Aprenda a criar realidades com palavras

Como escolher o melhor narrador para sua história

Por Diego Schutt em 29/06/2016 Tópicos: dicas, escrever, escrita criativa, storytelling, técnicas
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Texto do escritor convidado Eber Freitas

Muitos escritores iniciantes investem grande parte do seu tempo pensando na ideia, nos personagens e no enredo da história. Poucos, no entanto, dedicam a mesma atenção à estrutura da narrativa, que é, basicamente, a forma como o escritor organiza as informações ao longo do texto para contar a história de uma forma interessante e envolvente. Uma das decisões estruturais que mais influenciam na experiência de leitura é a escolha do narrador.

As formas mais comuns da narrativa em prosa são a primeira pessoa (narrador-personagem) e a terceira pessoa (narrador-observador e narrador onisciente). Alguns escritores arriscam escrever na segunda pessoa (tu, você) ou até na primeira pessoa do plural (nós). “A casa da ficção tem muitas janelas, mas só duas ou três portas”, reconhece James Wood em “Como funciona a ficção”. Se o inquilino quer impressionar o visitante, naturalmente o conduz pela entrada que leva direto ao melhor cômodo da casa. Da mesma maneira, o escritor deve conduzir o leitor pelo ponto de vista que revela a história da forma mais interessante possível.

Histórias sempre são contadas de forma parcial. Pense, por exemplo, em como uma criança conta para a mãe sua versão da briga que teve na escola. A visão da criança sobre o que aconteceu certamente difere da visão da diretora, da professora e da do colega com quem ela brigou. A escolha do narrador, portanto, determina a perspectiva a partir da qual o leitor vai interpretar a história, a percepção que ele terá sobre os personagens e a maneira como ele vai entrar em contato com os acontecimentos do enredo.

Qual o melhor critério para se escolher o narrador da história?

O mesmo critério que você usa para tomar qualquer outra decisão sobre os modos de narração. “A única obrigação é a de que seja interessante”, defende Henry James em “A arte da ficção”. “A escolha do ponto de vista pelo qual a história será contada é, indiscutivelmente, a decisão mais importante que o novelista deve fazer”, alerta David Lodge, “uma vez que afeta fundamentalmente a maneira como os leitores vão responder emocional e moralmente aos personagens fictícios e suas ações”. A escolha do modo narrativo, enfim, está circunscrita à experiência que você deseja criar com a história.

Abaixo, mais detalhes sobre cada um dos tipos de narrador.

Narrativa na Primeira Pessoa

Uma história na primeira pessoa é narrada por um dos personagens, com a predominância do pronome pessoal “eu” – mesmo que esse personagem não participe dos acontecimentos que está relatando. Tal tipo de narrador é uma boa escolha se você deseja influenciar o leitor a interpretar os acontecimentos da história a partir do ponto de vista de um determinado personagem.

O grande desafio no uso deste tipo de narrador é criar uma voz autêntica para o personagem que está contanto a história . Como esse personagem pensa e fala? Que palavras e expressões fazem parte do seu vocabulário? Ele se expressa de forma clara e objetiva ou confusa e abstrata? Ele usa gírias ou tem certos vícios de linguagem?

Em “Feliz Ano Novo”, conto que abre o livro homônimo de Rubem Fonseca, tomamos contato com a história através da perspectiva de um rapaz que vive em uma favela. Na história, ele nos conta como, junto com dois comparsas, assaltou uma mansão e protagonizou um violento latrocínio. Para contar essa história de forma verossímil, o escritor precisa narrar os fatos levando em conta o contexto social, econômico e cultural do narrador-personagem, considerando os seus desejos, motivações e visões de mundo.

“Vi na televisão que as lojas bacanas estavam vendendo adoidado roupas ricas para as madames vestirem no reveillon. Vi também que as casas de artigos finos para comer e beber tinham vendido todo o estoque.”

Perceba como a escolha das palavras nas duas primeiras frases do texto já nos dão pistas sobre a realidade desse personagem. Expressões como “lojas bacanas”, “roupas ricas” e ” artigos finos” demonstram certo distanciamento do narrador com esse estilo de vida extravagante, convidando o leitor a olhar para o mundo a partir da perspectiva do assaltante.

Para caracterizar a linguagem peculiar desse rapaz, Fonseca usa termos e jargões peculiares, mas que não comprometem o entendimento do leitor. “Onde você afanou a TV…”; “Você pensa que sou algum babaquara para ter coisa estarrada no meu cafofo?”; “dizem que ele dá o bozó…”; “a gente puxa um carro”. Tais expressões caracterizam a personalidade do personagem e nos informam sobre sua forma de ver o mundo, conferindo força e personalidade à narrativa.

