Aprenda a criar realidades com palavras

Como restrições criativas podem turbinar sua criatividade

Por Diego Schutt em 29/09/2017 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, técnicas
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Se eu pedisse para você descrever sua relação com um ex-namorado ou namorada em poucas palavras, você provavelmente teria certa dificuldade para fazer isso. Se eu pedisse para você descrever sua relação com um ex-namorado ou namorada usando o título de um filme, sua mente provavelmente explodiria com ideias. “A era do gelo”, “Missão impossível”, “Clube da luta”, “Psicose”.

Agora imagine que você se inscreveu em uma oficina de criação literária e o instrutor fez a seguinte proposta de exercício: escreva uma história sobre qualquer tema, situada em qualquer cenário, com qualquer número de personagens e qualquer tipo de narrador. Não há limite de número de palavras e você não tem um prazo definido para terminar.

À primeira vista, essa total liberdade de criação parece estimulante porque o único limite é sua imaginação. Mas se você é como muitos outros escritores que estão começando, provavelmente a falta de orientações específicas de por onde começar vai deixar você ansioso. Isso acontece porque, sem um ponto de partida, fica difícil saber para onde direcionar sua criatividade. Essa suposta liberdade de criação coloca você diante de uma infinidade de possibilidades. Mas se você pode tudo, qual o melhor critério para escolher uma única ideia de história para desenvolver?

A verdade é que você não pode tudo e, mesmo diante de uma proposta de exercício tão aberta, suas escolhas são limitadas por, pelo menos, cinco fatores:

  1. Imaginação: sua capacidade de geração de ideias.
  2. Criatividade: sua capacidade de transformar ideias em histórias.
  3. Habilidades Narrativas: sua capacidade de organizar informações para criar uma experiência de leitura interessante.
  4. Habilidades Dramáticas: sua capacidade de expressar suas ideias através das ações e reações dos personagens.
  5. Sensibilidade Artística: sua capacidade de encantar e envolver o leitor na narrativa.

Provavelmente você já experimentou com a geração de ideias e tentou transformar algumas delas em histórias. O problema é que muitos aspirantes a escritor ficam estagnados neste ponto. Eles usam sua imaginação e criatividade para construir universos de ficção, registram suas primeiras ideias sobre a história em um primeiro rascunho e consideram o texto concluído.

Como resultado, ainda que recheadas de ideias originais, muitas dessas narrativas simplesmente compartilham um apanhado de informações, mais preocupadas em registrar os impulsos criativos do escritor do que em criar uma experiência de leitura envolvente.

Acredito que você não deve impor limites a sua imaginação e criatividade.

No início do processo de criação, se deixe levar pelo seu instinto e se preocupe apenas em registrar seu fluxo de pensamentos sobre a ideia que o inspirou a escrever. Mas depois de produzir material o suficiente para se sentir dentro desse novo universo de ficção, é importante que, aos poucos, você procure criar certas limitações que o ajudem a direcionar sua criatividade para, assim, começar a clarificar o tipo de história que você deseja escrever.

Cuidado para não cair na armadilha de criar restrições objetivas para a história, relacionadas aos personagens, o cenário, o conflito ou o enredo. Isso limita o potencial de desenvolvimento da sua ideia. Ao invés disso, experimente definir restrições criativas, relacionadas ao que você deseja expressar com seu texto.

Ao invés de definir “quero escrever a história de uma adolescente que sofre bullying na escola”, experimente “quero escrever sobre a sensação de isolamento e impotência em um ambiente onde a ameaça de violência é constante”. Ao invés de definir “quero escrever a história de um homem que viaja para o passado para tentar consertar um erro que cometeu”, experimente “quero escrever sobre a ilusão de que nossa vida seria melhor se pudéssemos consertar nossos erros”.

Ao focar sua atenção no que você deseja expressar com seu texto, você se mantém aberto e flexível para seguir testando que personagens, cenários, conflitos, enredo e estruturas narrativas podem ajudar você criar a experiência de leitura que deseja.

Para você falar sobre isolamento e impotência, o protagonista não precisa necessariamente ser um adolescente. Para você falar sobre a ilusão de como seria ter uma vida perfeita, o protagonista não precisa necessariamente viajar no tempo.

A criação de uma história passa por essa constante renegociação entre suas escolhas relacionadas ao conteúdo (personagens, conflitos, cenários, enredo, tema) e à forma (estrutura, narrador, tom, ritmo, tempo e espaço narrativo). Entretanto, muitos escritores – seja por preguiça ou falta de habilidade técnica – não questionam as decisões que tomaram em seus primeiros rascunhos. O principal objetivo de tais escritores é simplesmente compartilhar suas ideias e, por isso, eles não param para pensar sobre o que estão tentando expressar para os leitores das suas histórias. Sem essa consciência em relação à intenção, as decisões sobre que eventos incluir na narrativa e qual a melhor forma de apresentá-los se tornam completamente aleatórias e, por isso, é comum que resultem em bloqueios criativos.

Para entender sua intenção para escrever um determinado texto, você precisa se perguntar “O que eu penso sobre o tema dessa história?”. Resista à tentação de dar uma resposta superficial, afirmando o que é senso comum. Aprenda a separar suas opiniões que são resultado da influência da sua educação escolar, convivência familiar, convenções sociais e padrões culturais, das suas opiniões que são conclusões resultado de uma contemplação profunda sobre um assunto. Reflita sobre sua visão de mundo, sobre as premissas por trás de suas crenças e valores, sobre as experiências que levaram você a olhar e interpretar o mundo dessa forma.

Procure expressar sua visão sobre o tema da sua história da forma mais pessoal e íntima possível. Sua intenção para escrever um determinado texto é a melhor restrição criativa que existe. 

O grande benefício de restrições criativas é ajudar você a moldar seu processo de criação especificamente para a ideia que você está desenvolvendo. Quando você tem claridade sobre o que deseja expressar com suas narrativas, essas restrições deixam de ser limitadoras e passam a ser seu melhor guia para criar uma experiência de leitura envolvente.

Aprenda mais sobre o poder das restrições criativas neste ótimo vídeo do TED-Ed.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt

Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

Um escritor tem algo a dizer sobre este texto

  1. Renata 10/10/2017

    Muito interessante o post, como os outros também, devo dizer. Eu queria deixar algumas sugestões de temas, até por curiosidade própria e necessidade também.
    -Como dar a impressão de determinado período na narrativa, usando algumas estratégias.
    -Como fazer diálogos (qualquer nova informação, pois é algo bem difícil e específico).
    -Como fazer a passagem de tempo (outro tópico bem específico, mas poderiam falar um pouco da equação, digamos).
    Bem, estou escrevendo meu segundo livro e agora me sinto mais confortável para escrever, porém ainda procuro evoluir muito.

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