Aprenda a criar realidades com palavras

A diferença entre a voz do narrador e a voz do escritor

Por Diego Schutt em 03/07/2017 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, storytelling, técnicas
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A imagem acima é resultado da junção de ícones originalmente criados por Aleksandr Vector e Andreas. Licença para uso disponível aqui.


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O narrador na terceira pessoa é uma entidade abstrata que guia o leitor ao longo da história. A voz que “escutamos” ao ler um texto com esse tipo de narrador não é necessariamente a voz do escritor. É apenas uma identidade que o autor assume para influenciar o leitor a interpretar tudo o que acontece na história a partir de um determinado ponto de vista.

O narrador na terceira pessoa pode ter suas próprias opiniões a respeito do universo de ficção, das ações, pensamentos e emoções dos personagens. Como afirma Robert Mckee no livro “Dialogue”, ele pode ser mais ou menos compassivo que o escritor, mais ou menos político, mais ou menos observador, mais ou menos moral. Qualquer que seja o caso, cabe ao escritor decidir o quanto permitirá que esse narrador expresse suas percepções ao longo do texto.

O tom de um narrador na terceira pessoa pode variar entre neutro (ele conta a história sem fazer comentários sobre o que está narrando) e crítico (quando além de narrar, ele também comenta o que pensa sobre diferentes aspectos da história). Veja como Clarice Lispector, no começo do conto “Feliz Aniversário” – parte da coletânea “Laços de Família” – usa um narrador intruso na terceira pessoa:

Versão Original

“A família foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria estavam muito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio à Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de paetês e um drapeado disfarçando a barriga sem cinta. O marido não veio por razões óbvias: não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados — e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que não precisava de nenhum deles, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, infantilizadas em babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata.”

No texto acima, destaquei os momentos em que o narrador intruso pontua suas descrições com comentários que compartilham sua opinião a respeito dos personagens. A intrusão desse narrador, entretanto, enriquece o texto e faz um ótimo trabalho moldando nossa primeira impressão a respeito dessa família, demonstrando sua extrema preocupação com as aparências.

Um narrador na terceira pessoa neutro poderia compartilhar as mesmas informações da seguinte forma:

Segunda Versão

“A família foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria usavam roupas formais porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio à Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de paetês e um drapeado disfarçando a barriga sem cinta. O marido não veio porque não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados — e esta vinha com um de seus muitos vestido caro, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, usando vestidos com babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino pouco a vontade em seu terno e gravata novos.”

Perceba como, nessa segunda versão, o narrador descreve o que está acontecendo sem fazer juízo de valor a respeito dos personagens e da situação. Ao excluir os comentários do narrador, a ênfase em certos detalhes desaparece e a caracterização da família como extremamente preocupada com as aparências perde força.

Considere essa terceira forma de narrar o mesmo parágrafo:

Terceira Versão

“A família foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria estavam extremamente bem arrumados porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio à maravilhosa Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite lindo de paetês e um drapeado disfarçando a barriga gorda e flácida sem cinta. A razão do marido para não vir representava bem seu egoísmo: não queria ver os irmãos. Mas, muito preocupado com as aparências, mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados — e esta vinha com o que acreditava ser o melhor vestido dentre os muitos que tinha, reforçando o quanto era superficial e desesperada por atenção. Ela vinha acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, parecendo duas idiotas em babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino usando terno e gravata, numa tentativa desesperada de compensar sua imaturidade.”

Assim como na versão original do texto, aqui também temos um narrador intruso. Entretanto, perceba nos trechos que marquei acima como os comentários desse narrador extrapolam os limites do universo de ficção e passam a sensação de que ele tem algo contra esses personagens. O tom agressivo dessas críticas, ao invés de enriquecer a história, chama atenção para si mesmo. Por isso, deixamos de escutar a voz do narrador e passamos a escutar a voz do escritor.

