Aprenda a criar realidades com palavras

Os dois momentos mais intensos de todo enredo

Por Diego Schutt em 25/11/2016 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, storytelling, técnicas
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O enredo de uma história tem dois grandes marcos estruturais: o ponto de virada e o clímax. Para entender a importância e a função desses dois acontecimentos na narrativa, imagine uma ponte suspensa com dois pilares.

Tudo o que está na parte esquerda da ponte, antes do primeiro pilar, é uma introdução ao universo de ficção da história, onde o foco é apresentar e caracterizar o protagonista e outros personagens importantes. O primeiro pilar dessa ponte é o ponto de virada, o momento em que um determinado acontecimento desestabiliza a vida do protagonista em algum nível, desperta nele um desejo e dá para o leitor um senso da direção em que a narrativa vai seguir.

O meio da ponte, entre o primeiro e o segundo pilar, é o corpo da história, onde o foco é, progressivamente, intensificar o conflito introduzido no ponto de virada e mostrar as tentativas do protagonista para resolvê-lo. O segundo pilar é o clímax da história, onde o foco é mostrar o protagonista enfrentando o momento mais intenso e crítico do conflito. O que vem depois do segundo pilar, na parte direita da ponte, é a resolução da história.

Esses dois marcos do enredo, o ponto de virada e o clímax, são os acontecimentos de maior impacto na estrutura do texto.

Eles representam, respectivamente, o momento em que o escritor determina a relevância do conflito do personagem (cria expectativas no leitor) e o momento em que ele revela sua interpretação sobre tudo o que aconteceu durante a história (corresponde, frusta ou surpreende as expectativas do leitor). Expectativa é um conceito fundamental nesse contexto e, por isso, é importante que você entenda a definição deste termo em mais detalhes.

Digamos que você vai à festa de aniversário de um tio rabugento, simplesmente para ser educado, imaginando que vai ser uma chatice sem tamanho, mas você acaba se divertindo mais do que imaginava. Como suas expectativas eram baixas, qualquer acontecimento positivo inesperado tem um peso maior.

Agora digamos que seu tio é super divertido e as festas de aniversário dele são sempre fantásticas. Você está antecipando esse dia há meses, imaginando o quanto vai se divertir. Como suas expectativas são altas, qualquer acontecimento negativo inesperado tem um peso maior.

Nos dois casos, você criou uma imagem mental de como seria a experiência. Se o que aconteceu correspondeu ao que você imaginava, você talvez mencione sua ida ao aniversário para alguns amigos, sem grande entusiasmo. Mas se o que aconteceu foi muito diferente do que você imaginava, você vai relatar o que aconteceu como uma história, carregada de emoção e excitação.

Uma história é um acontecimento (ou uma série de acontecimentos) que surpreende as expectativas do protagonista. 

Então o que são expectativas? São modelos mentais que carregamos sobre o mundo, são as referências às quais comparamos tudo o que nos acontece para formar nossa opinião. Criamos nosso repertório de expectativas ao longo de toda a vida. As experiências que tivemos na infância (mesmo as que não lembramos), na adolescência e na vida adulta formam uma rede de conexões singular, uma forma única de olhar para o mundo.

Nossas percepções são profundamente influenciadas por nossas expectativas. Toda vez que julgamos nossas interações com as pessoas ou com o mundo, comparamos a realidade, o que acontece de fato, com o que acreditávamos que iria acontecer. A diferença entre expectativa e realidade indica o grau de intensidade emocional e impacto que damos as nossas experiências.

Clichês nos incomodam tanto justamente porque nos oferecem algo que já sabemos ou esperamos, o que resulta em experiências de baixa intensidade emocional e impacto.

