Aprenda a criar realidades com palavras

Como criar tensão, mistério e suspense em uma cena

Por Diego Schutt em 10/03/2017 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, storytelling, técnicas
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Imagine uma cena que começa com o diálogo entre quatro estudantes universitários dentro de um carro. Algumas páginas depois, um policial para o veículo e pede que todos desçam com calma, com as mãos para cima. Ao sair do carro, os personagens veem um rastro de sangue que se alonga pela estrada por onde o veículo passou. O policial abre o porta-malas e descobre três corpos dilacerados. Uma cena chocante e inesperada, que cria tensão por surpreender o leitor com um acontecimento que subverte suas expetativas.

Agora imagine exatamente a mesma cena mas, desta vez, o escritor compartilha no início do texto que, sozinho, um daqueles quatro estudantes – sem revelar qual deles – matou duas pessoas e as colocou no porta-malas do carro. Escutamos o policial se aproximando e pedindo para o motorista parar no acostamento. Porta-malas aberto, corpos dilacerados. Perceba como a atmosfera muda quando comparamos à cena anterior, simplesmente porque o escritor compartilhou a informação sobre a presença de um assassino no carro. Tal cena mantém um nível de tensão desde o início e desperta curiosidade para desvendarmos o mistério de qual dos quatro estudantes cometeu os crimes.

Uma terceira variação dessa cena poderia iniciar com a descrição de Heitor, um universitário recém chegado na capital, que aceitou o convite de três dos seus novos colegas para ir a uma praia remota. A cena continua com os quatro personagens no carro, até que Heitor repara no rastro de sangue sendo deixado na estrada. Apreensivo, ele não menciona o que viu para os outros. Escutamos o policial se aproximando e pedindo para o motorista parar o carro. Porta-malas aberto, corpos dilacerados. Nesse contexto, nossa preocupação se direciona para o personagem e a tensão cresce progressivamente, culminando no momento em que o policial para o carro. Nos imaginamos no lugar de Heitor, estamos sentindo a mesma ansiedade que ele, desejamos que o personagem escape daquela situação. Nossa experiência está sincronizada com a do protagonista.

Essas três cenas evidenciam a diferença entre escrever para chamar atenção, despertar curiosidade e envolver.

Na primeira cena, somos espectadores passivos, testemunhando uma conversa entre pessoas estranhas que culmina com um acontecimento inesperado. O policial os para, o porta-malas se abre, descobrimos os corpos dilacerados, ficamos chocados, fim. Como não sabemos sobre os corpos no porta-malas até o final da cena, as falas do diálogo são interpretadas literalmente e tem apenas um significado. Qualquer tensão no diálogo entre os estudantes, antes da revelação no final da cena, será sentida apenas pelos personagens. Nós sentimos tensão apenas ao constatarmos o conteúdo do porta-malas.

Na segunda cena, nos sentimos como um passageiro dentro do carro. A grande fonte de tensão, nesse caso, está no mistério criado pela situação inusitada, que nos convida a tentar descobrir quem matou as pessoas e colocou os corpos no porta-malas do carro. Não focamos nossa atenção em nenhum personagem em particular, já que todos são suspeitos. Veja como, aqui, a conversa entre essas pessoas, antes da abordagem do policial, ganha outra importância. Vamos ler atentamente a fala de cada personagem, observar cada gesto e comportamento, curiosos a procura de pistas sobre qual deles é o assassino.

Na terceira cena, o início do texto dirige nossa atenção para um personagem específico. A grande fonte de tensão é o senso de que Heitor está em perigo. O suspense é resultado do nosso envolvimento com o protagonista e nosso desejo que ele saia daquela situação vivo.

Veja como, no contexto dessa terceira cena, outros detalhes da história ganham mais importância.

Agora, não queremos apenas saber quem é o assassino. Nos perguntamos: O motorista estava, de fato, dirigindo para a praia? Quantos estudantes estão envolvidos com os crimes? Seria Heitor a próxima vítima? Quando o policial encontrar os corpos, vai considerar Heitor cúmplice dos assassinatos? Existe uma forma de Heitor provar sua inocência nessa situação? Essa série de perguntas nos mantém envolvidos não só com o que vai acontecer, mas especificamente com o que vai acontecer com o protagonista da história.

