Aprenda a criar realidades com palavras

Como escrever um primeiro rascunho a partir de uma ideia

Por Diego Schutt em 20/08/2016 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, storytelling
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O texto abaixo, minha tradução livre de uma TED Talk do escritor John Dufresne, descreve em detalhes como jardinar uma ideia para desenvolver o primeiro rascunho de uma história. Dividi o texto nos 7 grandes tópicos que ele aborda durante a palestra.

IDEIA

Quero falar sobre como escrever uma história. O primeiro mandamento para escrever ficção é sente sua bunda na cadeira. Alguns de nós precisam de calças de velcro. Pensar sobre escrever não é escrever. Uma história não existe antes do ato da escrita.

Você está na sua cadeira, mas seu protagonista estará no seu limite. Um homem desesperado tomando atitudes desesperadas. Somente conflito é interessante. Tudo o que você não quer que aconteça com você, sua família e seus amigos deve acontecer com seus personagens. Você ama seu protagonista, mas você deve colocar obstáculos em seu caminho.

Escrever uma história é escolher o caminho mais difícil. Você pega sua caneta e começa na beira de um precipício. Você tenta expressar o inexpressável e isso o deixa nervoso. Você sabe que toda história é um fracasso. Você também sabe que o escritor não se deixa paralisar ou afetar por fracassos, e isso significa que você é corajoso. Você começa sem saber onde vai parar, mas você confia na sua imaginação e no seu processo criativo para levá-lo até lá.

Escreva sobre o que você não entende.

O que você não sabe é mais importante do que o que você sabe porque é isso que envolve sua imaginação. Você segue buscando por significado, mas não por respostas. O principal não é responder, mas questionar. Não é solucionar, mas buscar. Não é pregar, mas explorar. E você também sabe que a vida é mais estranha que a ficção porque ficção precisa fazer sentido.

Não importa o quão brilhante é sua prosa, o quão fascinante é seu protagonista. Se você não tem um enredo, uma estrutura narrativa, se o protagonista não está em busca de algo importante, o leitor vai abandonar sua história. O enredo de toda história é o seguinte: você tem um personagem principal que quer algo intensamente e vai em busca disso, apesar da resistência que ele encontra. No final, ele ganha ou perde. Se você usar essa definição como referência, seu enredo se apresentará para você. Isso vai levar você naturalmente a considerar o tema, o cenário, ponto de vista e outros modos de narração da história.

CONTEXTO

Digamos que você comece com um casal, cujo problema no início da história é a morte da filha, e você deseja observar se o casamento pode sobreviver a essa perda agonizante. A filha do casal, Hope, faleceu. O casal está sozinho em casa, depois do funeral, do enterro e da recepção angustiante – mas obrigatória – para a família e os amigos. Alice está sentada em um canto do sofá, uma xícara de chá em uma das mãos, lenços na outra mão. Grady está sentado na cadeira de couro, os cotovelos nos joelhos, olhando para suas mãos entrelaçadas. Grady acredita que se sua filha Hope o tivesse escutado, ela ainda estaria viva, e ele quer que Alice admita a culpa dela no que aconteceu. E você se pergunta, o que aconteceu?

Quando você escreve uma história, você tem duas opções: você pode mostrar ou contar. Você escreve cenas ou sumário narrativo. Cenas são vívidas e íntimas. Sumários narrativos são distantes e eficientes. Cenas é onde o escritor engaja a imaginação e as emoções do leitor. Tudo que é importante na sua história deve acontecer em uma cena. E esse ressentimento obscuro de Grady é certamente um desses momentos importantes. Então você começa a cena o mais próximo possível do momento em que Grady vai falar sobre a perda da filha.

Se essa é uma história sobre um casamento em perigo, você não precisa mostrar os anos de prosperidade e felicidade do casal. Mas antes que você possa escrever essa primeira cena, você precisa prestar atenção ao contexto que você está criando, porque quando as pessoas falam, elas também estão agindo, e você precisa saber o potencial do cenário onde os personagens se encontram. Cada detalhe dessa sala informa sobre as pessoas que moram naquela casa.

