Aprenda a criar realidades com palavras

Uma guia para envolver leitores nas suas histórias – Parte 2

Por Diego Schutt em 31/01/2017 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, storytelling, técnicas
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Texto da escritora convidada Lisa Cron

Este é o segundo e último artigo da série “Um guia para envolver leitores nas suas histórias”. 

Nota do editor: No primeiro artigo da série (leia clicando aqui), a autora revela o elemento fundamental que faz um texto fluir, a eletricidade que dá vida para tudo na história, lhe dando significado, conflito e urgência: um senso claro de como o que está acontecendo no enredo está afetando o protagonista internamente.

Neste artigo, Lisa Cron compartilha cinco perguntas surpreendentes e cruciais que você precisa investigar em profundidade antes de começar a escrever. Pense nessas perguntas como as camadas que você precisa perfurar para chegar ao coração da verdadeira história que deseja contar.

É importante ressaltar que esse artigo está mais focado em ajudar Arquitetos de Histórias (escritores que estruturam suas ideias antes de começar a escrever) do que Jardineiros de Ideias (escritores que preferem plantar uma semente de história na página em branco e desenvolver suas narrativas a medida em que elas vão crescendo e ganhando corpo).

Independente de qual for seu processo de criação e do quanto você já desenvolveu sua ideia, as perguntas abaixo podem ajudar você a ganhar perspectiva sobre sua história e, assim, ganhar mais confiança para revisar e editar o texto.

Lembrando que é possível escrever textos literários sem considerar as perguntas abaixo. Esse artigo é para escritores cujas narrativas focam em contar histórias. 

1. O que você quer expressar?

Todas as histórias expressam algo sobre a natureza humana, começando já na primeira frase. Isso significa que, como escritor, você precisa saber o que quer dizer antes de começar a escrever. Sem algo para expressar, sua história vai ir para todos os lados e você vai soar como um escritor indeciso, que divaga por horas sobre sabe-se lá o que e faz o leitor querer abandonar o texto.

Assim como você, o leitor espera que tudo que está na história foi incluído a serviço do que o escritor deseja expressar. E não se engane, os leitores sentem rapidamente se uma história não está indo para lugar nenhum porque as informações não se complementam. A mudança interna que o enredo força o protagonista a fazer é, precisamente, como a história expressa algo sobre a natureza humana. Então, até que você descubra o que deseja expressar, fica difícil descobrir como e porque a visão de mundo do seu protagonista precisa mudar.

Para investigar o que você deseja expressar, se pergunte:

  • Que nova ideia ou perspectiva sobre a natureza humana quero oferecer ao leitor?
  • Que conhecimento/verdade descobri observando tudo ao meu redor e que pode ajudar o leitor a navegar melhor o mundo caótico, bonito e confuso em que vivemos?

2. Qual é o plano inicial do protagonista, o que ele entra na história desejando?

Todos os protagonistas entram na história já desejando algo desesperadamente, mesmo que esse desejo seja manter, para sempre, sua vida como ela é no presente. Isso é algo que eles, provavelmente, desejavam muito tempo antes do momento fatídico quando você os apresentou na narrativa.

Esse objetivo vai permear as motivações do personagem a partir do momento em que eles aparecem na história. Isso vai definir como eles interpretam o mundo, a eles mesmos, o que eles desejam e suas ações.

Para começar a criar a visão de mundo do seu protagonista, se pergunte:

  • O que meu protagonista já entra na história desejando?
  • Por que o personagem deseja isso?

3. Que crença equivocada o protagonista tem há muito tempo e que ele será forçado a confrontar e superar para conseguir o que deseja?

Essa crença é a semente original do conflito da história: a luta entre o que o personagem entra na história acreditando sobre o mundo e o que o enredo vai ensiná-lo, caso ele deseje alcançar esse desejo que carrega há muito tempo.

Histórias são sobre o preço que o protagonista paga, internamente, para evoluir. A pergunta que você está respondendo com sua história é “Evoluir em que sentido?”. Essa crença equivocada é o que o personagem terá de enfrentar, lutar e superar para alcançar (ou não) seu objetivo e, assim, solucionar o problema externo do enredo.