Narrativa na Segunda Pessoa

Caso você queira romper a barreira invisível que separa o leitor do universo da história, criando a ilusão de que ele é um personagem, a segunda pessoa pode ser uma escolha interessante. Tal tipo de narrativa é incomum e difícil de desenvolver porque cria certo estranhamento no leitor, que é tratado como participante passivo da história. Certos escritores escrevem apenas algumas passagens do texto na segunda pessoa. Outros, escrevem a história inteira desse ponto de vista, como é o caso do livro “Aura”, do mexicano Carlos Fuentes.

“Você empurra essa porta – já não espera que alguma se feche realmente; já sabe que todas são portas de vaivém – e as luzes dispersas cruzam em suas pestanas como se estivesse atravessando uma tênue rede de seda. Você só tem olhos para esses muros de reflexos desiguais, onde piscam dezenas de luzes. Enfim consegue defini-­las como castiçais, colocados sobre mísulas e em recantos de ubiquação assimétrica.”

Agustín Gómez ­Arcos, em “Ana­-Não”, utiliza a segunda pessoa em poucos trechos, como neste, onde o narrador fala como a Morte e se dirige ao leitor como se ele fosse Ana Paúcha.

“Ana Paúcha acorda. Deixa a tua casa antes que ressurja o sol. A lua está morta. Ninguém te verá partir. Ninguém. Nem animal. Nem estrela. Não deve haver testemunhas do que tens de fazer. Deves empreender a viagem com dignidade, sem medo. Com a esperança de que não serei tão mesquinha contigo quanto a Vida.”

Há propósitos diferentes nos dois usos da segunda pessoa nos exemplos citados acima, o que pode ser melhor observado em contexto, após a leitura completa dos livros. No primeiro exemplo, o autor parece dar instruções para o leitor, controlar cada ação por meio de ordens e determinar o que ele vê descrevendo o cenário. No segundo, o escritor tenta convencer, usa o tom de um amigo ou conselheiro. Nos dois exemplos, o leitor é colocado na narrativa à força, por decisão unilateral do autor, criando uma dinâmica de leitura diferente da narrativa na primeira e na terceira pessoas.

Narrativa na Terceira Pessoa

Uma história na terceira pessoa é contada por um narrador-observador que não participa da história, com a prevalência do uso do pronome “ele/ela”. É a forma de narrar que nos parece mais natural porque é usada por muitos escritores em função da flexibilidade que oferece no desenvolvimento de universos de ficção com múltiplos protagonistas e subenredos. Se você acredita que o leitor precisa conhecer mais de uma perspectiva sobre os acontecimentos da história, narrar na terceira pessoa é uma boa escolha porque permite a você apresentar a experiência concreta e subjetiva de diversos personagens.

Henry James, um dos melhores autores na manipulação do ponto de vista, escreveu uma história que revela os efeitos de um divórcio em uma criança. O romance tem o oportuno título de “What Maisie Knew” (Pelos olhos de Maisie, na versão em português). Ainda que a história seja narrada do ponto de vista dessa personagem, James não narra na primeira pessoa, mas na terceira. Mesmo assim, o escritor consegue aproximar o leitor da menina por meio do estilo indireto livre e ironias sutis.

“Foi por causa dessas coisas que sua mãe conseguira contratá­-la por tão pouco, quase de graça: foi o que Maisie ouviu, um dia em que a sra. Wix a acompanhou até a sala de visitas e deixou­-a lá, uma das senhoras que lá estava – uma mulher de sobrancelhas arqueadas como cordas de pular e pespontos negros e espessos como a pauta de um caderno de música nas belas luvas brancas – dizer para a outra. Maisie não sabia que as governantas eram pobres; a pobreza da srta. Overmore não se comentava, e a da sra. Wix era comentada por todos.”

O narrador onisciente insere símbolos nativos da linguagem de uma criança ou da própria Maisie: “arqueadas como cordas de pular”; “como a pauta de um caderno de música”. Ele poderia ter escrito “arqueadas como galhos de goiabeira”, mas o efeito se perderia. Além disso, o estilo indireto livre de Henry James nos permite entrar em contato com pelo menos três perspectivas diferentes ao mesmo tempo: o juízo materno e adulto sobre a sra. Wix, a versão de Maisie sobre a visão da mãe, e a visão da própria Maisie sobre a sra. Wix.

