Aprenda a criar realidades com palavras

Você vai casar com a ideia errada e escrever textos ruins

Por Diego Schutt em 15/09/2016 Tópicos: escrever, escrita criativa, inspiração
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O ícone usado na imagem, originalmente criado por Gregory Sujkowski, foi modificado e adaptado. Licença para uso disponível aqui.

Você está na rua, a caminho de casa. Você está cansado e aquela dor nas costas está incomodando mais do que o normal. Sua cabeça está ocupada com os mesmos problemas e ansiedades de sempre. Você lembra da geladeira quase vazia e decide passar no supermercado. Depois de pagar, enquanto coloca as compras na sacola, você enxerga uma bela ideia perto da porta de saída. Vocês trocam olhares e sorrisos, mas lhe falta coragem para puxar conversa quando você passa por ela.

Quase em casa, você percebe que a ideia está o seguindo. Você diminui o passo, olha para trás algumas vezes e, finalmente, num rompante de ousadia, a convida para um café. No dia seguinte, você a chama para assistir a um filme. No fim de semana, vocês ficam uma noite inteira grudados. Quanto mais tempo você passa com a ideia, mais você se apaixona. Ela é inteligente e sensível, ela faz você se sentir importante e original.

Depois de uma semana inesquecível juntos, preenchido de certeza e euforia, ali mesmo, no seu quarto, sob a luz da tela do computador, tendo seus livros favoritos como testemunha, vocês se casam. Mas a lua de mel termina mais cedo do que você esperava. A ideia começa a revelar suas inseguranças e imperfeições. As qualidades que fizeram você se apaixonar por ela agora provocam irritação e frustração.

Você se precipitou, casou por impulso. Embriagado de paixão, você estava cego para todos os defeitos dessa ideia. Vocês são claramente incompatíveis. Se fosse amor verdadeiro, você não estaria se sentindo tão angustiado e atraído por outras ideias, certo?

Todo texto que a gente escreve é um casamento com uma nova ideia.

Imaginamos um futuro de felicidade e realização e investimos emocionalmente nesse tipo de relação na expectativa de sermos recompensados com a sensação de preenchimento que sentimos ao terminar de escrever um texto. Por isso, um dos nossos maiores medos como escritores é que esse casamento não dê certo. Nos desesperamos ao considerar a possibilidade de termos escolhido a ideia errada, de termos investido nosso tempo precioso e limitado em uma relação que começou cheia de paixão, mas que agora só traz angústia e ressentimento.

A verdade é que, independentemente do quão preparado, maduro e experiente é o escritor, é inevitável: eventualmente, todos nós vamos casar com a ideia errada e nos perguntar: “Será que essa ideia é boa mesmo? Que outra ideia seria mais fácil de desenvolver? Será que o problema sou eu?”.

Certas ideias, a princípio, parecem promissoras em teoria, mas na prática se mostram inviáveis ou pouco interessantes. Em tais casos, insistir nesse relacionamento só vai deixar você mais inseguro e infeliz. Nessas circunstâncias, divórcio é o melhor caminho, contanto que essa decisão não seja baseada na fantasia de que você vai, eventualmente, conhecer a ideia certa, perfeita, que vai apenas lhe trazer alegria e excitação. Entretanto, é preciso entender que a grande maioria das suas ideias vão provocar em você certa ansiedade e inquietação. Ao invés de abandoná-las, experimente investir tempo em conhecê-las mais profundamente.

Ideias verdadeiramente originais, em algum momento do processo de criação, se revelam incompletas e imperfeitas. Elas nos desafiam a trabalhar mais do que acreditávamos ser necessário para desenvolvê-las em todo o seu potencial. Elas exigem paciência e humildade para decifrar suas complexidades e ambiguidades. Elas nos ensinam que o sucesso de um relacionamento deve ser medido tanto pelos momentos bons, quanto pela disponibilidade de ambas as partes para negociar soluções quando expectativa e realidade estiverem desalinhadas. Como diz Alain de Bottom neste artigo, compatibilidade é resultado de amor, não deve ser precondição para um relacionamento.