Escrever uma história é fazer arqueologia.

Nem todos os detalhes que você imaginar sobre a história vão aparecer na página, mas o mais importante é que tudo o que você descobrir sobre seu universo de ficção lhe permitirá conhecer mais profundamente os personagens. Os detalhes que vão aparecer na página são apenas os mais vívidos e significativos.

PERSONAGENS

Agora que você conhece seus personagens um pouco melhor, você se sente mais confiante para voltar a pensar na cena. A gravata azul de Grady está enfiada no bolso da sua jaqueta. Você percebe que ele tem uma cicatriz no pulso esquerdo e você sabe que toda cicatriz conta uma história. Mas será que a história dessa cicatriz é relevante para a sua história? Você investiga se quiser descobrir. Ele tem um “milagro” fixado em sua lapela, um pequeno broche religioso no formato de um olho, usado por suas propriedades de cura. Ele comprou o broche de uma senhora idosa, em frente a uma igreja em New Mexico. Você decide que Grady tem glaucoma. Quando ele disse para a senhora idosa que ele também gostaria de um milagro para sua filha, ela pergunta “O que há de errado com ela?” E ele diz “Tudo”.

Se você não tivesse parado para observar com mais cuidado o personagem Grady e conhecê-lo melhor, talvez você não teria pensado sobre a temática da visão, do visível e do invisível e da cura. E você já está escrevendo sobre a morte, sobre casamento, sobre luto, sobre perda, e você nem sequer começou.

Quando Grady diz que tudo estava errado com sua filha, o que ele quis dizer com isso?

Você decide descobrir. Então você escreve sobre Hope e descobre que ela era viciada em drogas, que ela roubava seus pais para manter o vício e morreu sozinha em um terreno baldio. Você volta até a sala onde o casal se encontra. Quando a malha turquesa cai dos ombros de Alice, você percebe a tatuagem de um coração em chamas no seu braço esquerdo. Na mesa de centro, há um emblema da perda do casal. Um porta retrato com uma foto de Hope quando bebê, deitada em uma canga de praia.

Quando você olha atrás de Alice, pode ver as escadas que levam para o quarto de Hope. Em breve você estará lá, tentando entender o que você pode sobre a vida secreta da menina. Embaixo da mesa de centro, há uma corrente de ouro. Você, escritor, a vê, mas o casal não vê. É um colar. Você se pergunta que papel essa joia vai ter na história.

CONFLITO 

Alice coloca sua xícara de chá na mesa, sobre uma edição da revista Food & Wine. Há um gato preto deitado na estante de livros. Próximo à janela, há um vaso de lírios, o que indica a você que é época de páscoa. Você entende a ironia. Você sabe que poderia usar a época do ano para dar o tom da sua história e agora você tem as temáticas de renovação e renascimento para considerar.

Grady relembra Alice que ele foi contra expulsar Hope para fora de casa quando ela teve sua última recaída. “Você queria que ela chegasse no fundo do poço”, ele diz, “e ela chegou”. Alice sente como se tivesse tomado um soco na cara. O que ela diz? O que ela faz? Você a observa com atenção e espera para ver o que vai acontecer com uma caneta na mão. Ela joga a xícara de chá no chão. O gato corre para a cozinha. Ela chama Grady de monstro, chora até perder o fôlego. Escreva tudo isso.

Grady sabe que deveria se aproximar dela, mas ele está paralisado por raiva e culpa. Quando Alice vai até a porta, ele a segue e tenta acalmá-la. Ela o empurra, corre para a frente da casa e grita desesperada. Os vizinhos espiam pelas frestas das janelas. Ela vai embora. Sua história está se desenvolvendo.

A história de quem você vai contar?

A história de Grady ou de Alice? Escolha um personagem principal. Sua decisão depende dos temas que você deseja explorar, do personagem que lhe parece mais interessante, talvez aquele que tenha sido mais impactado pelo ponto de virada.