Finalmente, observe essa outra forma de intrusão do narrador:

Quarta Versão

A vida em família traz momentos em que parecemos estar entre completos estranhos, com quem tudo o que temos em comum é o sobrenome. Observando os parentes pouco a pouco chegando à festa de aniversário, era assim que a nora de Olaria se sentia. Ela apareceu de azul-marinho, com enfeite de paetês e um drapeado disfarçando a barriga sem cinta. O marido não veio porque não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados — e esta vinha com um de seus muitos vestido caro, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, usando vestidos com babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino pouco a vontade em seu terno e gravata novos.

Nesse texto, a intrusão do narrador acontece em uma única frase, destacada acima. Tal intrusão é menos agressiva e evidente que na terceira versão mas, ainda assim, ela interrompe a narrativa para compartilhar um pensamento que é do escritor. Uma alternativa seria “Observando os parentes chegando à festa de aniversário, a nora de Olaria se lembrou do que o marido sempre dizia: familiares são estranhos com quem tudo o que temos em comum é o sobrenome.” Perceba como, assim, ao invés de focar no que o escritor pensa sobre a vida em família, o narrador atribui a divagação à personagem, mantendo o foco na história.

A importância de estabelecer um limite entre a voz do narrador e a voz do escritor está na criação de uma experiência de leitura que mantenha o leitor imerso no universo de ficção e focado nos personagens.

Talvez tal limite seja definido pela pertinência dos comentários e observações no contexto da história. No texto original do conto “Feliz Aniversário”, Clarice Lispector conseguiu criar um narrador intruso que, sutilmente, julga os personagens com a intenção de moldar nossa percepção sobre eles. As observações desse narrador dão mais profundidade e textura para o texto.

Na terceira versão da abertura do conto, o narrador intruso assume um tom arrogante e extremamente crítico, que parece ter a intenção de afirmar – através da brutalidade de sua linguagem – certa superioridade moral. É um narrador que impõe sua forma de interpretar os acontecimentos da história. O grande risco dessa abordagem é esse tom agressivo intimidar ou irritar o leitor.

Na quarta versão, o escritor se faz presente para declamar uma observação que, supostamente, demonstra sua percepção aguçada e atenta a respeito do mundo e das pessoas. Dependendo da forma, intensidade e frequência com que isso é feito ao longo do texto, tais passagens podem soar pretensiosas e forçadas.

Essa intromissão exagerada no texto passa a sensação de que o escritor arrancou o microfone da mão do narrador e decidiu chamar atenção para si.

É como se o mais interessante não fosse o que está acontecendo na história, mas o que o autor tem a dizer sobre o que está acontecendo na história. Isso também pode ocorrer em narrativas na primeira pessoa onde o escritor usa um personagem-narrador com mero porta-voz para expressar sua suposta superioridade moral.

Seja na primeira ou terceira pessoa, um narrador que filosofa demais, que descreve detalhes irrelevantes, que explica excessivamente o contexto da história e os comportamentos dos personagens ou, ainda pior, que determina como se deve interpretar e julgar tudo o que acontece na narrativa, rouba do leitor um dos maiores prazeres da leitura: preencher os espaços das entrelinhas com suas próprias percepções e divagações.

Tendo dito isso, na mão de um escritor que sabe o que está fazendo, um narrador extremamente crítico pode dar ao texto um tom engraçado ou irônico, o que pode funcionar muito bem, caso a intenção seja essa. O importante é que o uso de um narrador extremamente intruso seja uma escolha consciente, não uma tentativa velada do escritor de demonstrar sua inteligência e sensibilidade ou expressar suas opiniões e moralismos usando uma história como escudo.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt

Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

12 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Brunna 03/07/2017

    Excelente post! ^_^

    Obrigada por sempre tirar nossas dúvidas <3

  2. Gabriel Souza 04/07/2017

    Outro ótimo conteúdo. Parabéns e Deus abençôe.

  3. Maria Ester de Freitas 05/07/2017

    Sou escritora de assuntos técnicos no campo dos Estudos Organizacionais. Tb sou uma leitora cativa da literatura policial e tenho lá meus investigadores favoritos. Gosto muito deste site, aprendo muito com ele: é didático, objetivo, acolhedor e respeita as pretenções de quem acalenta a vontade de um dia cruzar a linha que separa uma pagina em branco de uma com texto. Obrigada, Maria Ester

  4. Luciene Santos 05/07/2017

    Gosto muito de seus textos. Sinto falta quando não recebo. Parabéns e boa sorte!