Precisamos abandonar a visão romântica de que é responsabilidade das nossas ideias provar para o mundo (e para nós mesmos) que somos inteligentes, sensíveis e importantes.

Precisamos reajustar nossas expectativas e adotar uma visão mais despretensiosa e modesta. A única responsabilidade das nossas ideias é nos fazer companhia. Algumas são ótimas parceiras quando queremos nos divertir, mas não são boa companhia quando estamos melancólicos. Algumas exigem dedicação exclusiva, outras não se importam se você trabalhar em outras ideias ao mesmo tempo. Algumas são partes de nós que desejam a atenção de muitas pessoas, mas muitas querem apenas a nossa atenção.

Por isso, é importante que a gente se esforce para reconhecer a individualidade das nossas ideias. Cada uma tem seus próprios desejos, qualidades e dificuldades. Quando aprendemos a escutá-las de verdade, a considerar suas expectativas e limitações, sem filtrar tudo a partir da perspectiva do nosso ego, nossas relações se tornam muito mais enriquecedoras.

Talvez a melhor forma de fazer isso é encontrando sentido e prazer no simples ato de escrever. Seu casamento com ideias, por mais intenso e positivo que seja, é sempre temporário. O relacionamento mais importante e permanente é o que você tem com seu processo de criação.

Ao aceitar que, inevitavelmente, você vai casar com muitas ideias erradas, a preocupação obsessiva com o felizes para sempre do futuro deixa de ser importante e você entende que um casamento que dá certo não é aquele em que a escrita vem fácil, mas aquele que ajuda você a se tonar um escritor um pouco melhor do que era há um texto atrás.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais propósito, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra e Japão. Há 6 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

5 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Meia Noite o bardo 15/09/2016

    Acho que a sugestão vale tanto para nós escritores quanto para qualquer outra profissão. Se bobear tbm vale pros problemas do coração =p

    Eu conheci teu blog a pouco tempo mas até agora, não há um único artigo pelo qual eu não tenha me encantado. Parabéns pelo projeto e por favor continue.

  2. Lu Cavichioli 18/09/2016

    Eu simplesmente adorei ler o texto e precisava muito, pra acordar de sonhos, de ilusões… De que tudo que escrevo é absolutamente aceitável, e não é assim. Infelizmente o autor entende que cada texto é um filho, (comigo é sempre assim), e filhos a gente sempre acha que são perfeitos. Mas já aprendi a distinguir.

    De qualquer forma,seu texto é rico e em muito acerescenta, obrigada.

  3. Maria 19/09/2016

    A leitura deste texto me tornou uma aspirante a escritora “um pouco melhor do que eu era há um texto atrás”, obrigada!

  4. Belo artigo meu caro!

    Aprendi que com o tempo, importante mesmo é saber trabalhar com as ideias que se tem. Muitas resultam em uma poesia, outras em crônicas ou mini-contos… Poucas te darão livros inteiros. A maioria dos livros são conjuntos de ideias compatíveis que formam uma boa história. Sendo assim o leitor terá o prazer de ler varias vezes o seu livro e perceber em cada leitura, aspectos diferentes de sua obra, ampliando a visão da história. Isto é fundamental para um bom livro.

  5. Nícolas Arths. 30/09/2016

    Acho que o ficção em tópicos tá virando muito um blog de textões, além de que todo este texto parece passar aquele tipo de mensagem que um conselho curto e objetivo poderia passar por si mesmo. E o pior, para mim, é que é um conselho que geralmente vai servir apenas para autores iniciantes que ainda estão recém decidindo quais ideias cultivar. Eu, que estou há 5 anos cultivando uma única ideia em milhares de páginas controversas, não vou fazer bom uso deste conselho, e vou continuar acessando o site em busca de sabedoria, muitas vezes sem encontrar nada de novo que me ajude, mas apenas textos grandes que se estendem decorrendo de forma cliché sobre os mesmos velhos conselhos de sempre, que batem aquele sentimento de que a conexão entre o professor e o aluno está já há muito perdida.

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