Aprenda a criar realidades com palavras

Um calendário para ajudar você a alcançar seus objetivos de escritor

Por Diego Schutt em 30/12/2016 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, inspiração, técnicas
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Para baixar o Calendário do Escritor 2017, clique aqui. Se você ainda não sabe como o calendário funciona, clique aqui para saber mais.

Abaixo, algumas reflexões sobre minha experiência usando o calendário durante 2016.
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Não era esse meu objetivo. Não era esse o destino onde eu queria chegar e meu Calendário do Escritor de 2016 reflete isso.

Metade do ano preenchido, a outra metade quase vazia, um resultado parecido com o do ano passado. Minha meta não era ambiciosa: escrever, no mínimo, 25 minutos de ficção por dia. Totalmente possível, totalmente viável. Então o que aconteceu? Aconteceu o que vem acontecendo desde que criei o Ficção em Tópicos.

Comecei o site porque queria entender como nos relacionamos com histórias, que características os textos que considero envolventes costumam apresentar, porque alguns encantam e outros entediam. Acreditava que essa compreensão poderia me ajudar a desenvolver narrativas mais expressivas e verdadeiras.

Queria jardinar minhas ideias mais intuitivamente, compreender que parte de mim estava compartilhando em cada texto para, assim, escrever ficção com mais propósito.

Eu estava certo. Tudo isso aconteceu. Mas não foi suficiente descobrir técnicas que funcionavam para mim. Eu queria saber se elas ajudariam outros escritores também. Os leitores do site e escritores com quem trabalhei ao longo dos anos confirmaram que sim.

A grande satisfação de poder contribuir para que outras pessoas criassem textos mais verdadeiros, entretanto, foi o que acabou me distraindo do meu objetivo inicial. Ao invés de dedicar minha energia para desenvolver as minhas ideias de história, foquei em ajudar outros escritores.

Sete anos depois de criar o Ficção em Tópicos, tenho a sensação que comecei uma viagem com destino definido, mas acabei me distraindo nas conversas com as pessoas para quem dei carona ao longo do caminho. Encontrei muitos viajantes pelas estradas, segurando placas sinalizando o mesmo destino que o meu.

Fiquei muito feliz em poder ajudar essas pessoas, em deixá-las um pouquinho mais perto de onde elas queriam chegar.

O problema é que, ao invés de seguir em frente, de continuar minha viagem, comecei a dirigir em círculos. Voltei incontáveis vezes para onde havia começado porque queria dar carona para mais pessoas. Passei a investir grande parte do meu tempo pensando sobre mapas alheios, sugerindo novas rotas, conversando sobre o destino de outros escritores. Comecei a dar menos importância para a minha viagem e encontrei prazer em simplesmente dar carona.

Se a meta do meu calendário de 2016 fosse “escrever textos para ajudar outros escritores por, no mínimo, 25 minutos todos os dias”, o ano inteiro estaria preenchido. Sempre me sinto realizado ao escutar que meu trabalho ajudou outras pessoas e desejo que 2017 também seja assim, mas só isso não é suficiente.

Não era esse meu objetivo, não era esse meu destino. Não quero dirigir apenas para dar carona. Eu também quero chegar.

O que mais me atrapalha é o excesso de bagagem. Meu porta-malas está cheio de ferramentas que passei a carregar para ajudar meus caronas a chegarem a seus destinos. Lanternas, roteiros de viagem, bússolas, mapas. Todas ferramentas muito úteis, a não ser quando são usadas na tentativa de compensar a preguiça do viajante de definir um destino.

Tenho reparado em como as estradas estão ficando cada vez mais movimentadas, cheias de motoristas solitários em seus carros vazios e porta-malas pesados. Pessoas obcecadas com técnicas, procurando ansiosas por ruas em seus guias organizados, na ilusão de que, assim, poderão chegar mais rápido a seus destinos. Esquecem de levantar a cabeça, de olhar pelo para-brisa e ler as placas na sua frente. Param a cada cruzamento para consultar mapas, ansiosas na busca por confirmação de que estão na rua certa, muitas vezes sem nem considerar para onde estão indo.

Elas ainda não entenderam que a técnica não existe para ajudar a encontrar o caminho mais rápido, mas sim para clarificar onde se quer chegar e porquê.

Há escritores cientes disso. São os andarilhos solitários caminhando nos acostamentos, no seu próprio ritmo, confiantes de que estão indo na direção certa. Mas há um tantão de gente que precisa de carona, que não sabia que a caminhada era longa e se aventurou em uma estrada desconhecida com uma mochila quase vazia. Em 2017, quero seguir oferecendo carona para essas pessoas, mas também quero descer do carro mais vezes, pegar do porta-malas só o que couber nos bolsos e ir para beira da estrada sacudir o polegar para os carros que passarem.

