Aprenda a criar realidades com palavras

Explicador, elucidador e encantador: os 3 níveis de escrita

Por Diego Schutt em 08/09/2017 Tópicos: escrever, escrita criativa, inspiração, não ficção
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Neste ótimo artigo do Brainpickings, Maria Popova conta da conversa que teve com um amigo sobre a dificuldade de expressar as gradações de qualidade da escrita. Ela diz que podemos sentir facilmente a diferença entre um texto ruim, bom e ótimo durante a leitura, mas articular tal diferença em palavras é uma tarefa complicada.

Popova, que é uma leitora ávida, compartilha um modelo intuitivo – criado por ela – para expressar as gradações de qualidade que ela enxerga em diferentes textos. Tal modelo classifica escritores de acordo com o valor que eles oferecem aos seus leitores.

EXPLICADORES

No primeiro grupo estão quem ela chama de “explicadores”. A habilidade de tais escritores é compartilhar informações de uma forma clara e compreensível. Bons livros teóricos, por exemplo, são resultado do trabalho de explicadores.

Quando pensamos em textos de ficção, no entanto, narrativas que simplesmente explicam a história para o leitor, ainda que permitam a compreensão clara do que está acontecendo no enredo, resultam em uma experiência de leitura desengajada e pouco envolvente. Tais escritores oferecem uma grande quantidade de informações, mas não criam um contexto para guiar a interpretação de tais informações de uma forma sistemática. São escritores que só sabem contar, mas não sabem mostrar.

Isso é geralmente um sintoma de inexperiência (a maioria das pessoas que decide levar sua escrita mais a sério começa como explicadora) ou desleixo (pessoas que escrevem apenas uma versão para cada texto e têm preguiça de editar, revisar e reescrever).

ELUCIDADORES

No segundo grupo estão os “elucidadores”. Estes escritores não se contentam em simplesmente explicar. Eles transformam informações em saber, revelando a interconexão entre diferentes ideias e entre diferentes áreas do conhecimento. Desta forma, eles conseguem oferecer uma perspectiva mais complexa que permite a compreensão de um tema em vários níveis.

Elucidadores que escrevem ficção são escritores que têm duas grandes habilidades: a primeira, de revelar informações ao longo da narrativa em um ritmo que provoque curiosidade para continuarmos lendo; a segunda, de apresentar tais informações de uma forma dramática, vívida e verossímil, criando uma experiência de leitura estimulante e interessante.

Estes escritores se esforçam para oferecer ao leitor um olhar profundo, sensível e revelador sobre os temas que abordam em seus textos, na mesma medida em que se dedicam para estruturar suas ideias de forma a expressá-las com foco e impacto.

ENCANTADORES

No terceiro grupo estão os “encantadores”. Tais escritores têm as mesmas habilidades dos “explicadores” e “elucidadores”, mas além de compartilhar informações e conhecimento, eles oferecem sabedoria. Encantadores conseguem usar experiências extremamente individuais, específicas e particulares para expressar algo universal.

Eles escrevem com um olho no microscópio e o outro no telescópio e, assim, podem oferecer uma perspectiva sobre a realidade visível e invisível que é mais rica do que a soma total das informações e conhecimentos compartilhados. Através da leitura de seus textos, esses escritores nos ajudam a integrar ideias e conceitos até então fragmentados, expandir nossa consciência e, assim, ganhar uma dimensão do nosso lugar no universo.

Em textos de ficção, além de despertar nossa curiosidade intelectual, encantadores nos envolvem emocionalmente e espiritualmente em suas histórias. Eles parecem entender perfeitamente um problema pelo qual estamos passando ou conseguem explicar com precisão certas emoções que temos dificuldade em articular com palavras. Através da investigação cuidadosa de estados mentais e emocionais, eles conseguem expressar as partes misteriosas, abstratas e ignoradas da nossa consciência. O que nos encanta nos textos desse perfil de escritor é o reconhecimento do desejo sincero de iluminar dentro de nós algo que ele iluminou dentro de si mesmo.

 

Se você quer se tornar um escritor profissional, talvez seja um exercício interessante reler seus textos e identificar quais focam mais em explicar, em elucidar e em encantar.

Dentre os textos e livros que leu recentemente, você consegue identificar esses três níveis de escrita? Deixe um comentário recomendando seus encantadores favoritos.

 

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Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

7 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Evelyn Postali 08/09/2017

    Gostei demais!

  2. Caio Roldan 09/09/2017

    Gosto do gênero noir, e um dos autores que encanta é o Dennis Lehane. Nos livros Sobre meninos e lobos e Gone, baby, gone, é incrível a profundidade tanto das histórias, quanto dos personagens, e também expressam uma universalidade que vemos no dia a dia, como o descaso de uma mãe para com a própria filha.

  3. Morena 09/09/2017

    Melhor site que já vi <3 <3 <3

  4. Rafael 10/09/2017

    Gostei da classificação, vou tentar identificar esses elementos daqui pra frente; =D

  5. Amanda 11/09/2017

    Considero Elena Ferrante um bom exemplo da categoria Encantador. A forma como relata a história da amizade entre duas mulheres é hipnotizante!

  6. Rose Hahn 13/09/2017

    Muito bom. Realmente, comecei a escrever como Explicadinha; a minha meta é Encantar. Abçs.

  7. Morena 15/09/2017

    Parece que a parte “encantador” está descrevendo o próprio Matthew Quick, autor de “O Lado Bom da Vida”!!!! Eu tinha a sensação de que a minha alma estava descrita naquele livro e, por mais solitário que isso possa parecer, considero os personagens dos livros dele como os meus amigos mais íntimos. Estava passando por um sofrimento devastador e, graças ao bom Deus, tive essa consolação.

Gostou do texto? O autor vai adorar saber. Deixe um comentário e compartilhe o artigo com outros escritores.

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