Aprenda a criar realidades com palavras

Por que você ama seus livros favoritos?

Por Diego Schutt em 07/09/2016 Tópicos: escrever, inspiração, storytelling
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O ótimo vídeo do The School of Life “Why we love certain books” reflete sobre porque certos livros, mesmo aqueles escritos há décadas ou até mesmo séculos atrás, parecem entender perfeitamente um problema pelo qual estamos passando ou conseguem explicar com precisão certas emoções que temos dificuldade em articular com palavras.

O segredo para criar narrativas que tenham esse efeito no leitor? Escrever com sinceridade. O que é escrever com sinceridade? É ter a habilidade e a coragem para compartilhar suas emoções e pensamentos mais íntimos e refletir sobre eles na frente do leitor. É pensar naquilo que se acredita ser verdade e mostrar para o leitor que experiências ilustram sua conclusão. É escrever para expressar, não para impressionar.

Quanto mais histórias lemos, melhor entendemos nossa própria mente. Um escritor é um explorador de estados mentais e emocionais e sua grande habilidade está em conseguir expressar com palavras as partes misteriosas, abstratas e ignoradas da nossa consciência. Ao fazer isso, ele desperta uma sensibilidade que nos permite refletir sobre o mundo e sobre nós mesmos de uma forma mais crítica e complexa. Isso é fazer arte.

Arte tem o poder de nos ajudar a entrar em contato com emoções importantes, mas com as quais perdemos contato. Artistas emprestam dignidade para nosso sofrimento, iluminando e expressando nossa dor de uma forma que torna possível lidarmos com ela. Arte nos traz conforto em momentos de desespero, nos oferece uma visão positiva da vida quando estamos rodeados de negatividade, nos reconecta com nossos instintos quando lógica e razão estão nos sufocando, nos ajuda a entender nossa conexão com outras pessoas e com o que nos torna humanos.

O que todas as histórias que consideramos nossas favoritas têm em comum – seja na forma de livros, filmes, seriados de tv ou peças de teatro – é o reconhecimento do desejo sincero do escritor de iluminar dentro de nós algo que ele iluminou dentro de si mesmo.

Abaixo, minha tradução livre da versão em texto do vídeo “Por que amamos certos livros”.

Você está virando as páginas de um livro e uma coisa muito estranha – e muito bacana – começa a acontecer. O livro entende você. Obviamente, o autor – que talvez já tenha até morrido séculos atrás – nunca conheceu você. Mas ele escreve como se tivesse o conhecido. É como se você tivesse confessado seus segredos para ele e, com base no que você compartilhou, ele escreveu seu livro, transformando, obviamente, o que você o contou em uma história sobre pessoas com nomes diferentes, ou em um ensaio que não cita o seu caso em particular, mas que perfeitamente o poderia citar, porque o que está escrito é fiel a sua experiência.

Nunca sentimos que somos compreendidos o suficiente, até mesmo por pessoas que genuinamente gostamos, a quem estamos emocionalmente conectados e que, em certos momentos, talvez sejam bastante generosas, amáveis e compassivas quando nos dedicam atenção. Uma solidão permanente persiste dentro de nós, mesmo quando nossa vida está, de uma forma geral, indo bem. Um livro que entende você parece saber de tudo isso e é capaz de mudar a forma como você se sente.

O livro em questão talvez converse nesse nível mais íntimo com milhões de pessoas, como a série “Harry Potter”. Ou talvez esse livro seja uma pérola preciosa e você seja uma das poucas pessoas que o conhece. Esse livro que mexe com você talvez seja uma autoajuda sobre sexo, que trata das mesmas questões que estão lhe incomodando. Ou você talvez sinta que “Mademoiselle de Maupin”, escrito por Theophile Gautier na metade do século dezenove – que conta a história de um homem e uma mulher, ambos apaixonados pela personagem central, a cantora de ópera Madeleine de Maupin – foi escrito, por um milagre histórico, exatamente para você.

Um livro demonstra que conhece você quando aponta – e leva extremamente a sério – um problema importante que está assolando sua existência, mas que, com frequência, é ignorado.

