Aprenda a criar realidades com palavras

Sem contexto, sua história é apenas um apanhado de informações.

Por Diego Schutt em 23/08/2017 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, storytelling, técnicas
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Uma característica comum nos parágrafos iniciais dos textos de escritores iniciantes é a inclusão excessiva de informações sobre os personagens e o universo de ficção. Isso revela certa ansiedade em compartilhar alguns dos detalhes que eles consideram mais relevantes e excitantes sobre suas ideias, antes que o leitor desista de ler seu texto. Em suas mentes, oferecer uma grande quantidade de informações sobre a história é como uma promessa do quão imaginativa, complexa e intrigante a narrativa será.

Outros escritores iniciantes que incluem informações demais em seus textos são motivados pelo seu entusiasmo com a riqueza de detalhes que imaginaram sobre seus personagens e seu universo de ficção. Eles não conseguem diferenciar que informações são apenas parte do processo de criação e quais precisam ser compartilhadas para criar uma experiência de leitura envolvente. Na mente desses escritores, quanto mais detalhes forem incluídos na história, mais rica e original ela será.

Entretanto, compactar uma grande quantidade de informações em alguns poucos parágrafos ou páginas logo no início do texto comumente resulta em uma narrativa que começa de uma forma abstrata, genérica e sem foco.

Observe o parágrafo abaixo.

“Lauro Gordon era um tradutor de línguas alienígenas de sucesso. Ele era um homem alto, magro, com cabelos azul claro, olhos lilás, e estava sempre muito bem vestido em ternos prateados, a última moda na via láctea. Lauro escolheu sua profissão por influência da família. Sua mãe e seu avô paterno também eram tradutores de línguas alienígenas. Ambos trabalhavam na galáxia Omedas. A mãe de Lauro era tradutora para o governo do planeta Androtaurus e o avô de Lauro, além de tradutor, lecionava técnicas para interpretação de línguas alienígenas na universidade mais prestigiosa do planeta Tinus. Mas Lauro não tinha uma boa relação com sua família. Ele sempre foi um rapaz tímido e fechado.”

Perceba como o texto acima simplesmente despeja uma grande quantidade de informações diante do leitor, sem oferecer nenhum referencial que o ajude a processar o que está sendo lido de uma forma sistemática. Isso é um problema porque nosso cérebro processa informações sempre avaliando a relevância do que está sendo comunicado com base em um contexto. Contexto é o conjunto de circunstâncias que permitem a compreensão do significado e da importância de um evento, ideia ou informação. Em uma história, podemos pensar em dois tipos de contexto.

De uma forma mais específica, cada frase cria um contexto para a interpretação da frase seguinte.

Por exemplo, ao ler a frase “Lauro Gordon era um tradutor de línguas alienígenas de sucesso.”, o leitor assume que ela criará um contexto para a interpretação da próxima frase – “Ele era um homem alto, magro, com cabelos azul claro, olhos lilás, e estava sempre muito bem vestido em ternos prateados, a última moda na via láctea.” Entretanto, como as informações compartilhadas nessas duas frases não se complementam e parecem desconectadas, o texto perde foco e coesão. Isso acontece porque a frase inicial não estabelece um contexto para a interpretação da frase seguinte.

Mesmo quando, na sequência, o escritor inclui outras frases relacionadas à profissão de Lauro, elas apenas adicionam informações à história. Como tais frases não clarificam ou enriquecem o que foi dito antes, as informações compartilhadas parecem aleatórias e desimportantes. O efeito na narrativa é apenas cumulativo, não qualitativo.

De uma forma mais geral, cada informação sobre os personagens e o universo da história cria um contexto para a interpretação do que acontecerá dali para frente.

Se no início do texto o escritor caracteriza Lauro como um rapaz tímido e fechado, o leitor vai, a partir de então, imaginá-lo com base nessas características. Portanto, quando Lauro interagir com outros personagens em cenas futuras, o leitor vai imaginar seus comportamentos e o tom de suas falas como os de uma pessoa tímida e fechada.

Caso certas circunstâncias do enredo forcem o personagem a fazer um discurso para um grande número de pessoas, o leitor poderá imaginar o quão estressante essa situação é para Lauro, devido ao contexto criado pela caracterização do personagem no início da história. Perceba que se Lauro fosse caracterizado como um homem confiante e extrovertido, o significado de tal discurso mudaria completamente, pois tal caracterização criaria um contexto diferente para a interpretação desse evento na vida do personagem.

Essa mudança de interpretação acontece porque, quando uma sequência de informações nos é apresentada, instintivamente tentamos estabelecer relações causais coerentes entre elas. Fundamentalmente, estamos tentando identificar como o sentido individual de cada informação se relaciona com o sentido coletivo do texto, que vai sendo criado durante a leitura de acordo com o significado que atribuímos à proximidade entre as ideias apresentadas antes e depois de um certo trecho. É esse processo que nos permite recriar em nossas mentes com mais precisão o universo ficcional imaginado pelo escritor.

O contexto de uma narrativa é o equivalente à composição e o enquadramento em uma fotografia. Esse recorte da realidade que o fotógrafo é obrigado a fazer quando decide para onde apontar sua câmera é equivalente ao recorte na vida do protagonista que o escritor precisa fazer para definir os limites da sua história.

O contexto direciona a atenção do leitor para os detalhes mais relevantes sobre um universo de ficção, permitindo que ele estabeleça uma conexão entre as informações apresentadas ao longo do texto e, assim, atribua significado à sequência de ideias e eventos que constituem a narrativa.

