Aprenda a criar realidades com palavras

Ação, reflexão e risco são as engrenagens das histórias.

Por Diego Schutt em 30/04/2017 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, storytelling, técnicas
7
170

Se quiser escutar este texto, aperte play no painel acima.

Quando você tem uma ideia mais clara de quem é seu protagonista e que desejo (interno e externo) o ponto de virada despertou em sua vida, você ganha um senso da direção que a história vai tomar. Mesmo tendo isso definido, entretanto, muitos escritores encontram dificuldades para começar a escrever.

Como apresentar os personagens sem cair no clichê de listar suas características? Como dar profundidade para o tema desenvolvido no texto evitando um tom moralista ou educacional? Como criar tensão na narrativa sem apelar para a introdução de acontecimentos chocantes? Você pode fazer tudo isso intercalando a descrição de ação, reflexão e risco ao longo da história.

Abaixo, uso trechos do início do conto “Além do Ponto”, do livro “Morangos Mofados” de Caio Fernando Abreu, para ilustrar como esses elementos podem ajudar você a aprofundar o conhecimento do leitor sobre os personagens e o universo de ficção de uma forma mais conectada ao contexto da história, permitindo a você dar mais complexidade e intensidade à narrativa.

AÇÃO

Ação é a descrição dos comportamentos de um personagem, relacionados ao que ele deseja no contexto de uma cena. É o que dá um senso de movimento para o enredo e permite ao leitor imaginar a história vividamente.

“Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só levava uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia pelo meio da chuva, uma garrafa de conhaque na mão e um maço de cigarros molhados no bolso.”

Perceba como a descrição de ações nessa passagem (ele caminha na chuva, agarrado a uma garrafa de conhaque) dá pistas sobre a personalidade do personagem (alguém que bebe com frequência, ao ponto de perder diversos guarda-chuvas pelos bares que frequenta), dá um senso de movimento para a história e revela o desejo do narrador/personagem (encontrar uma certa pessoa).

REFLEXÃO

Reflexão é uma descrição mais detalhada do que está por trás de certos comportamentos, características, pensamentos e emoções de um personagem. É o que dá mais complexidade para o tema da narrativa e permite ao leitor se envolver mais profundamente com a história.

“Teve uma hora que eu podia ter tomado um táxi, mas não era muito longe, e se eu tomasse um táxi não poderia comprar cigarros nem conhaque, e eu pensei com força então que seria melhor chegar molhado da chuva, porque aí beberíamos o conhaque, fazia frio, nem tanto frio, mais umidade entrando pelo pano das roupas, pela sola fina esburacada dos sapatos, e fumaríamos beberíamos sem medidas, haveria música, sempre aquelas vozes roucas, aquele sax gemido e o olho dele posto em cima de mim, ducha morna distendendo meus músculos.”

Repare como a reflexão do narrador sobre suas ações aprofunda nosso conhecimento sobre o personagem (por andar na chuva com sapatos esburacados e por ter que escolher entre tomar um taxi ou comprar cigarros e conhaque, ele parece estar passando por dificuldades financeiras). Observe também como o personagem reflete sobre suas expectativas em relação ao encontro prestes a acontecer (ele quer relaxar e se divertir sem medidas na companhia dessa outra pessoa). Esse trecho também dá pistas sobre o tema que será desenvolvido na história (é um texto sobre a antecipação e ansiedade criadas pela iminência de um encontro amoroso).

RISCO

Risco é um senso de que algo desfavorável – relacionado ao conflito central da narrativa – pode acontecer ao protagonista. É o que cria um senso de tensão na narrativa e mantém o leitor curioso sobre o que vai acontecer na história.