Quero carona para conversar sobre os meus mapas, as minhas rotas. Quero começar e terminar mais textos porque, de tudo que aprendi até hoje sobre escrever histórias, a lição mais fundamental é que cada viagem a um novo universo de ficção enriquece nossa aventura seguinte e nos torna viajantes mais preparados para chegar a um destino que não está em nenhum mapa e, por isso, poucos escritores conseguem encontrar: a ferida dentro de nós mesmos que estamos tentando cicatrizar cada vez que sentamos para escrever.

O escritor Sherman Alexie descreve essa ferida desta forma: “Acredito que todo escritor vive na porta de entrada da sua prisão. Metade dentro, metade fora. O ato de contar histórias é um retorno a essa prisão que no tormenta e nos mantém prisioneiros”. Essa ferida, essa prisão, não tem necessariamente um nome ou uma forma definida. Ela é a história que você conta para si mesmo sobre porque precisa registrar seus pensamentos e compartilhá-los com outras pessoas, sobre como você acredita que as palavras vão, eventualmente, eliminar esse senso de incompletude e o vazio no seu peito. O segredo para escrever bem talvez esteja em encontrar beleza na nossa prisão, nas nossas feridas, e entender o que elas significam.

Acredito que essa consciência é o que nos permite traduzir nossos pensamentos e emoções em histórias que dialogam com os pensamentos e emoções do leitor. Essa consciência é o que nos permite transformar textos que suplicam por atenção em narrativas que afirmam com confiança a forma única como enxergamos e interpretamos o mundo.

Feliz ano novo e obrigado por seguir acompanhando o Ficção em Tópicos.

E você, usou o Calendário do Escritor em 2016? Compartilhe sua experiência nos comentários.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

5 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Malu Alves 31/12/2016

    Conheci o Ficção em Tópicos há poucos meses e me identifiquei instantaneamente. Nunca postei comentários e, ironicamente, ainda não tenho palavras suficientes para agradecer o quanto seus textos me motivaram e inspiraram diariamente para continuar a escrever.
    O Calendário de Escritor de 2017 já está no meu quarto e espero poder retornar ao site daqui um ano com boas notícias sobre minha viagem pela ficção.
    Diego, espero de verdade que você consiga retornar para sua própria estrada em 2017, que olhe mais para frente e nem tanto para os lados. Seus esforços já ajudaram muita gente — inclusive outros escritores iniciantes como eu — a aprimorar suas histórias e, principalmente, a não desistir dos próprios projetos. Acredito que é nossa vez de retribuir a ajuda e torcer para que você chegue a seu destino. Você merece.
    Um excelente Ano Novo para você e MUITO OBRIGADA pela carona ^-^

  2. Arnaldo Boson 02/01/2017

    Quando encontro um Blog sobre escrita sempre gosto de procurar textos curtos do autor como forma de entender como as suas orientações funcionam na prática. Mas não encontrei ainda textos do autor do presente texto, gostaria muito de encontra-los como forma de conhecer melhor sua ficção, uma vez que este é um dos sites que aborda o tema de forma mais completa e interessante. Como fazê-lo? Existe algum que possa ser acessado através da internet?

  3. tamires 02/01/2017

    Eu amei ler seu texto.
    E hoje eu realmente estava pensando em varias coisas, pensando como farei para me organizar. Pois tem três historias que ainda não terminei. E ao conhecer seu site me fez abrir a mente, ajudou e ajuda a tomar alguns decisões da minha nova historia, que nessa eu pretendo continuar e encontrar um final bom e não
    aquele final que você diz “nossa mas poderia ser assim” e não foi. Quero escrever um final que as pessoas falem “esse final nunca vou esquecer”, mas claro quero escrever um final bom.
    Obrigada por escrever textos que inspiram outras pessoas escrever.
    Um forte abraço.