Quando focamos em uma ideia chocante, o texto corre o risco de soar como uma mera tentativa de impressionar o leitor. Quando focamos em uma situação inusitada, a narrativa pode criar mistério e despertar curiosidade intelectual, mas corre o risco de nos manter distantes da cena, desconectados emocionalmente do que está acontecendo. Quando focamos a narrativa na experiência de um protagonista, permitimos ao leitor assumir o ponto de vista do personagem, fazendo com que ele viva a história como se fosse aquela pessoa.

Uma cena de assassinato cria tensão. Uma cena onde um assassinato pode ocorrer cria mistério. Uma cena onde um assassinato pode ocorrer com um personagem com quem nos importamos cria suspense.

Suspense é a mistura de tensão, curiosidade e emoção. Criamos tensão compartilhando uma informação inesperada para provocar apreensão sobre o que acontecerá na sequência. Despertamos curiosidade compartilhando informações incompletas sobre um ou mais personagens ou o contexto da história para provocar apreensão sobre a iminência de um evento ou revelação importante, que não deixamos claro como, onde ou quando vai acontecer. Evocamos emoção compartilhando informações reveladoras da personalidade e identidade do protagonista, antes de introduzirmos conflito na narrativa, para provocar apreensão sobre a iminência de um evento ou revelação importante na vida do personagem, que não deixamos claro como, onde ou quando vai acontecer.

Essa mistura simula a intensidade de uma experiência real de conflito, quando somos forçados a lidar com uma acontecimento inesperado em nossas vidas. Um acidente de carro. A descoberta de uma doença. Uma declaração de amor não correspondida. A perda do emprego. Tensão, curiosidade e emoção estão presentes em todas essas situações.

Em histórias, intercalar momentos que criam tensão, despertam curiosidade e evocam emoção dão mais complexidade para um universo ficcional porque envolve nossa subjetividade de uma forma mais abrangente, além de abrir um leque de possibilidades menos previsíveis para o desenvolvimento da narrativa.

Em uma história com diversas cenas, você provavelmente usará informações inesperadas, incompletas e reveladoras para criar tensão em diferentes momentos da narrativa. Em textos mais curtos, com uma algumas poucas cenas, você tem mais chance de envolver o leitor emocionalmente se focar em despertar empatia com um protagonista e colocá-lo no mesmo carro e estado mental que o personagem, apreensivo para encontrar uma forma de explicar para o policial que a única coisa que ele fez de errado foi aceitar o convite de três estranhos para ir à praia.

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Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra, Japão e Hong Kong. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

4 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Sérgio de Vasconcellos-Corrêa 13/03/2017

    Texto esclarecedor, didático, excelente. Como tenho muitos textos iniciados e não terminados, estou aprendendo muito e espero poder concluir, pelo menos, um deles, pois com 83 anos sei que o tempo é curto. Parabéns e muito agradecido pelas diretrizes apontadas.

  2. Bruno Bonfim 14/03/2017

    Clara exposição de conceitos com exemplos realmente esclarecedores.

    Envolver o leitor num texto, num conto de 20 ou num épico de milhares de páginas, é sempre um desafio e uma vitória. Fazer com que as páginas continuem sendo viradas é uma realidade muito mais palpável quando o leitor está imerso e interessado nos eventos da trama – bem como no futuro ou presente dos personagens.

    Parabéns pelo texto Diego.

  3. A. Miguel 17/03/2017

    O melhor artigo que li até agora! Os meus sinceros parabéns, Diego. A sua forma de escrever é simples, mas muito completa e inteligente. Muito obrigada em nome de todos os escritores iniciantes 😉

  4. Fabiana 14/04/2017

    Como uma leitora de coração e aprendiz de escritora ainda sem muito técnica, foi o primeiro norte verdadeiramente objetivo e ao mesmo tempo profundo que eu li sobre o que buscar ao escrever um texto.

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