Como, então, podemos criar experiências de alta intensidade emocional e impacto em histórias de ficção? Considerando cuidadosamente a escolha dos dois grandes marcos estruturais do enredo, já que esses momentos criam os modelos mentais que servirão de referência para o leitor decidir, primeiro, se vai seguir lendo o texto e, segundo, sua percepção final sobre a história. Abaixo, alguns pontos para você considerar:

Ponto de virada

  • Que acontecimento concreto desestabiliza a forma padrão como o protagonista pensa ou se comporta no universo da história e tira ele de sua zona de conforto?
  • Esse acontecimento coloca o personagem sob pressão e o força a reagir imediatamente? Que reação é essa?
  • Como esse acontecimento afeta concretamente, psicologicamente ou socialmente a vida do personagem?
  • Que nível de conflito oferece uma perspectiva original sobre o tema da história? Como você pode desenvolver o texto de forma a explorar o conflito do ângulo mais inesperado e imprevisível?

Clímax

  • Qual é o momento mais intenso da história, quando descobrimos se o protagonista vai ou não alcançar o desejo/objetivo que o acontecimento do ponto de virada despertou nele?
  • O que muda na vida do protagonista quando comparamos quem ele era antes do ponto de virada e depois do clímax?
  • O que muda na visão do leitor sobre o tema central quando comparamos o que ele sabia quando começou e terminou de ler o texto?
  • Que acontecimento, situação, imagem, informação ou conceito sintetiza a essência do que você está tentando expressar e ajudará o leitor a entender o sentido da história e como tudo se encaixa? Qual o momento em que a ideia-chave do texto faz sentido?

Não olhe, entretanto, para o ponto de virada e o clímax da história como elementos que você precisa decidir antes de começar a escrever. Tentar impor uma estrutura específica a uma ideia pouco madura pode limitar as possibilidades de desenvolvimento da narrativa.

Foque, primeiro, em clarificar que história você quer contar. Só então considere que acontecimentos teriam força o suficiente para motivar o leitor a cruzar a ponte que você ergueu.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

4 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Bruno Bonfim 02/12/2016

    Diego,

    artigo simplesmente incrível. De verdade!

    Trata com clareza dos momentos que devem ser minimamente pensados para causar a impressão esperada/desejada no leitor, quase forçando com que ele continue a virar as páginas.

    Poderia me indicar algum outro material sobre os momentos de apresentação do Ponto de virada e do clímax? Sem fórmulas prontas, como esperado.

    Exemplo, como ter noção do quanto apresentar da história/personagens para perceber que a hora do Ponto de virada chegou?

  2. Author
    Diego Schutt 08/12/2016

    Oi Bruno

    Pretendo escrever em mais detalhe sobre ponto de virada e clímax. A respeito da sua pergunta sobre como ter noção do quanto apresentar da história/personagens para perceber que a hora do Ponto de virada chegou, é difícil definir com precisão. Como mencionei no artigo, em cada história, esse momento é diferente. De uma forma geral, é interessante que você introduza o ponto de virada o mais cedo possível no enredo porque é nesse momento que história, de fato, começa. Releia o que escreveu e se pergunte: se eu tirar essa informação, o ponto de virada tem o mesmo impacto? O leitor vai se envolver com o conflito da mesma forma? Caso sim, talvez tal informação não seja importante. Caso não, tal informação pode ser fundamental para que o ponto de virada tenha o impacto desejado.

    Todas as informações incluídas antes do ponto de virada têm como objetivo preparar o leitor para se envolver com o conflito do personagem. É uma decisão tanto estrutural (para provocar certa reação no leitor) quanto artística (que detalhes sobre o universo de ficção o escritor considera importante o leitor entrar em contato antes desse marco do enredo).

    Espero ter esclarecido um pouco melhor sua dúvida. Em breve, mais conteúdo sobre esse tópico. 🙂

    Obrigado pela leitura.

    abs
    Diego

  3. Thiago 25/12/2016

    Muito interessante este artigo. Com certeza salvarei aos favoritos para estudá-lo melhor e entender estes conceitos de expectativa, pois eles ajudam no feedback da história futuramente.

  4. Gabriel 12/01/2017

    Cara, esse artigo me ajudou muito. Estava esquecendo do quanto esses dois pontos são importante para a história.
    Muito obg

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