Aprenda a criar realidades com palavras

Um guia para envolver leitores nas suas histórias – Parte 1

Por Diego Schutt em 20/01/2017 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, storytelling, técnicas
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Texto da escritora convidada Lisa Cron

Uma pergunta: quando você está imerso em uma história – qualquer história – o que, exatamente, o deixa tão hipnotizado que o mundo real parece ter desaparecido?

Você deve estar pensando, “Hum, isso depende do tipo de história que estou lendo, do gênero, se é ficção comercial ou literária – sei lá, existe uma lista longa de critérios possíveis e eles variam. Não existe apenas uma resposta ou coisa parecida. Que reducionista seria pensar assim.” Era isso o que eu pensava. Eu estava errada.

Sei disso porque passei toda minha carreira me fazendo aquela pergunta, não de uma forma teórica ou hipotética, mas de uma forma muito prática, até porque eu não tinha outra escolha. Esse era meu trabalho. Passei grande parte da minha carreira trabalhando com escritores, lendo e analisando manuscritos, roteiros e histórias para entender se eles funcionavam e, caso não funcionassem, qual era a causa disso e o que poderia ser feito.

Se você me perguntasse o que eu estava procurando em histórias quando comecei a fazer esse tipo de trabalho, eu reviraria meus olhos – porque isso me parecia tão óbvio – e diria “Ok, ainda que dependa do gênero, em geral estou a procura de personagens intrigantes, situações interessantes, cenas dramáticas, conflitos intensos, diálogos autênticos, um texto bem escrito, metáforas precisas”. Nesse ponto, percebendo que minha resposta soava um pouco vaga, eu terminaria dizendo “Enfim, eu simplesmente reconheço uma ótima história quando encontro uma, ok?”. Essa parte é verdade.

Todos nós reconhecemos uma ótima história quando encontramos uma. 

Somos gênios em reconhecer uma história envolvente desde que nascemos porque histórias fazem parte da arquitetura do cérebro: pensamos em forma de histórias, é como damos sentido ao mundo ao nosso redor. Mas o que é menos claro é ao que estamos reagindo, na verdade, quando uma história nos enfeitiça. E o que dificulta nossa entendimento é que aquilo que acreditamos ter nos envolvido não é, de fato, o que nos envolveu.

O que, finalmente, descobri foi isto: existe um elemento fundamental que envolve e segura leitores, um elemento que dá significado, urgência e potência para a história como um todo, independentemente do gênero. Sem esse elemento, não importa o quão bem escrito é o manuscrito, não importa o quão bonita é a prosa, não importa o quão externamente dramático é o enredo, não importa quantos detalhes sensoriais foram incluídos ou mesmo o quão único, original e peculiar é o protagonista. Um manuscrito pode ter tudo isso e, ainda assim, ser o equivalente literário de uma dose cavalar de um sedativo para dormir. E, tão surpreendente quanto essa constatação, é que mesmo um manuscrito sem nenhuma dessas características pode ser envolvente.

O elemento fundamental que faz um texto fluir, a eletricidade que dá vida para tudo na história, lhe dando significado, conflito e urgência é isso: um senso claro de como o que está acontecendo no enredo está afetando o protagonista internamente. 

Uma história, eu percebi, não é sobre o que acontece no enredo. A história é sobre como os acontecimentos do enredo forçam o protagonista a lidar com um problema inevitável e assim, cena por cena, com uma mudança interna incrivelmente difícil que, há muito tempo, ele vem evitando. O que envolve e desperta o interesse do leitor é o conflito interno, não o drama externo.

Recentes avanços da ciência do cérebro e da biologia evolucionária constataram isso. Histórias são simulações. Pense nelas como as primeiras realidades virtuais do mundo. Você está lá, visceralmente vivendo o que o protagonista está enfrentando, de dentro para fora. Uma história não é sobre as ações de um personagem, mas sim sobre porquê ele age de tal forma. Somente mergulhando fundo no que o protagonista está realmente tendo dificuldades em lidar quando ele toma decisões difíceis e inevitáveis é que podemos colher informações úteis sobre como, de fato, nos sentiríamos se estivéssemos na mesma situação.

Você não lê sobre as experiências de Jane Eyre de fora para dentro. Você é Jane Eyre e está, você mesmo, vivendo aqueles eventos. Não quero dizer apenas metaforicamente. Estudos que usaram ressonância magnética funcional mostraram que quando você está envolvido em uma história, o que o protagonista sente viaja pelos seus neurônios como se estivesse acontecendo com você porque, biologicamente, de fato está. O importante não é colocar o leitor na situação do personagem, mas colocar o leitor no estado mental do personagem. A medida que a visão de mundo do protagonista muda, a nossa visão de mundo muda também.

A grande questão é, como escritor, como você cria uma história capaz de envolver o cérebro do leitor a partir da primeira frase? 

A resposta: começando por desenvolver, primeiramente, o centro de comando da sua história, o lugar de onde todo o significado, urgência e conflito emanam: a mente do seu protagonista. Para fazer isso, o primeiro objetivo do escritor é aprofundar seu conhecimento sobre uma mudança interna enraizada no personagem, que ele já entra na história precisando fazer. Caso contrário, como você vai criar um enredo que vai forçá-lo a fazer essa mudança?

Como isso em mente, na parte dois deste artigo, vou apresentar cinco perguntas surpreendentes e cruciais que você precisa investigar em profundidade antes de começar a escrever. Pense nessas perguntas como as camadas que você precisa perfurar para chegar ao coração da verdadeira história que você deseja contar.

Leia a segunda parte do artigo clicando aqui.

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Sobre a autora: Lisa Cron trabalhou como agente literária, produtora de tv e consultora de histórias para empresas como a Warner Brothers, the William Morris Agency e muitas outras. Ela frequentemente é palestrante em conferências e mentora de escritores, educadores e jornalistas. Seu último livro se chama “Story Genious”. Esta é uma tradução autorizada do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

Sobre o Autor

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Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

3 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Cezar Gaetano 20/01/2017

    Olá, Desejo pedir para você Diego Schutt, se fosse possível, enviar sugestões de livros que apresentem esse conflito interno do personagem. Gostei muito do artigo,interessante essa abordagem de “prender” o leitor na história. Uma técnica importantíssima para a obra literária.

  2. Victor Jr. 22/01/2017

    Texto importante pra explicar tecnicamente o que já faço instintivamente.
    Do que me serviu?
    Veio confirmar o que eu já intuía: ache uma ideia que produza um bom conflito e o resto é escrever preenchendo os espaços.
    Simples, por isso é difícil. Mas o talento aparece é nessas horas.
    Só tenho a agradecer as dicas e esperar a parte 2.

  3. Fernando 08/03/2017

    Esses dois artigos mudaram minha percepção de escrita de uma forma absurda. Muito obrigado pela tradução e pelo excelente trabalho no Ficção em Tópicos! ^^

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