Aprenda a criar realidades com palavras

4 dicas para terminar seu livro trancado em um quarto de hotel

Por Diego Schutt em 29/11/2016 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, inspiração
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Texto do escritor convidado André Timm 

Se quiser escutar este texto, aperte play no painel acima.

“All work and no play makes Jack a dull boy.”

Tomando o rumo oposto às célebres palavras datilografadas à exaustão na máquina de escrever de Jack Torrance, personagem de “O Iluminado”, interpretado por Jack Nicholson na adaptação do livro para o cinema, resolvi me isolar em um hotel do interior de Santa Catarina a fim de me dedicar exclusivamente a muito trabalho (e nenhuma diversão), quebrando, assim, um longo período de procrastinação na escrita de um livro.

Esses dias de reclusão resultaram em aprendizados válidos sobre meu processo de criação.

Enfrente seus Fantasmas

Em literatura, costumamos chamá-los de personagens. Para mim, um dos processos mais difíceis durante a concepção de uma história é a transposição do etéreo para o concreto. Ou seja, partir de uma série de conceitos e ideias frágeis e imprecisas até o momento em que essas pessoas inventadas começam a soar críveis, ganham identidades, emoções, vontades, características, memórias e, portanto, um passado, ainda que pouco dele venha à tona explicitamente na narrativa.

Enfrentar esses fantasmas costuma ser um processo ardiloso e as mínimas distrações podem ser o pretexto perfeito para que esse confronto demore para acontecer ou nunca aconteça. Seus personagens querem sua atenção. Quando você se isola em um quarto de hotel, não há muitas alternativas a não ser escutá-los, o que não deixa de ser, em certa medida, escutar a si mesmo.

Leve um Esqueleto 

Escritores costumam ser classificados de duas formas distintas em relação à maneira como desenvolvem suas narrativas. Jardineiros são aqueles que improvisam. Escrevem livremente e vão descobrindo o rumo da história conforme a desenvolvem. Já os arquitetos são os que se preocupam com o desenvolvimento prévio da estrutura narrativa, criam em um esqueleto do enredo antes de escrever, de fato. Como costumo produzir seguindo mais a segunda corrente, dos arquitetos, chegar no hotel com um esqueleto da história pronto foi fundamental. Nesse esqueleto, incluí uma síntese de todas as cenas do romance.

É importante considerar que, até o momento em que me hospedei no hotel, eu vinha desenvolvendo essa ideia há cerca de dois anos. Essa preparação anterior me ajudou a ganhar uma visão macro da história do início ao fim, encontrar o tom da narrativa, definir o ponto de vista e outros detalhes sobre os modos de narração. Isso me permitiu focar somente em escrever, dar corpo a essa estrutura, recheando-a com os detalhes da história. Sem essa preparação, dificilmente teria conseguido escrever 120 páginas em 5 dias (o romance tem 150 páginas, mas eu já havia escrito cerca de 30).

Absolva os Culpados 

Essa é mais uma das vantagens de se isolar completamente para escrever: você precisa absolver quem considera os culpados usuais por sua falta de progresso: a pesquisa para desenvolver o universo de ficção, a temporada daquele seriado que você precisa acabar, as obras no vizinho, o cachorro latindo, sua lista de leitura, filhos, as redes sociais. Não importa que pretextos (reais ou inventados) você usou até aqui para deixar para depois. Esqueça tudo e foque em escrever.

Ao assumir o compromisso de abraçar o exílio temporário, você cria as condições necessárias para que essas distrações findem por um tempo ou, ao menos, diminuam drasticamente. É claro que, uma vez isolado, você sempre pode ir embora, passear pela cidade, fazer compras, assistir à tevê, mas isso seria o equivalente a se matricular em uma academia somente para usar o vestiário. Perda de tempo, dinheiro e oportunidade.

Exorcize sua Autossabotagem 

Sem sombra de dúvida, esse foi o ponto mais árduo da experiência. Trancado em um quarto, saindo basicamente apenas para as refeições, eu escrevia 3 turnos por dia, das 8h às 23h, em média. Quando você mergulha no processo de escrita com essa intensidade, a autossabotagem ganha corpo e constantemente busca minar sua confiança naquilo que está sendo produzido. Perdi a conta de quantas vezes ao dia pensei em desistir, mas a cada revés eu procurava me lembrar que, mesmo que estivesse escrevendo o pior de todos os romances, ainda assim, minha meta era simplesmente chegar ao ponto final derradeiro.

De fato, muitas cenas ficaram péssimas, mas depois, em casa, tive tempo de reescrevê-las, lapidando o que julguei que precisava ser melhorado. Há um momento do processo de escrita em que é preciso que seu eu-crítico seja desligado, caso contrário você trava. Foi justamente isso que me trancar em um quarto de hotel me permitiu fazer: escrever com o único objetivo de dar corpo para a ideia de história que eu já havia desenvolvido.

 

Depois de voltar para casa e revisar o texto, inscrevi o livro em um concurso chamado Maratona Literária, promovido pelo selo Carreira Literária em parceria com a editora carioca Oito e Meio. O romance foi o vencedor do concurso na categoria prosa, concorrendo com mais de 500 originais de todo o Brasil, tendo como premiação a publicação e o lançamento do livro.

Se você ficou curioso para ler o resultado, pode ler as primeiras páginas do romance aqui.

 

Sobre o autor: André Timm, criador do projeto 2 mil toques, autor do livro de contos “Insônia” (Design Editora, 2011) e do romance “Modos inacabados de morrer” (2016), vencedor da Maratona Literária da editora Oito e Meio na categoria prosa.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais propósito, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra e Japão. Há 6 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

2 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Nícolas Arths. 05/12/2016

    Este é um dos melhores textos do Ficção em Tópicos que eu já li.

  2. alex carlos 09/01/2017

    Me deu uma vontade enorme de me isolar em um quarto de hotel, pra acabar meu manuscrito. Texto muito bom, o áudio também foi muito útil, fui acompanhando com sua leitura, muito bom.

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