“Mas chovia ainda, meus olhos ardiam de frio, o nariz começava a escorrer, eu limpava com as costas das mãos e o líquido do nariz endurecia logo sobre os pêlos, eu enfiava as mãos avermelhadas no fundo dos bolsos e ia indo, eu ia indo e pulando as poças d’água com as pernas geladas. Tão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar na casa dele meio bêbado, hálito fedendo, não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava fazendo e sendo eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era. Começou a acontecer uma coisa confusa na minha cabeça, essa história de não querer que ele soubesse que eu era eu, encharcado naquela chuva toda que caía, caía, caía e tive vontade de voltar para algum lugar seco e quente, se houvesse, e não lembrava de nenhum, ou parar para sempre ali mesmo naquela esquina cinzenta que eu tentava atravessar sem conseguir, os carros me jogando água e lama ao passar, mas eu não podia, ou podia mas não devia, ou podia mas não queria ou não sabia mais como se parava ou voltava atrás, eu tinha que continuar indo ao encontro dele, que me abriria a porta, o sax gemido ao fundo e quem sabe uma lareira, pinhões, vinho quente com cravo e canela, essas coisas do inverno, e mais ainda, eu precisava deter a vontade de voltar atrás ou ficar parado, pois tem um ponto, eu descobria, em que você perde o comando das próprias pernas, não é bem assim, descoberta tortuosa que o frio e a chuva não me deixavam mastigar direito, eu apenas começava a saber que tem um ponto, e eu dividido querendo ver o depois do ponto e também aquele agradável dele me esperando quente e pronto.”

Veja como a descrição das ansiedades do narrador/personagem sobre a possível reação da pessoa que ele estava prestes a encontrar indica que algo desfavorável pode acontecer. Esse é o momento do texto onde passamos a nos preocupar com o protagonista porque percebemos sua fragilidade, vulnerabilidade e humanidade. Ele andava bebendo, estava mal de dinheiro, passava fome, andava insone e não estava cuidado de si, ou seja, esse personagem estava claramente enfrentando um momento difícil e, neste texto, ele revela para nós seu medo de ser rejeitado por ser quem é.

Repare como, nessa passagem, o escritor costura as descrições de ação, reflexão e risco (não necessariamente nesta ordem) para criar um envolvimento maior com o drama do protagonista, ajudando o leitor a experimentar o turbilhão de pensamentos, emoções e sensações do personagem.

Não existem regras em relação a isso e existe uma infinidade de excessões (em especial, em textos de escritores experientes), mas o que observo com frequência nos textos de escritores com quem trabalho é que uma narrativa que foca demais em compartilhar ações (sem dar grande ênfase para reflexões e riscos) pode soar superficial e genérica, caso o escritor não encontre uma forma de explorar as nuances da experiência do protagonista e do tema da história através da descrição dos comportamentos dos personagens.

Já uma narrativa que foca demais em compartilhar reflexões (com pouca descrição de ações e riscos) pode acabar soando mais como divagações do escritor sobre certos personagens, cenários ou temas. Reforço que não há nada de errado nisso, contando que a intenção do escritor seja desenvolver uma narrativa de ficção, não uma história de ficção. A definição de história traz implícita a ideia de um evento incomum, extraordinário, não necessariamente no sentido grandioso e radical dessas palavras, mas significando um acontecimento inesperado, no contexto da vida de um determinado personagem.

Finalmente, uma narrativa que foca demais em compartilhar riscos (com pouca descrição de ações e reflexões) pode soar mais como um resumo da história, que descreve apenas os pontos mais dramáticos da narrativa de forma abstrata, sem oferecer um contexto para o leitor interpretar o que está acontecendo e, assim, o mantendo distante do universo da história e dificultando que ele se envolva com o drama do personagem.

Em histórias que desenvolvem conflitos externos, a narrativa tende a focar na descrição de ações. Em histórias que desenvolvem conflitos internos, a narrativa tende a focar mais na descrição de reflexões. Em ambos os casos, a forma como o escritor decide apresentar os riscos envolvidos na situação em que o protagonista se encontra é o que determina a atmosfera da narrativa, o tom do texto e a natureza do envolvimento do leitor com o personagem.

Novamente, os comentários acima têm como base o que venho observando nos textos de outros escritores e nos meus próprios textos, quando procuro entender porque algumas passagens da história parecem não fluir com naturalidade ou parecem carecer de textura.