Henry James usa a terceira pessoa onisciente, onde além de reproduzir indiretamente as falas dos personagens, também compartilha os pensamentos e sentimentos de tal personagem e do próprio narrador. Entretanto, James sabe que a onisciência, mesmo na literatura, dificilmente é absoluta ou mesmo desejável. Por isso, ele decide concentrá-­la em apenas um personagem. A onisciência total é um recurso importante em obras como “Game of Thrones” e “O Silmarillion”, por exemplo, que diferente da história de Henry James que foca nossa atenção na experiência de Maisie, têm como objetivo criar um universo de fantasia completamente novo e original.

No conto­novela “Bola de Sebo”, o escritor realista francês Guy de Maupassant narra a história de um grupo de habitantes que foge de Rouen rumo ao porto de Havre, escondido dos soldados prussianos que haviam invadido o país. Entre eles, estão comerciantes, nobres, religiosos e uma prostituta, a qual ele descreve no parágrafo abaixo.

A mulher, uma dessas a quem chamam de libertina, era célebre por sua corpulência precoce, que lhe valera o apelido de Bola de Sebo. Pequena, toda rechonchuda, gorducha mesmo, com dedos inchados e estrangulados nas falanges, semelhantes a réstias de salsichas curtas, com uma pele luzente e esticada, um pescoço enorme que transbordava o vestido, ela continuava, no entanto, apetitosa e solicitada, de tanto que seu frescor dava prazer à vista. Seu rosto era uma maçã vermelha, um botão de peônia prestes a florescer, e ali se abriam, em cima, uns olhos negros magníficos, cobertos por grandes cílios espessos que os mergulhavam na sombra; embaixo, uma boca encantadora, estreita, úmida para o beijo, recheada com dentinhos brilhantes e microscópios. Além disso, ela era, diziam, cheia de qualidades inestimáveis.”

Nessa passagem, o escritor descreve a personagem misturando características observáveis sobre tal mulher (libertina, pequena, gorducha, dedos inchados, pele reluzente e esticada, pescoço grande) e as impressões do próprio narrador sobre ela (“Seu rosto era uma maçã vermelha, um botão de peônia prestes a florescer”).

A narrativa na terceira pessoa é versátil porque permite narrar de uma forma mais objetiva (como em Henry James) ou mais subjetiva (como em Maupassant). A diferença entre tais formas de narrar está na porta de entrada do universo de ficção pela qual o autor vai conduzir o leitor. Qual delas é a melhor porta de entrada para sua história? Qual delas valoriza os aspectos mais importantes sobre sua narrativa? A resposta depende do tipo de texto que você deseja escrever.

Não existe um jeito certo ou errado de usar cada tipo de narrador e não é possível prever qual deles é mais adequado para o tipo de história que você deseja contar. Cabe a você, escritor, testar diferentes formas de organizar e apresentar a narrativa e decidir qual é aquela que tem o potencial de expressar sua ideia com mais impacto.

 

Sobre o autor: Eber Freitas é autor de Esfolados: contos e do blog Livreiro Nômade.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

2 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Thallys 30/06/2016

    Mais um artigo super interessante. Gostei muito sobre a dica de narração em primeira pessoa. Abriu meus olhos para coisas que passavam batido por mim. Obrigado!

  2. Fernanda Cabral 19/08/2016

    Um autor brasileiro de ficção fantástica que também faz uso da narração em segunda pessoa: Raphael Draccon, em sua coleção Dragões de Éter.
    “É noite. Estamos no porto de Andreanne. Você pode vê-lo com os próprios olhos, basta abri-los. Talvez você não o veja da mesma forma que eu, mas, se nós dois estamos aqui e vemos um porto, seja ele como for, ele é o porto de Andreanne.”(Caçadores de Bruxas, página 113)

    Ele cria um mundo onde os personagens tem consciência de que estão vivos apenas na imaginação e nos sonhos dos “semideuses”:
    “Deuses serem como sonhos é sabido universalmente. É necessário que devotos acreditem em sua existência para que permaneçam vivos. Devotos de semideuses praticam um relação exatamente contrária; é necessário, sim, que os próprios semideuses acreditem nos seus devotos, e não os esqueçam, para que estes possam continuar existindo” (Caçadores de Bruxas, página 17)

    E realmente dialoga com o leitor, nos deixando a responsabilidade de manter esse mundo vivo, nos lembrando dele.
    “Nossa única diferença talvez seja a de que eu, dessa vez, dou as cartas, estabelecendo as regras físicas e orientando as consequências de um universo etéreo, como tantos outros. E espero que um dia você possa experimentar essa sensação maravilhosa de dar vida a uma criação, enquanto diversos outros semideuses lhe dão o respaldo para manter tal criação viva […] pois a partir do momento em que eu esquecê-la, ela deixará de existir.” (Caçadores de Bruxas, página 421)

    E conseguir que sua história seja lembrada e perpetuada não é a maior ambição e deslumbramento de um escritor?

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