Para pensar sobre esse tópico, se pergunte:

  • Que crença equivocada vem debilitando o protagonista, impedindo que ele alcance o que deseja sem grandes esforços?
  • Como a consciência dessa crença pode ajudar o personagem a resolver o conflito da história?

4. Que problema externo do enredo vai forçar seu protagonista a ir atrás do que deseja?

O enredo gira em torno de um único problema que cresce, se intensifica e se complica, um problema com consequências cumulativas que não oferece outra opção ao protagonista a não ser lidar com ele.

Mas eis a parte que escritores costumam esquecer: tudo o que acontece em um enredo ganhará significado e peso emocional baseado em como os eventos afetam o protagonista, dentro do contexto do seu objetivo interno. O enredo existe para provocar uma transformação interna no protagonista, não o contrário.

Isso significa que você precisa considerar dois pontos quando começar a desenvolver o conflito central do enredo:

  • Esse conflito, sozinho, tem o poder de, pouco a pouco, se intensificar e sustentar a história inteira, da primeira até a última página?
  • Esse conflito vai forçar meu protagonista a confrontar sua crença equivocada – e tomar uma atitude – em cada momento do enredo para alcançar o que deseja?

5. Qual será o momento derradeiro em que seu protagonista vai abrir os olhos?

Esse é o momento em que seu personagem reconhece que sua crença equivocada está errada. Naquele instante, sua visão de mundo muda, a medida em que ele compreende as consequências do que vem acontecendo em sua vida. Isso é o que, frequentemente, o estimula a resolver o conflito central do enredo. É o momento para onde a história inteira converge, desde a primeira página.

Essa mudança interna – e o custo emocional que o protagonista paga para alcançá-la – é sobre o que sua história se trata. É isso o que os leitores estão buscando, estejam eles conscientes disso ou não. Saber que acontecimento trará essa mudança de perspectiva para o protagonista antes de começar a escrever é o que permite a você criar uma história envolvente.

Para pensar sobre esse tópico, se pergunte:

  • O que meu protagonista vai aprender que, em última instância, vai reverter sua crença equivocada?
  • Que nova crença tomará o lugar dessa crença equivocada?

 

O grande benefício de você responder a essas cinco perguntas agora, mergulhar fundo no seu personagem e se perguntar o porquê das suas escolhas estruturais, é esse: tudo o que você escrever tem o potencial de ser incluído na história.

Você está criando as lentes através das quais seu protagonista vai avaliar tudo o que acontece, uma lente totalmente moldada pelas experiências passadas do personagem, também conhecidas como backstory, o que soa como se essas informações não fizessem realmente parte da história que você está contando, mas isso não é verdade. Backstory é a semente mais fundamental da história que você está contando e essas informações estarão presentes em todas as páginas da sua narrativa, dando significado para tudo.

Esse mergulho no universo da história não termina aqui. Você vai voltar ao passado do seu protagonista constantemente, a medida que você seguir escrevendo, para trazer mais claridade, contexto, conflito e significado para cada uma das decisões que o enredo forçar o personagem a considerar. Afinal de contas, como Faulkner disse sabiamente, “O passado não está morto. Ele nunca, de fato, passa.”

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Sobre a autora: Lisa Cron trabalhou como agente literária, produtora de tv e consultora de histórias para empresas como a Warner Brothers, the William Morris Agency e muitas outras. Ela frequentemente é palestrante em conferências e mentora de escritores, educadores e jornalistas. Seu último livro se chama “Story Genious”. Esta é uma tradução autorizada do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

3 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Hermes 17/03/2017

    Ótimo texto. Ele me fez refletir em alguns pontos muito crucias da minha história, obrigado!

  2. Gabriel Souza 04/06/2017

    Ola, Diego. Tenho uma duvida sobre a Quinta pergunta, a Lisa está se referindo ao ponto de virada ou ao clímax? Desde já. agradeço, Deus abnçoe.

  3. Author
    Diego Schutt 06/06/2017

    Oi Gabriel

    A quinta pergunta se refere ao clímax da história. Obrigado pela leitura. 🙂

    abs

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