O parágrafo usado como exemplo acima sugere para o leitor que todas as informações incluídas nessas primeiras linhas são relevantes naquele exato momento da história, e cruciais para que ele possa entender o que será compartilhado na sequência. Entretanto, logo se percebe que o escritor de tal texto priorizou enumerar o que ele considera mais interessante sobre sua ideia de história, ao invés de criar uma experiência de leitura que organizasse tais ideias de forma a, progressivamente, ajudar o leitor a se situar nesse universo de ficção desconhecido.

Entenda que não estou questionando a importância das informações incluídas nesse parágrafo introdutório para a compreensão da história como um todo, mas sim propondo que o trabalho do escritor é encontrar uma forma mais refinada, sutil e habilidosa de compartilhá-las ao longo do texto. Isso requer uma reflexão mais cuidadosa sobre quais informações são importantes compartilhar em cada momento da narrativa e sobre qual a melhor maneira de se fazer isso.

Para ganhar confiança ao tomar tais decisões, você precisa desenvolver uma sensibilidade de escritor. Você faz isso relendo e pensando a respeito das suas histórias favoritas, procurando identificar como o escritor organizou e distribuiu as informações compartilhadas ao longo do texto. Outra forma de desenvolver sua sensibilidade de escritor é criando versões diferentes de um parágrafo, experimentando incluir mais detalhes em trechos sintéticos demais e eliminando detalhes que não enriquecem a narrativa em passagens longas demais.

No texto usado como exemplo, a principal intenção do escritor parece ser, simplesmente, impressionar o leitor com a suposta originalidade de suas ideias. Esse é um objetivo genérico e abstrato, que demonstra desconhecimento ou despreocupação com a importância da revelação calculada de informações sobre a história ao longo do texto.

Pense em toda a informação incluída na sua história como algo que você considera importante o leitor saber naquele exato momento da narrativa.

Se você decidir descrever um personagem da cabeça aos pés já nas primeiras linhas do texto, por exemplo, você está indicando para o leitor que tais informações são, de alguma forma, relevantes para a experiência de leitura. Talvez elas sejam, talvez não. Cada leitor vai julgar tal relevância partindo do pressuposto que as escolhas do escritor foram intencionais e têm como principal objetivo ajudá-lo a experienciar a história da forma como ele planejou.

Uma narrativa que não oferece um contexto para ajudar o leitor a compreendê-la exige que ele navegue o mar de informações da história sem saber para onde direcionar sua atenção e sem dar pistas de como ele deve interpretar o que está acontecendo. Quando tudo o que foi incluído em um texto parece ter o mesmo peso e importância, a narrativa perde força e impacto.

O começo de qualquer texto estabelece as regras do jogo da leitura. As primeiras linhas, os primeiros parágrafos e os primeiros capítulos da sua narrativa, tenha você pensado a respeito disso tudo ou não, são as referências que o leitor usa para interpretar sua história.

A falta de um contexto relativamente sólido – o que incluí um senso de organização das informações e consistência estrutural e estilística – é um forte indicador de um escritor amador. O impacto de tal constatação muda a percepção do leitor sobre o texto e aumenta as chances dele abandonar a leitura.

A forma como você escolhe contar sua história é tão importante quanto o conteúdo da narrativa. O trabalho do escritor não é apenas criar ideias originais, mas também criar estratégias para apresentá-las de uma forma envolvente. Contexto é o princípio organizador da estrutura da história. Ele permite a criação de uma lógica interna para o texto, transformando a narrativa em algo maior do que o simples acúmulo de informações sobre um universo de ficção.

Pensar sobre sua intenção para escrever uma história é o melhor referencial para ajudar você a decidir que circunstâncias são importantes compartilhar com o leitor a cada momento para que ele compreenda o significado e a importância dos eventos, ideias e informações que você vai incluir na narrativa.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt

Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

4 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Lucas Alencar 26/08/2017

    Eu estou terminando de escrever meu terceiro livro. Na verdade, eu pretendia escrever apenas um, com uma ideia que eu tinha na infância – eu sempre gostei de inventar histórias e histórias na minha cabeça e uma delas me estimulou a escrever –, mas acabou que a história era grande demais para um único volume.
    Eu sempre achei que as informações relevantes para a construção do enredo, do universo e das características do personagem deveriam ser mostradas de maneira gradual, conforme a necessidade de saber delas se apresentasse. Eu também nunca me interessei em transcrever a história de maneira onipresente como foi no primeiro exemplo. Se o personagem em questão tem medo de dirigir por exemplo, isso não precisa ser esmiuçado logo na apresentação dele para o leitor e sim contextualizado quando ele se deparar com esse medo ou alguma ligação com o tema for apresentada.
    Sim, o leitor tem que entender como funciona o tal universo e como são essas personagens que o constituem, mas eu gosto de passar a ideia de que havia uma trajetória antes da primeira página do livro e isso é quebrado quando já iniciamos como um sem fim de informações. Torna tudo muito didático. Bem, mas essa é a maneira como prefiro trabalhar.

  2. Helena Macedo 27/08/2017

    Parabéns. Esse texto vai me ajudar muito na arte de escrever. Ao ler seu texto, entro no mundo da imaginação, espero aprender através de você, produzir belos texto e dar vida aos meus personagens sem entediar meus leitores no primeiro parágrafo.

  3. Leandro Leal 28/08/2017

    Acho fantástico como a essência das dicas são simples, porém tem um impacto ENORME quando a gente se distancia delas. Eu tenho muita dificuldade em evitar a “purple prose”, e sempre procuro diluir minhas descrições para que não tornem maçantes… Obrigado pela dica!

  4. Rafael 08/09/2017

    Adoro a simplicidade das suas explicações, são fáceis de absorver e consequentemente de praticar.
    Continue assim =)

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