Aprenda a criar realidades com palavras

Você está desperdiçando seu talento de escritor por pura preguiça?

Por Steven Pressfield em 30/09/2017 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa
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A imagem acima usa um ícone originalmente criado por Laura Reen.

Há algumas noites atrás, eu estava jantando com uma jovem roteirista e um agente literário bem sucedido de Hollywood. A escritora estava fazendo piadas sobre como a carreira dela estagnou na lista de filmes de terceira categoria. “Se você fosse minha cliente por um ano,” o agente disse, “eu colocaria você na lista de primeira categoria”.

O agente não estava brincando e uma discussão séria sucedeu a partir dali. Grande parte da conversa foi a respeito da politicagem envolvida no desenvolvimento de uma carreira. Quando cheguei em casa, entretanto, essa conversa me fez pensar a respeito do ofício do escritor.

De que forma um mentor qualificado e inteligente pode elevar a carreira de um escritor talentoso? Como ele poderia ajudar tal escritor a subir um ou dois níveis na escala de qualidade? Em que aspectos do ofício de escrever esse mentor focaria sua atenção? Que mudanças ele insistiria serem necessárias?

O primeiro passo, acredito, seria submeter o escritor a uma prova de fogo. O mentor faria esse escritor responsável por honrar seu próprio talento.

1. Concepção do projeto

O jovem escritor apresenta uma ideia para um filme ou livro. Essa ideia é boa o suficiente? Grande o suficiente? Ela é realmente original? Ela vai atrair profissionais de primeira categoria? Diretores? Atores?

O agente/mentor insistiria que o escritor considerasse alternativas e variações sobre a ideia. Essa primeira versão é a melhor forma de executar tal ideia? “Okay, essa história é sobre a invasão de aranhas marcianas gigantes, mas e se ao invés de aranhas fossem crustáceos? E se eles viessem de Vênus, ao invés de Marte?

2. Execução da História

Quando eu trabalhava como roteirista, meus agentes (e eles era todos bons profissionais), depois de algumas poucas alterações, basicamente aceitavam a versão do texto que eu enviava para eles. Esse era o produto final que eles usavam para tentar vender minha ideia. Refletindo sobre essas experiências, acredito que eles deveriam ter me desafiado mais.

Tenho um outro amigo, um agente literário que tem sua própria agência – uma das boas, por sinal. Ela faz exatamente isso com seus clientes. Ela pede que eles repensem suas ideias inúmeras vezes. Nosso mentor imaginário deveria ser tão exigente quanto ela com seu jovem escritor talentoso. “Você disse que a história é uma aventura de ação, narrada do ponto de vista de uma cientista. Será que essa é a melhor forma de desenvolver essa ideia? Que outras alternativas você considerou? Por que você rejeitou tais opções?

3. Maximizar o drama do personagem

“Nós exploramos o dilema do detetive com profundidade suficiente? Ele está apaixonado pela cientista, mas ele está em conflito porque tem uma tarântula de estimação em casa e ele começou a desenvolver empatia por aranhas. Como podemos aprofundar esse dilema e explorá-lo de uma forma mais dramática no clímax da história? […]

Essas são as mesmas perguntas que você e eu precisamos nos fazer quando o primeiro rascunho do nosso livro ou do nosso roteiro perde o rumo. Precisamos ser nossos próprios mentores, nossos próprios agentes, nossos próprios editores. Precisamos criar provas de fogo para nós mesmos.

Preciamos questionar “Será que nos contentamos com uma versão fácil e básica da nossa história, do nosso texto, dos nossos personagens? Será que simplesmente pegamos a primeira ideia que nos surgiu e desenvolvemos ela sem considerar outras opções?”.

Nosso mentor/agente/editor nos forçaria a ser mais responsáveis. Ele exigiria que a gente se desafiasse a escrever outras versões mais complexas, mais ousadas. Isso me faz pensar sobre Resistência. Se eu estivesse escrevendo “A guerra da arte” novamente, eu adicionaria um capítulo sobre microresistência.

Macroresistência é global, é a autosabotagem que simplesmente nos impede de fazer nosso trabalho. Mas muitos de nós já vencemos esse monstro. Nós conseguimos sentar a bunda na cadeira para escrever. Nós conseguimos produzir vária páginas. Microresistência é, justamente, sabotar essas páginas.

Microresistência aparece dentro de um livro ou roteiro. Nós estamos trabalhando, mas ficamos no superficial, não vamos fundo o suficiente, nos acomodamos. Não estamos explorando as ações dos personagens, não estamos considerando outras alternativas, não estamos extraindo todo o potencial de cenas e sequências e relações dramáticas.

Microresistência é o que vem dificultado a escrita de uma nova versão de um livro em que estou trabalhando. Por que eu não me esforcei para explorar minha ideia mais a fundo? Porque isso dá trabalho, é dolorido, é arriscado. Evitei o esforço por medo de falhar. Aceitei ideias que um escritor mais determinado rejeitaria.

Resistência, não podemos nunca esquecer, é constante e implacável. Ela luta contra nós em cada frase. Ela sempre quer que a gente se contente com o que é fácil, superficial, amador.

Você tem um agente, mentor ou editor que vai forçar você a honrar seu talento? Se você tem, você é incrivelmente sortudo. Mas nós também precisamos cultivar esse mentor dentro da nossa própria cabeça. Nós somos os escritores. A responsabilidade pela qualidade do nosso trabalho é nossa. Nós mesmos precisamos aprender a ser esse agente, mentor e editor.

Steven Pressfield autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

Sobre o Autor

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Steven Pressfield é autor de bestsellers de ficção e não-ficção, entre eles “The War of Art” e “The Legend of Bagger Vance”. Em seu livro mais recente, “The Authentic Swing”, ele compartilha em detalhes como conseguiu publicar sua primeira obra.

2 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Gabriel Oliveira 30/09/2017

    Mil verdades Hahahahaha.
    Me deu até vergonha agora. Sou bem desse tipo que se joga na primeira ideia que vier, preguiçoso para busca de ideias melhores. Mas como Pressfield mostrou nesse artigo devemos desenvolver nossa autocrítica. Acho que isso também tem haver com paciência, é muito compensador amenizar a ansiedade quando esta com o papel e a caneta na mão como voce ja ressaltou em outros artigos se me lembro bem…
    Muito bom artigo. Obg.

  2. Anthony Lessa 05/10/2017

    Gratidão por isso!

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