Digamos que você decide que vai contar a história de Grady. O que ele deseja é trazer Alice de volta para casa com a intenção de curar a ferida que ele abriu, para consertar os danos que o vício e a morte de Hope trouxeram para o casamento. Ele quer redenção. O desejo dele de trazer Alice de volta precisa ser significativo. Motivação é o que provoca ação e ação é o motor das histórias. Você não pode escrever sobre um protagonista passivo.

Grady ama Alice. Ele não pode viver sem ela. Ele quer o perdão da esposa, quer ser absolvido, ele quer redenção. Agora você sabe que ele tem motivação suficiente para tentar salvar seu casamento e toda vez que ele tentar fazer isso, você escreve uma cena. Sabendo disso, você pode escrever todas as cenas principais até o clímax da história.

Quem vai contar a história? Grady pode contá-la ou um narrador na terceira pessoa pode contá-la, nos dando acesso aos pensamentos e emoções do personagem e, talvez, também à mente de Alice. Todos os narradores na primeira pessoa não são confiáveis. Eles têm interesses pessoais em alcançar certos resultados. Se você quer que a confiabilidade de Grady seja parte do significado da história, você deixa que ele narre. Mas se você quer que focar mais claramente nos esforços cautelosos dele para salvar o casamento, você deixa que um narrador na terceira pessoa conte a história.

ENREDO

Você tem um protagonista, você sabe o que ele deseja e sua motivação para isso. Agora, ele precisa enfrentar uma série de obstáculos. Você não pode escrever uma história sobre um personagem passivo. Então, você dá um salto no tempo naquele mesmo dia do enterro de Hope, à noite, quando Grady vai até o condomínio onde mora a irmã de Alice e pede que ela volte para casa. Ela diz “Aquela casa vai sempre me lembrar de Hope. Não posso mais viver lá”. Ele diz “Foi você quem a expulsou de casa quando ela mais precisava de nós” e a discussão fica mais intensa. Alice não vai voltar para casa. Grady foi até lá para trazer ela de volta, mas acabou afastando ela ainda mais. Mas ele não pode parar de tentar ou não temos uma história.

Conflito traz embutida a ideia de esforço prolongado e sofrimento emocional.

Sua próxima cena. Alice concorda em almoçar com Grady. Ambos voltaram a trabalhar. Ele é pedagogo em uma escola, trabalha com adolescentes problemáticos e sempre acreditou, secretamente, que os pais são culpados por permitirem que seus filhos se tornem viciados. E agora você sabe a origem da culpa desse personagem e seu senso de fracasso como pai.

No restaurante, Alice diz que alugou um apartamento e que pretende se mudar em breve. Grady está cético, se perguntando porque ela não compartilhou isso com ele antes de tomar tal decisão. Mais tarde, quando ela vai até a casa pegar suas roupas e alguns objetos pessoais, Grady se mostra prestativo e compreensivo porque ele quer convencê-la a ficar. Mas Alice aparece acompanhada de seu amigo Austin, da estação de rádio onde ela trabalha, e ela faz as malas em vinte minutos. Grady não consegue ficar, nem sequer por um breve momento, a sós com Alice.

Até agora, o único obstáculo para eles restabelecerem o casamento era Alice e você está se perguntando se existem outros impedimentos. Um dia, Grady espalha as fotos do álbum de família na mesa da cozinha. Você e ele estão tentando entender o que fez com que sua linda filha terminasse daquela forma. O coração de Grady está partido e sua determinação está enfraquecendo. Será que ele vai ser derrotado por seu próprio desespero? Não, ele não vai desistir. Grady liga para Alice. Ele deixa uma mensagem em seu correio de voz, pedindo que ela vá com ele até um psicólogo de casais. Agora você sabe a próxima cena que precisa escrever.

Enquanto Grady deixa a mensagem, ele se pergunta se Alice está escutando. Você acredita que ela está. Ele se pergunta se ela está sozinha. Você acredita que ela não está. O enredo fica mais complexo. Na terapia, Grady diz que deseja salvar seu casamento, mas quando o psicólogo pergunta para Alice o que ela deseja, ela diz o divórcio, uma nova vida. Ela diz a Grady que o ama, mas que ela não pode mais viver com ele.