  5. Edgar 05/07/2017

    Obrigado pelas dicas valiosas, valiosíssimas.

  6. Venâncio Edgar Zulian 07/07/2017

    “…um narrador que explica a história demais ou, ainda pior, determina como se deve julgar os personagens e interpretar tudo o que acontece, rouba do leitor um dos maiores prazeres da leitura: preencher os espaços das entrelinhas com suas próprias percepções e divagações.”

    Disse tudo! Muito bom.

  7. Alex 08/07/2017

    Ótimo texto. São dicas importantes e a partir de agora fico mais consciente na construção de minhas histórias. A intrusão do narrador é admissível desde que ele enriqueça o texto e faça uma moldagem básica do personagem. Essa era uma grande dúvida minha, eu fica confuso se estava ou não sendo intrometido e até onde eu poderia ou não influenciar meu leitor. As coisas estão se aclarando, obrigado pelas dicas.

  8. Raffael 13/07/2017

    Uau, muito bom o texto. Estava relendo a série de livros “Harry Potter” (mais precisamente o livro inicial) e quando li a terceira versão, lembrei de cara da apresentação dos Senhores Dursley. Acredito que a J. K. Rowling tenha usado a extrema crítica do narrador com o objetivo de tornar o texto mais cômico, ou então reforçar ao públicos que os padrastos do Harry eram realmente “odiáveis”. O que não pude deixar de perceber é que a descrição causou meu puro ódio à eles, e como você disse, atrapalhou do leitor preencher as lacunas do livro com sua própria opinião.
    Obrigado pelo texto, tomarei mais atenção ao continuar meu livro (atenção ao sorrisinho de quem está exagerando demais com a terceira versão 🙂 ).
    Cheguei agora e lerei mais, ótimo blog, abraços.

  9. Patricia 21/07/2017

    Muito bom, obrigada!

  10. Marvson Allan 28/07/2017

    Olá. Sei que não tem muito a ver com esse texto, mas estou com uma dúvida. Quando devo parar de escrever sem editar, e começar a editar o texto? Após um capítulo? Uma sessão? Ou devo escrever o livro todo sem voltar atrás e só depois começar a editar? Sempre fui muito perfectionistam editando a cada parágrafo. Decidi mudar isso. Escrevi vinte e duas páginas sem editar absolutamente nada até agora. Mas percebi depois de alguns dias pondo o texto em descanso que o início da história ficaria bem melhor se eu mudasse completamente algumas coisas. Acha mais sensato continuar do jeito que está e só editar depois, ou mudar imediatamente?

  11. Author
    Diego Schutt 31/07/2017

    Oi Marvson

    Essa decisão de quando parar de escrever sem editar é muito pessoal. Conheço escritores que editam cada linha a medida em que escrevem. Conheço outros que não editam até terminar de escrever um primeiro rascunho do texto completo.

    O importante é ter claro que o objetivo do processo de edição é refinar o texto para que ele expresse suas ideias com mais força, intensidade e clareza. É impossível fazer isso sem uma compreensão de que ideias são essas. Por isso, acredito que não vale a pena investir tempo editando um texto que talvez mude completamente depois de algumas sessões de escrita.

    Como recomendação geral, eu diria para você escrever livremente (sem editar) até encontrar a história que deseja contar. A partir do momento que você ganhar uma compreensão mais clara da sua intenção, você pode escolher escrever uma primeira versão do texto até o final para, somente então, reler tudo o que produziu e começar a editar. Outra alternativa é você escrever e editar cada capítulo. Independentemente de qual alternativa você escolher, é natural que a história evolua e mude significativamente após o processo de edição e revisão.

    Boa sorte com seu livro.
    abs
    Diego

  12. Marvson Allan 31/07/2017

    Obrigado pela resposta, já tenho uma Ideia de como fazer a partir de agora. Acompanho o ficção em tópicos há alguns anos e só tenho elogios ao ótimo trabalho aqui. Aprendi muito por aqui.

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