Aprenda a criar realidades com palavras

Como usar pesquisa para enriquecer a história

Por Diego Schutt em 19/01/2017 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, storytelling, técnicas
2
68

Texto do escritor convidado André Timm 

Se quiser escutar este texto, aperte play no painel acima.

É comum que todo escritor, em diversos momentos de sua produção, se depare com a necessidade de escrever a respeito de coisas sobre as quais não tem conhecimento. A pesquisa, então, torna-se uma ferramenta indispensável, pois ajuda a tornar a narrativa mais complexa e verossímil, ainda que os resultados da investigação nem sempre apareçam explicitamente no texto.

Em “Modos incabados de morrer”, por exemplo, meu mais recente romance, o protagonista sofre de uma doença chamada narcolepsia, uma condição onde a pessoa cai no sono involuntariamente. Para que eu pudesse escrever do ponto de vista do personagem e contar sua história, fiz uma vasta pesquisa para conhecer os sintomas dessa condição, a maneira como a doença se desenvolve, que tipos de exames podem identificá-la, qual o impacto de tal diagnóstico na vida prática de uma pessoa, que medicamentos existem para atenuar os sintomas, etc.

Foi esse conhecimento técnico que me permitiu mergulhar fundo na psicologia e na vida cotidiana do protagonista. Como resultado, ganhei mais confiança para escrever do ponto de vista do personagem e para incluir no texto certos detalhes específicos sobre essa condição, os quais enriqueceram a história.

Além do www

Às vezes, uma pesquisa na internet é suficiente. Entretanto, em algumas ocasiões é preciso ir além, seja buscando livros e artigos que tratem do assunto sobre o qual você precisa aprender ou mesmo conversando com outras pessoas que tenham conhecimento sobre o tópico de sua pesquisa.

No caso de “Modos inacabados de morrer”, foi exatamente o que fiz. Além de adquirir bibliografia técnica (livros médicos e científicos sobre narcolepsia e psicanálise), fiz entrevistas com um britânico que sofria de uma condição tão severa da doença quanto o protagonista de meu romance. Na verdade, o entrevistado foi, precisamente, quem inspirou a criação do personagem Santiago depois que assisti a um documentário sobre ele e sua condição no canal de tv da National Geographic (veja aqui).

Alguns meses depois, quando eu já tinha mais claro a história que desejava contar, procurei o homem do documentário no Facebook, expliquei que estava escrevendo um romance em que o protagonista também era narcoléptico e perguntei se ele aceitaria ser entrevistado para que eu pudesse construir meu personagem e caracterizar sua condição da forma mais verossímil possível.

A hora de parar e se organizar

Ao mesmo tempo em que pode ser uma excelente ferramenta, a pesquisa também pode guardar diversas armadilhas em que escritores costumam cair com frequência, especialmente quando estão inseguros sobre o que estão escrevendo. Se você está dedicando atenção incondicional à pesquisa, mas pouco pensa ou avança na construção da narrativa, talvez seja hora de parar e se perguntar se você já tem claro a história que deseja contar. Com bastante frequência, pesquisar incessantemente pode ser uma fuga inconsciente para evitar iniciar ou prosseguir no processo de escrita de uma narrativa, cujo os alicerces talvez ainda estejam frágeis.

Organizar o conteúdo pesquisado, guardando e categorizando o que de fato pode ser útil e aquilo que não é tão importante é uma boa estratégia para enxergar o todo com mais clareza. No caso de “Modos inacabados de morrer”, criei um extenso documento para armazenar diversas informações cruciais para o desenvolvimento do universo ficcional da obra: fotos de localidades que se assemelhavam a cidade onde eu queria situar o romance, vídeos, músicas, fotos de personagens, de estabelecimentos comerciais, do interior de residências, de objetos e assim por diante.

É algo semelhante ao que os criadores de séries de tv chamam de “bíblia da série“. Seja qual for o nome que você dê a esse conjunto de materiais, eles podem ajudar você a entrar no universo de ficção que você está criando e dar para sua escrita a pulsão e energia de uma experiência real.

Pesquisei, e agora?

A pesquisa, por si só, é sempre proveitosa, visto que aprofunda o conhecimento sobre o universo de ficção que está sendo desenvolvido. Agora, o que fazer com os resultados dessa pesquisa varia de acordo com o estilo e o tom que você deseja dar para a narrativa. Os resultados podem aparecer explicitamente no texto ou apenas implicitamente.

Assumir a pesquisa como um recurso estético e explícito dentro da história é uma abordagem possível. Outras vezes, o aprendizado resultado do trabalho de investigação não precisa aparecer de forma declarada na narrativa. Nesse caso, o contrário acontece. A pesquisa se dilui, torna-se invisível, e tem como grande objetivo tornar os personagens mais consistentes e os cenários mais reais.

Em “Modos inacabados de morrer”, minha pesquisa aparece de ambas as formas: explicitamente, em descrições técnicas e minuciosas, e implicitamente, na construção do protagonista (e daqueles que se relacionam com ele), de forma a estabelecer com verossimilhança os desafios que tal condição traz para a vida do personagem e todos ao seu redor.

 

Sobre o autor: André Timm, criador do projeto 2 mil toques, autor do livro de contos “Insônia” (Design Editora, 2011) e do romance “Modos inacabados de morrer” (2016), vencedor da Maratona Literária da editora Oito e Meio na categoria prosa.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra, Japão e Hong Kong. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

2 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Miguel 20/01/2017

    Interessantíssimo. Santíssimo!
    A parte que mais me atraiu foi a abordagem sobre o uso da pesquisa na narrativa. Achei que seria somente um texto focado na pesquisa em si – métodos e etc.
    Obrigado.

  2. Alexandra Miguel 02/02/2017

    Mais uma vez um excelente artigo! Fiquei até com curiosidade de ler o livro. Está à venda em Portugal?

Gostou do texto? O autor vai adorar saber. Deixe um comentário e compartilhe o artigo com outros escritores.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

Copyright 2010-2017 Diego Schutt - Todos os Direitos Reservados | Ficção em Tópicos ® é uma marca registrada