Aprenda a criar realidades com palavras

Quantas vezes você precisa reescrever um texto?

Por Diego Schutt em 24/04/2017 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, storytelling
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Texto do escritor convidado Bruno Crispim

Se quiser escutar este texto, aperte play no painel acima.

Quando converso com escritores iniciantes, percebo uma grande resistência em torno da revisão e da reescrita. Vou ter que escrever tudo de novo? A pergunta é recorrente demais para uma resposta tão definitiva: Sim, várias vezes.

A reescrita e a revisão são processos fundamentais para a evolução da narrativa. A cada nova versão, aprendemos mais sobre o enredo, os personagens, os conflitos e nossa própria linguagem. A cada revisão, esculpimos o texto e aparamos arestas para que ele ganhe mais força, foco e impacto.

Se você não acredita, faça um teste. Reescreva um dos seus textos, do início ao fim. Então, compare a primeira com a segunda versão. Pela minha experiência, ainda sem terminar, você terá aumentado a complexidade da trama de tal forma que será impossível negar a importância da reescrita.

Não foi à toa que Ernest Hemingway, autor de “Por quem os sinos dobram” e “O velho e o mar”, disse que “O primeiro rascunho de qualquer coisa é uma merda.” Essa frase, que é conhecida pela sua rigidez e obscenidade, pode parecer drástica, mas traz duas mensagens importantes:

A primeira versão do texto é apenas o embrião da história e você precisa escrever outras versões, até que a narrativa expresse sua ideia com mais precisão.

O propósito essencial da primeira versão é transferir toda a trama da sua cabeça para o papel. Não da melhor forma possível, mas da forma mais rápida possível. No momento que você ganhar uma compreensão completa sobre o arco dramático do protagonista, você entenderá melhor a lógica interna da história e suas ramificações nos personagens e subtramas. Aliás, é normal que se demore algumas versões até que seus personagens desenvolvam uma personalidade complexa e autônoma, com formas de agir e falar próprias.

Concluir a primeira versão sempre seguindo em frente, sem voltar para corrigir erros que forem aparecendo, exige uma certa dose de fé no processo de criação e em si mesmo, algo que não é comum em escritores iniciantes. Não ajuda que a reescrita é vista como retrabalho, e que isso seja visto como resultado de erros cometidos pelo escritor e como um desperdício de tempo. O que não é muito difundido é que a reescrita não é retrabalho, é uma parte inerente a todo processo de criação.

Um ilustrador, por exemplo, começa a desenhar um rosto por um círculo. Depois, ele divide esse círculo em quadrantes. Então, ele traceja algumas linhas que servirão de base para o queixo e continua até que, aos poucos, transforma o círculo inicial em um rosto com características particulares. Cada versão do seu trabalho traz mais complexidade e beleza à imagem. É o que acontece com a escultura, com a pintura, com a música e, logicamente, com a escrita.

O conhecimento prévio da necessidade da reescrita cria um efeito colateral incrível: sem a pressão pela perfeição instantânea, as chances de um bloqueio criativo são muito menores.

Quantas versões são necessárias? Não existe número certo ou número máximo. Muitos escritores defendem cinco versões. Hemingway propõe dez. Já Milton Hatoum precisou de dezesseis versões para terminar o romance “Dois Irmãos”, sua principal obra.

Tendo em mente que cada história tem as suas próprias exigências, proponho os seguintes objetivos para a escrita das cinco primeiras versões.

  • Antes de começar a escrever: Pesquisar, refletir e planejar a estrutura da história (caso você seja o tipo de escritor que prefere desenvolver sua história a medida em que escreve, pule essa primeira etapa).
  • Versão 1: Escrever a sua história até final, no estilo NaNoWriMo. Quando perceber algo que não gosta ou decidir desenvolver o enredo por um caminho diferente, anote as ideias novas que surgirem, mas siga em frente sem consertar nada no texto.
  • Versão 2: Deixe o texto descansar por, pelo menos, duas semanas. Nesse tempo, reflita sobre os problemas encontrados. Leia livros e assista filmes e séries do mesmo gênero ou sobre o mesmo tema da sua história, para ampliar sua visão sobre as possibilidades de desenvolvimento do texto. Depois, reescreva a narrativa do início ao fim. Dessa vez, seja ativo na correção dos erros e imperfeições que encontrar. Anote as consequências que essas alterações possam ter na história e imagine formas de incorporar tais alterações ao texto.
  • Versão 3: Dessa vez, foque apenas nos diálogos. Revise cada fala, do início ao final do texto. Tenha em mente os desejos e medos de cada personagem no contexto da história e de cada cena onde há diálogo.
  • Versão 4: Convide um leitor beta ou leitor crítico para avaliar o texto. Durante esse período, tente não pensar na história. Quando receber o feedback do seu primeiro leitor, avalie que comentários são relevantes e faça as alterações que considerar necessárias.
  • Versão 5: Finalmente, tente olhar para o texto com a imparcialidade de um leitor. Seja crítico, seja chato, anote o que não está funcionando e o que lhe parece clichê. Imprimir o texto pode te ajudar a alcançar o afastamento necessário.

