    Você não sabe o quanto esse site me ajudou.
    Quero começar 2018 já escrevendo!
    Feliz fim de ano.

  3. Alexandra 03/01/2018

    Desde 2015 que imprimo esse calendário. Tem-me ajudado bastante. Muito obrigada! 🙂

  4. Lucia Santos Farias 31/05/2018

    Gostei demais ? meu problema em escrever um livro está em passar a história de ,1950 para o século 21 contextualização histórica
    Um drama familiar passado na década de 50

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