Aprenda a criar realidades com palavras

Onde sua história precisa começar para envolver o leitor

Por Diego Schutt em 16/11/2016 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, storytelling, técnicas
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Ao desenvolver uma história, é importante você considerar qual é o ponto de virada do enredo, ou seja, o momento em que um determinado acontecimento desestabiliza a vida do protagonista em algum nível, desperta nele um desejo e dá para o leitor um senso da direção em que a narrativa vai seguir.

O começo de uma história é tudo o que acontece e todas as informações compartilhadas com o leitor antes do ponto de virada. Tais informações são importantes porque serão as referências do leitor para interpretar tudo o que acontece a partir da perspectiva do protagonista. Então, ao considerar onde sua história deve iniciar, pense nas informações que você precisa incluir no texto para criar um pano de fundo que ajude o leitor a entender o impacto de tal acontecimento na vida do personagem.

Por exemplo, se o ponto de virada de uma história consiste na descoberta do protagonista que ele tem uma doença terminal e que lhe restam poucos meses de vida, o que determina a direção que a narrativa vai tomar é a interpretação do personagem sobre tal acontecimento. Qual a primeira coisa que passa pela cabeça desse homem ao escutar essa notícia? Os filhos que ele não verá crescer? A preocupação com sua mãe idosa, que não terá quem cuide dela? Os projetos profissionais que ele não terá tempo de realizar?

Cada uma dessas perguntas sugere o desenvolvimento de uma história diferente e exige que a narrativa comece de uma forma particular, fornecendo informações sobre o universo da história de forma que, no momento em que o leitor se deparar com o ponto de virada, ele possa entender seu significado na vida do personagem, empatizar com seu drama e, assim, se envolver com a história.

Portanto, a essência de um ponto de virada não é o acontecimento externo que desestabiliza a vida do personagem, mas sim sua interpretação sobre tal acontecimento no contexto de sua vida.

Essa interpretação é o que chamamos de conflito da história, o qual será o grande motivador de mudança de atitude do personagem. A reação de tal personagem a esse ponto de virada nos dá pistas sobre o conflito pessoal, psicológico ou social que serão desenvolvidos ao longo do enredo.

Testemunhar esse momento onde o protagonista muda de atitude e entender que desejo o conflito despertou nele é importante para que possamos olhar para tudo o que acontecerá na sequência a partir da perspectiva desse personagem. É isso o que nos permitirá empatizar com ele e nos ajudará a sentir o que ele sente, gerando envolvimento com a história.

Um ponto de virada precisa ser irreversível. Um copo de água que o personagem derruba no sofá não causa um problema irreversível na sua vida. Mas se esse mesmo copo cair sobre seu computador e destruir o arquivo com a apresentação que ele precisa entregar para o chefe no dia seguinte, neste caso temos um ponto de virada, já que esse acontecimento provoca no personagem um desejo imediato, que o força a reagir agora, neste exato momento, não amanhã, na semana que vem ou no mês que vem.

Essa “virada” é uma reversão do senso de controle que o personagem sente que tem sobre sua vida. Seu desejo de reestabelecer esse controle é o motor da história, é o que cria tensão e abre possibilidade para você desenvolver o conflito ao longo do enredo, nos mostrando as diversas tentativas do personagem para alcançar seu objetivo.

Isso não significa que o ponto de virada precisa trazer uma mudança grandiosa e espetacular para a vida do protagonista. O acontecimento externo é menos importante que a reação do personagem e o significado que ele dá para tal acontecimento. Do ponto de vista do leitor, o ponto de virada é a última porta de entrada da história. Caso, até aqui, ele não se envolva em algum nível com o conflito do personagem, as chances do leitor abandonar o texto aumentam consideravelmente.

Como, então, criar um ponto de virada para introduzir na vida do seu protagonista? 