Depois dessa quinta versão, a história não estará necessariamente finalizada. Talvez você precise escrever mais uma versão para refinar outros detalhes e decida submeter seu texto para uma revisão profissional. Mas você pode e deve comemorar. O trabalho restante será residual.

E você, quantas vezes costuma reescrever um texto antes de considerá-lo pronto?

 

Sobre o autor: Bruno Crispim nasceu em Niterói-RJ. Apaixonado por ficção, comportamento humano e administração, transitou, por muito tempo, nessas áreas. Até seu ano sabático, quando morou no Canadá. Aproveitou o inverno congelante para escrever O Segundo Caçador. Um esforço que rendeu frutos. O romance foi ganhador do III Prêmio UFES de Literatura e publicado em 2016. De volta ao Brasil, participou da coletânea de contos Escritor Profissional (Ed. Oito e meio), ganhou destaque no Wattpad com GUIA do Escritor Iniciante e foi convidado para participar da oficina de escrita criativa do premiado autor Marcelino Freire. Atualmente, finaliza seu próximo romance Ascensão.

 

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Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

8 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Neiva Meriele 25/04/2017

    Mais uma matéria sensacional. Adorei!

    Bem, nós vivemos numa época onde o imediatismo impera. Livros são escritos e postados ao mesmo tempo em plataformas como o Wattpad, por exemplo. É por essas e outras que me sinto uma escritora à moda antiga. Fiquei muito feliz ao ler a matéria e me identificar com o conteúdo. Claro que não é a primeira vez que leio sobre o assunto, mas é sempre bom reforçar que não estou errada ao agir assim.
    Sempre considerei a primeira versão como um grande rascunho, onde eu me jogo sem reservas. Depois de concluída essa etapa então sim parto para as infindáveis revisões, sem dó de alterar, cortar, acrescentar.
    O mais legal de tudo isso é perceber que a diferença entre a primeira versão e a versão final é gritante. Os primeiros três livros que escrevi em 2004,2005 e 2006 foram reescritos 10 anos depois. Foi uma experiência incrível ver o resultado de tantos anos de estudo, determinação e aprendizado impressos em cada detalhe das obras.
    Portanto, minha recomendação é essa também. Não tenha dó nem preguiça de mexer na sua história.

  2. Célio Amaral 29/04/2017

    O texto e o áudio disseram algo que eu já sabia(parecia que alguém estava lendo meus pensamentos) pois já lidava com isso no desenho. Porém ainda me sinto inseguro algumas vezes, então, sempre que me sentir assim vou revê-los.

  3. Alex 29/04/2017

    Olá, Bruno! Excelente matéria! Sou escritor amador no Social Spirit, onde tenho algumas histórias originais. Procuro sempre revisá-las e tenho percebido melhoras substanciais. A revisão, por enquanto, é do ponto de vista gramatical, no entanto, estarei revisionando do ponto de vista da trama, incrementando os diálogos e melhorando o texto descritivo. O desafio final será, sem dúvida, olhar o texto com a imparcialidade de um leitor.

  4. Alex Almeida da Silva 03/05/2017

    Olá, seu texto veio no momento certo, atualmente me questiono sobre quantas revisão são necessárias e principalmente como fazê-las.
    Gostaria que se possível vc me tirasse uma dúvida sobre o tema.
    Quando vc fala em reescrever ou escrever outra vez, vc diz começar do zero? Abrir um novo arquivo de World e digitar toda a história outra vez? Ou pegar aquilo que já foi escrito e ir alterando palavras, tirando e acrescentando parágrafos?
    Agradeço a atenção.

  5. Bruno Crispim 12/05/2017

    Olá Neiva, Célio, Alex e Alex! Obrigado pelos comentários. Fico feliz que o artigo pode ajudá-los.
    Alex Almeida, reescrever é abrir o arquivo e, na releitura, o modificar.
    Abs

  6. Nana 20/05/2017

    Bom dia Bruno,
    Nunca me perguntei quantas revisões são necessarias, pois as faço enquanto não me sentir segura com o que escrevo.
    Obrigada pelo site, sempre venho aqui quando preciso pesquisar !
    Abraços

  7. Gabriel Souza 20/05/2017

    Uau! essa matéria foi como um ponta pé encorajador para mim. Era o impulso que faltava, sempre rejeitei a ideia da reescrita pelo simples fato de não saber como fazer. Ficção em Tópicos se tornou um “professor” para mim. Obrigadão a todos voces. Deus abençoes!

  8. Renata 30/05/2017

    Amei esse texto… sempre tive problema com a ideia de reescrever minhas histórias, pensava que isso só refletia minha falta de talento para escrita. Sinto que um caminhão de concreto saiu das minhas costas…

    Obrigadaaa Ficção em Tópicos…

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