Minha sugestão é que você releia textos que você não gostou e procure identificar qual desses três elementos, se melhor desenvolvido, poderia enriquecer a narrativa.

Outro exercício que sugiro é a releitura dos seus textos favoritos, prestando atenção a esse ciclo de ação, reflexão e risco para, na sequência, imaginar como você poderia começar a desenvolver sua ideia, considerando cada uma dessas engrenagens que movimentam histórias.

Abaixo, um vídeo (em inglês) que fala sobre ação, reflexão e riscos.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra, Japão e Hong Kong. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

7 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. David 30/04/2017

    Informações e dicas e sugestões importantes para o bom desenvolvimento de um texto. Obrtigado.

  2. Daniel 30/04/2017

    Muito bom, continue o ótimo trabalho.

  3. Lucas Ost 02/05/2017

    Melhor site sobre o assunto!

  4. ZéReys Santos. 05/05/2017

    Muito bom, parabéns!

    “Eu tenho o defeito de não pensar muito em técnica de escrever, preservo a espontaneidade da criação que brota. As vezes seco, como uma mina, as vezes verto, como uma mina”.

    Gratidão, pela ajuda sincera!
    ZéReys Santos. – O AMOR DESVENDA O SIMPLES –

  5. Alexandre 11/06/2017

    Ótima dica. Saber equacionar a ação, a reflexão e o risco é um desafio para o escritor e, na minha humilde opinião, poderá ser alcançada com a prática de escrever com regularidade, procurando agregar mais conhecimento teórico com a prática de escrever. Por outro lado, é verossímil afirmar que esses três eixos dentados, que produzem o funcionamento da história, podem variar de tamanho, ou seja, o eixo da ação pode ser um pouco maior do que a do risco, por exemplo, sem comprometimentos. Tudo vai depender da ênfase que o escritor busca na sua história. Como o próprio autor do texto acima afirma: “Não existem regras em relação a isso e existe uma infinidade de exceções…”

  6. Anna 12/06/2017

    Achei mto boas as dicas, mas aquelas histórias usadas como exemplos tem uma estrutura bem estranha… Algumas vírgulas parecem meio fora do lugar e, quando são colocadas daquele jeito, parecem quebrar a “melodia” do texto, sabe? Eu queria entender pq tanta gente curte textos assim… Acho cansativo de ler e desanimador kkkk Não é bem uma crítica, tá mais pra uma observação pessoal, e seria legal se o autor me explicasse pq essa estrutura de textos é tão legal pra alguns, mesmo parecendo td errada pra mim. Quanto mais o cara falava “e eu andava”, mais eu queria pular o texto pro final logo (é muito chato kkkk). Amo o blog!

  7. Author
    Diego Schutt 14/06/2017

    Oi Anna

    Muito pertinente seu comentário e sua pergunta. O que eu gosto nesse texto é a forma como a linguagem é usada para expressar as inquietações e ansiedades do narrador. A leitura é cansativa e desanimadora, como você mesma disse, e penso que o escritor queria, justamente, que você sentisse essas emoções porque é como o personagem está se sentindo.

    Também gosto desse conto porque reconheço a experiência do personagem em mim mesmo: os pensamentos em círculos, as inseguranças acumuladas, o desespero contido. Mas entendo que talvez esse estilo de escrever lhe pareça mais irritante do que expressivo ou o conteúdo do texto não converse com você por ser muito distante das suas experiências. Ou ainda, talvez o que você procura em suas leituras seja organizar, harmonizar, se sentir bem, e esse texto não oferece nada disso. O escritor quer nos desestabilizar, quer nos incomodar, quer provocar inquietação.

    Espero que, ainda que siga não gostando do texto usado como exemplo, você tenha tirado proveito do artigo. 🙂

    Muito obrigado pela leitura e pelo comentário.

    abs
    Diego

Gostou do texto? O autor vai adorar saber. Deixe um comentário e compartilhe o artigo com outros escritores.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

Copyright 2010-2017 Diego Schutt - Todos os Direitos Reservados | Ficção em Tópicos ® é uma marca registrada