  4. Adrine 11/03/2017

    Olá Diego! Primeiramente tenho muito a agradecer ao site por estar a um ano me fazendo descobrir que há tanta gente como eu, tendo os mesmos problemas com as desculpas de escrita e criatividade.
    Comecei a utilizar o calendário do escritor a partir do dia 11 de maio de 2016, e bem na época eu estava me ocupando de tentar levar em frente uma história que havia começado um ano atrás, mas que andava tropeçando na desculpa de eu não estar “inspirada para entrar naquele universo”, ou que não estava “preparada para escrever da maneira certa algo tão criativo como aquilo”, e antes disso venho desde os 14 anos escrevendo histórias que parei nos primeiros capítulos porque eu escrevia uma vez por semana ou uma vez por mês na história, até aprender que não tem como levar a sério ou “entrar no universo da história” escrevendo em períodos tão espaçados, porque em tanto tempo a história e a ideia perdem o encanto. Mas ai vem a preguiça a “falta de tempo” e o “eu não sirvo para escrever”, que resume meus dois primeiros anos de escrita.
    Quando eu conheci o Ficção em Tópicos e vi ali nos tópicos do site o calendário do escritor, e li o artigo eu fiquei com aquela animação de “Aaaaaa eu vou escrever muito agora!” imaginado mentalmente como seria e que eu faria uma meta de 30 minutos por dia, e que levaria seriamente em frente o que eu estava escrevendo no momento. Logo nos primeiros dias percebi que em trinta minutos eu escrevia muito pouco, já que às vezes eu fico parada olhando pela tela pensando em nada (é maluco, mas me ajuda a escrever) então eu mudei minha meta para 500 palavras por dia. Eu levei muito à sério aquela de escrever só por um X, nem que tivesse que gastar meia hora de discussão mental acerca da necessidade de fazer um X na parede para não “interromper a sequência”. Com os meses passando e eu escrevendo tanto mas com qualidade bem baixa (tipo: Aaaaa! Que vergonha! Ninguém pode ler isso!”) e a história ganhando páginas e mais páginas descartáveis e pouco necessárias para a trama que eu não daria para ninguém ler eu comecei a perder um pouco do ânimo, mas lembrei das palavras de Jack Kerouac que li no seu diário sobre como se precisa antes de tudo escrever uma história seguindo seu coração, sem ficar pensado se os outros vão gostar ou não, que precisava antes de tudo ser algo meu, para mim! Até criei um ‘Registro de estados de ânimo’ onde após escrever digo quantas palavras escrevi e como me sinto com a história, se foi um dia bom, se foi ruim mas com uma nova ideia, ou se não escrevi e porque não. Meses como julho e agosto só tiveram um dia sem ter escrito, e também pude aumentar minha meta já que nunca estava escrevendo menos de 600 ou 700! Quando dei um dos melhores trechos para uma amiga ler e dar sua opinião sobre minha escrita ela manifestou uma real vontade de ler mais da história, e eu entrei em um pânico interno, porque ninguém poderia ler aquela coisa que eu escrevia só para mim! Para isso eu precisaria fazer um processo de reciclagem em massa e pegar o que havia de interessante na história e encontrar um fim coerente para o qual não precisassem escrever 500 páginas para alcançá-lo (já que minha original parecia não ter fim, havia mais 60.000 palavras e estava longe do fim) Então comecei a escrever a história toda de novo, mas dessa vez sabendo onde eu queria chegar e tendo um esqueleto em mãos, com todos os tópicos de com a sequência das cenas e qual as cenas que seriam reaproveitadas mas precisariam ser reescritas, então eu estava a escrever mais e 1.000 palavras por dia, e chegando toda hora ás 2.000 palavras que Stephen King diz ser o necessário por dia para quem quer escrever de verdade. No dia 16 de novembro eu tinha 40.000 palavras feitas em um mês e meio e uma história bem interessante em mãos que logo mandei à minha amiga que estava toda hora perguntando quando eu lhe daria para ler. Se bem que nesse aspecto fiquei um pouco frustrada, já que se passaram três meses e ela não deu indícios de ter lido mais que uma página. O resto de novembro ficou vazio porque usei a desculpa de que precisava de férias merecidas por ter terminado uma história que realmente achei boa. Em dezembro só há três X marcados porque usei a desculpa de que não havia nada para ser escrito, já que depois de tantas ideias boas desperdiçadas com o fato de eu não escrever, minha fonte de criatividade se esgotara. Mas o fato é que eu consegui terminar minha primeira história , logo eu que tenho guardado aqui nada menos que 13 projetos iniciados e sem um fim que me fizeram crer que eu seria incapaz de colocar um ponto final em alguma história. Agora havia começado bem o ano escrevendo em todos os primeiros dias, mas logo murchando na ideia de que minhas histórias estavam muito desinteressantes e resultando em um mês com o calendário meio vazio, o que me fez voltar para o ficção em tópicos buscar um gás. Fevereiro acabou sendo um bom mês com poucos dias vazios, mas agora tenho um novo problema: Todo dia quando olho o momento que parei nas minhas histórias me sinto incapaz de prosseguir em alguma, e para não ficar sem escrever eu começo a escrever uma nova! Estou com sete histórias! Escrevendo às vezes em uma ou outra com a perspectiva de só levar em frente uma delas, também com a esperança de que será igual à minha primeira finalizada e que eu poderei depois reescrever de uma maneira melhor e coesiva, assim que eu encontrar o núcleo do que estou a escrever. Mas o importante é: Escrever sempre! Porque acredito que nada faz com que eu me compreenda melhor do que isso.

  5. Daniel 27/04/2017

    Olá, Diego. Esse texto é um pouco antigo, mas foi o primeiro que li do site. Admito que me tocou muito profundamente, como todos os seus que li depois. O site me ajuda muito, todos os dias, e espero que ele sempre esteja aqui. Sou muito grato pelas suas caronas.
    Continue com o ótimo trabalho.

Gostou do texto? O autor vai adorar saber. Deixe um comentário e compartilhe o artigo com outros escritores.

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