Pensando em acontecimentos que não podem ser ignorados por ele, que exigem uma resposta imediata, que forcem o personagem a perceber que seguir sua vida como antes não é mais uma opção, que o obrigue a reconsiderar a forma como ele pensa, como ele se relaciona com os outros ou como ele se comporta na sociedade.

Introduza o ponto de virada o mais cedo possível no enredo, mas não antes de tal acontecimento poder envolver o leitor, provocar empatia com o drama do personagem e despertar sua curiosidade sobre o que acontecerá na sequência. Em cada história, esse momento é diferente. Ele pode acontecer na primeira linha do texto – caso o drama da situação em que o protagonista se encontra seja imediatamente compreensível, despertando empatia imediata do leitor – ou pode acontecer na vigésima página da narrativa – caso um entendimento do universo de ficção e do contexto de vida do personagem sejam imprescindíveis para que o leitor dê significado para o ponto de virada.

Mas introduzir uma mudança na vida do protagonista não basta para você desenvolver sua história. O personagem precisa estar motivado para reagir a esse acontecimento. O que são motivações? São as explicações que inventamos para justificar nossas ações.

Ao criar pontos de virada para o protagonista da sua história, considere os 3 níveis de motivação do personagem:

  • Motivação Externa: é a explicação racional do personagem para agir. É a motivação externa que define os comportamentos do personagem. Se a mudança que você introduz na vida do protagonista é a descoberta de uma doença terminal, por exemplo, a motivação externa de um homem para se tornar um traficante de drogas pode ser deixar dinheiro para sua família. Trata-se de um desejo concreto, mensurável, consciente.
  • Motivação Interna: é a explicação emocional do personagem para agir. É a motivação interna que define a identidade do personagem. No caso do homem citado no exemplo anterior, sua motivação interna para deixar dinheiro para a família pode ser provar para si mesmo que ele não é inofensivo e fracassado, como o personagem se sentiu a vida toda. Trata-se de um desejo abstrato, subjetivo, sobre o qual o personagem pode estar consciente ou não.
  • Motivação Social: é a explicação moral do personagem para agir. É a motivação social que define a personalidade do protagonista. No caso do mesmo personagem citado no exemplo anterior, sua motivação social para deixar dinheiro para a família pode ser projetar a imagem de um marido e pai responsável e preocupado, que fez tudo que estava ao seu alcance para garantir um futuro confortável para sua família. Trata-se de um desejo arquetípico, idealizado, sobre o qual o personagem pode estar consciente ou não.

Você não precisa explicar no texto cada ação ou pensamento do seu protagonista a partir de uma dessas três motivações. Isso é mais uma ferramenta para você, escritor, entrar na mente do personagem e entender a origem de suas decisões, ações e emoções e, consequentemente, parar de pensar SOBRE o protagonista, começar a pensar COMO o protagonista e, assim, escrever de uma forma mais verdadeira e envolvente.

Sobre o Autor

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Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

6 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Geovane 17/11/2016

    Muito Bom, obrigado pelas dicas

  2. Maria 05/12/2016

    Muito bom mesmo, adoro seus textos!

  3. Thiago 25/12/2016

    E se eu lhe dissesse que minha história há vários pontos de viradas… Isso seria algo ruim?

    Tipo, o personagem toma uma direção que leva ele a tomar outras direções na história e consequentemente vai evoluindo com aquilo, mudando seus conceitos e amadurecendo com as consequências.

  4. Author
    Diego Schutt 06/01/2017

    Thiago, de fato, uma história pode ter vários pontos de virada se considerarmos os vários acontecimentos do enredo que desestabilizam a vida do protagonista em algum nível.

  5. Larissa 21/01/2017

    Olá, Diego!
    Adorei a dica. Estou criando uma pasta com arquivos de personagens (como se fossem históricos escolares, rs) que me ajudam a conhecê-los melhor e saber com vão agir durante a história, além de ser um ótimo exercício de escrita. Obrigada!

  6. GEOVANI SILVA 16/02/2017

    Muito bom. São as melhores explicações que já li.

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