RESOLUÇÃO

O conflito em andamento precisa ser resolvido. Talvez Grady não alcance o que deseja e Austin acabe indo morar com Alice. Faça um esforço para conhecer Austin melhor. Ele é um personagem importante. Ou talvez Grady alcance seu objetivo e Alice volte para casa. Depois de vinte e três anos de casamento, ela decide que deve pelo menos tentar.

E você termina sua história com uma cena.

Eis uma possibilidade. Alice está no sofá, próxima de um abajur, lendo um livro, mas ela está na mesma página já faz uma hora. Quando Grady olha para ela, enxerga uma auréola ao redor de sua cabeça. Ele tem glaucoma, não se esqueça. Ele pensa “Alice voltou, finalmente”, mas ele percebe que a foto da filha não está sobre a mesa de centro da sala. A esposa está segurando o porta retrato por trás do livro, se martirizando com a imagem de sua perda.

Naquele momento, Grady entende que o tempo vai curar certas feridas e, eventualmente, ele vai se acostumar com a separação da esposa, mas em relação a uma ferida, o tempo não vai fazer nenhuma diferença. Ele nunca vai se recuperar da perda irreparável de sua filha. Trazer Alice para casa provou a futilidade da decisão do casal de seguir vivendo juntos.

REVISÃO

Sua história está dura e sem vida, mas você a torna melhor durante as revisões, porque a verdade é que histórias não são escritas, elas são reescritas. Você precisa produzir um esboço da sua ideia para poder reescrever. Esperar que o primeiro rascunho fique bom é não compreender o processo de criação. Mesmo que você escreva um primeiro esboço que o deixe satisfeito, se desafie a torná-lo ainda melhor.

O enredo o guiou a desenvolver uma sequência causal de eventos. Você tem um começo, um meio e um final. Agora você pode voltar e acrescentar sumários narrativos para conectar uma parte da história à outra, melhorar as cenas que já escreveu, escrever as cenas que você descobriu no caminho, como a tarde em frente à igreja em New México, a noite em que Grady descobriu o colar que ele deu para a filha no seu aniversário de dezesseis anos, e talvez você deveria explorar na história aquela tatuagem de coração em chamas no braço de Alice. Mas explorar como?

Você vai descobrir enquanto escreve.

Sua bunda segue na cadeira porque você acabou de criar um novo universo de ficção e você inventou essas pessoas que, até então, nunca existiam e você está tão entusiasmado que não vai conseguir mais se levantar.

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Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

6 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. wilson 02/09/2016

    obrigado!!!!
    obrigado !!!!
    obrigado !

  2. Breno 08/09/2016

    Estava eu perdido no meio da noite, sem saber por onde começar. Obrigado! Esse texto me deu um choque de realidade, posso ser mais objetivo do que estava sendo RSRS!

  3. Maria 13/09/2016

    Muiiiito bom!Adoro passear por aqui, sempre encontro preciosidades!
    GRata!

  4. Bruno Bonfim 28/10/2016

    Diego,

    ótima transcrição de um artigo com tantas informações/dicas/questionamentos tão esclarecedores.

    Uma das frases que mais me agradou em todo o texto foi “… porque a verdade é que histórias não são escritas, elas são reescritas…” Esta frase mostra, acredito, a essência de uma boa história – mesmo as que pareçam ótimas numa primeira impressão – ou versão.

  5. stefany lopes 22/11/2016

    esse é realmente um ótimo site. Amei. estava com dúvidas agora já sei por onde começar. Obrigada;]

  6. Tenho um livro todo na minha cabeça, início, meio e final, mas nunca sei como ambientá-lo. Tenho medo de cometer gafes imperdoáveis que já vi em outros livros. Sempre acho que tudo o que escrevo é medíocre e que ninguém jamais vai ler tamanha porcaria, rsrsrsrs.

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