Um exemplo disso é quando Harry Potter está morando com os Dursleys, uma situação que evoca lembranças de quando nos sentimos um alienígena em um ambiente familiar. Por um longo período de tempo, Harry tem que viver ao redor de pessoas que não tinham a menor ideia sobre sua real natureza, que nunca reconheceram suas qualidades, que o consideravam bizarro, precisamente pelas características que, em outro lugar, o tornariam popular e importante. O livro toca profundamente na emoção de não sermos apreciados por quem somos.

Em muitos livros, ficamos entusiasmados porque encontramos compaixão por emoções escondidas, que merecem atenção e generosidade, mas que normalmente são encaradas com desprezo. É isso o que aconteceu com o livro “Lost Illusions”, de Balzac. O personagem central, Lucienne, não é uma pessoa de caráter invejável. Ele é egoísta e vaidoso, ele tira vantagem dos amigos, ele comete diversos erros em sua carreira profissional.

Balzac não está apresentando esses fatos tentando dizer que eles não são ruins, mas o escritor está profundamente atento às forças ocultas que estão influenciando o comportamento externo do personagem (seu desejo de ser bem sucedido em um mundo onde todos estão contra ele) e suas emoções internas (seu medo de ser humilhado). Fica claro no livro que Balzac gosta muito deste personagem, porque os aspectos mais negativos de sua personalidade estão sendo escutados com empatia. “Você foi machucado, você machucou outras pessoas”, e o livro diz: “eu compreendo você”.

No livro “Middlemarch”, a escritora Geroge Elliot conta a história de Dorothea Brooke. Ela é uma pessoa fácil de se ridicularizar. Ela tem algumas qualidades, ela deseja ajudar o mundo, mas concretamente ela nunca faz o suficiente para alcançar qualquer resultado. Seu casamento é muito infeliz e ela desperdiça grande parte da sua vida se lamentando. De uma forma óbvia e superficial, ela é a culpada por tudo isso. Ela tem várias oportunidades para mudar, mas ela desperdiça todas as suas chances.

Essas são informações que não estamos dispostos a confessar para os outros, mas elas descrevem uma dimensão da experiência de muitas pessoas. Muitas vezes, nos sentimos como Dorothea. A escritora George Eliot não está dizendo que isso é algo positivo. O que ela oferece é validação. Ela está dizendo “isso pode acontecer com uma pessoa sensata e cheia de boas intenções”. Esse reconhecimento ajuda você a se sentir mais humano, menos anormal.

Sermos compreendidos com generosidade é ótimo, obviamente, mas nossos livros favoritos fazem algo maior do que isso. Eles nos ajudam na prática porque nos oferecem companhia nos momentos em que nos sentimos mais sozinhos e precisamos lidar com partes difíceis da nossa personalidade.

Às vezes, apesar de todas as pessoas ao nosso redor, nos sentimos sozinhos e culpados. Essa solidão só aumenta o tamanho do nosso sofrimento.

Somos assombrados pela preocupação que nenhuma pessoa sensata poderia sentir algo diferente de escárnio ou desprezo por nossos problemas.

Temos medo de compartilhar esses pensamentos com nossos amigos porque antecipamos julgamento e rejeição. Um livro que nos entende é como um pai, uma mãe ou um amigo ideal, que valida nossa forma de sofrer. Nossos sofrimentos mais estranhos – ou nossas alegrias – são reapresentados como partes válidas da experiência humana, que podem ser recebidas com compaixão e gentileza.

Ainda que essa relação com o escritor aconteça apenas através de tinta impressa em papel, é definitivamente uma forma de amor, talvez uma das formas mais profundas de amor que vamos encontrar na vida.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais propósito, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra e Japão. Há 6 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

2 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Renata Rocha 19/10/2016

    Acho que ainda não encontrei palavras para descrever a grandiosidade desse texto. Simplesmente perfeito. Nunca pensei que veria uma descrição tão clara dos meus sentimentos pelos livros.

  2. Mário 21/12/2016

    Espetacular.

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