Aprenda a criar realidades com palavras

O escritor hipócrita e o escritor sincero

Por Diego Schutt em 06/04/2016 Tópicos: escrever, inspiração
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Faça este experimento. Vá para o cômodo mais silencioso da sua casa, fecha a porta e se deite no chão em uma posição confortável, pernas e braços esticados. Feche os olhos, não se mova, tente não pensar em nada. Concentre-se na sua respiração. Sinta o ar entrando pelo nariz, os pulmões se enchendo, o peito estufando. Expire e sinta o torso encolhendo e os músculos relaxando. Comece novamente. Inspire, expire. Mais uma vez. E mais uma vez.

Se você não está acostumado a meditar, depois de alguns segundos, vai começar a se sentir impaciente, desconfortável, ansioso. Persista. Comece a prestar atenção ao que a voz dentro da sua cabeça interrompe sua concentração para dizer. “Que experimento idiota. Não posso esquecer de comprar leite. Que vontade de ir no banheiro. O que vão pensar de mim se me descobrirem deitado aqui?”

Essa voz interna está sempre sussurrando no nosso ouvido. Um fluxo constante de ansiedades e preocupações com o mundo externo. Essa voz é o centro de comando do seu corpo, cujo trabalho é manter sua vida sob controle, avaliando as circunstâncias em que você se encontra e decidindo o que é prioridade, o que merece sua atenção imediata.

Quando você se deita em um local silencioso e seguro, fecha os olhos e tenta não pensar em nada, você está temporariamente eliminando as distrações do mundo externo, que demandam sua atenção o tempo todo. O que lhe vêm à mente parece aleatório, mas na verdade o que você escuta nessas horas revela muitas das suas ansiedades e preocupações. Ainda que, normalmente, você não preste atenção a essa voz, ela está sempre sussurrando no seu ouvido, como uma música ambiente que toca sem parar.

Todos nós escrevemos ao som dessa música ambiente, às vezes com o volume bem baixinho, às vezes no máximo. 

“Melhor começar o texto com uma cena chocante. Será que vão gostar desse personagem? Essa frase mostra minha inteligência e sensibilidade. O que vão pensar de mim se eu escrever sobre esse tema? Esse texto tá ficando uma porcaria.” Sem perceber, começamos a bater o pé no ritmo dessa música e, instintivamente, passamos a escrever para acalmar essas ansiedades.

Nessas horas, é comum supervalorizarmos o que nos motivou a começar, nossa ideia de história, a inspiração inicial que nos fez acreditar, mesmo que por apenas alguns segundos, que somos criativos, originais. Como resultado, decidimos medir a qualidade do texto a partir do quão bem ele se encaixa na nossa ideia.

Sempre que tento encaixar um texto em uma ideia, a história insiste em tomar um rumo diferente, distante da minha inspiração inicial. O que eu faço? Apago tudo e começo novamente. Tento encontrar um formato que faça “bom uso” da tal ideia genial. Escrevo um segundo rascunho, um terceiro, um quarto, um quinto, e a cada nova tentativa, a história se revela diferente do que eu havia imaginado. Insisto, reviso, edito e, algumas vezes, consigo terminar o texto. Minha ideia está ali, encaixada, mas a história não funciona, soa forçada, falsa, insincera.

Também reconheço isso com frequência nos exercícios de alguns alunos do Jardineiro de Ideias. Textos inseguros, carentes por atenção, cuja prioridade parece ser explicar a ideia da história o mais rápido possível. São textos que mais parecem resumos, que mantém o leitor distante do que está acontecendo, como se a narrativa fosse um passeio de carro em linha reta, à 300 quilômetros por hora, cujo único objetivo é chegar do ponto A ao ponto B.

Acredito que essa pressa é resultado da ansiedade criada por aquela voz que, o tempo todo, sussurra inseguranças e medos no nosso ouvido, aquela voz que você escutou se fez o experimento que sugeri no início do artigo. Essa voz só para de gritar quando terminamos um texto. Sabendo disso, enfiamos o pé no acelerador e tentamos chegar ao final da história o mais rápido possível.

Minha grande luta nos últimos meses vem sendo encontrar formas de diminuir o volume dessa voz, de interromper temporariamente esse fluxo de ansiedades que transforma meus textos em reações ao meu medo de não agradar, de não ser bom, de não ter talento. Esse barulho constante me impede de escutar os personagens das minhas histórias e, ainda mais preocupante, a mim mesmo.

Sem essa escuta interna, não é possível atribuir aos meus textos a grande qualidade que distingue uma narrativa ruim de uma excelente: sinceridade.

Você sabe do que estou falando, daquela sensação que um texto foi escrito para seu momento de vida atual, ou que o escritor parece entender exatamente o que você sente e pensa, ou que ele está confirmando algo que você já intuía, ou quando ele descreve algo familiar de uma forma nova, que você reconhece como verdade. É isso, talvez, o que muitos chamam de talento, essa capacidade de um escritor de diminuir o volume das suas ansiedades e escrever com sinceridade.

O que é escrever com sinceridade? É ter a capacidade e a coragem de compartilhar suas emoções e pensamentos mais íntimos e refletir sobre eles na frente do leitor. É não tentar se esconder atrás de frases de efeito, de moralismos, de conceitos abstratos e do que é senso comum. É pensar naquilo que se acredita ser verdade e mostrar para o leitor que experiências ilustram sua conclusão. É escrever para expressar, não para impressionar. É criar preocupado em produzir um texto de qualidade, não para diminuir a ansiedade.

Escrever com sinceridade é uma habilidade difícil de desenvolver. Estamos todos muito apegados a ideia de que precisamos ser originais e criativos. De fato, precisamos. Ninguém quer ler histórias que chovem no molhado. O problema é que originalidade e criatividade são associadas com frequência a geração de ideias, quando a execução dessas ideias é o que realmente revela o talento de um escritor.

Milhões de pessoas sentem as mesmas emoções, mas poucas são aquelas que conseguem (ou sequer tentam) entender a origem dessas emoções ou, ainda mais complexo, articular o que elas significam.

Milhões de pessoas já se apaixonaram, mas poucas são aquelas que refletiram sobre o que sentiram ou que conseguiram expressar essa experiência em palavras. Mais raras ainda são as pessoas que conseguiram traduzir essa emoção em uma história envolvente e original. Isso não quer dizer que certas pessoas tenham maior ou menor capacidade de se apaixonar, apenas que algumas têm uma habilidade maior para decodificar o que sentem de uma forma artística.

Essa falta de habilidade para articular o que se sente é evidente em muitas histórias. As emoções do escritor podem ser absolutamente sinceras, mas o que aparece na página são expressões emprestadas de outros textos, reflexões superficiais e genéricas, cenas e diálogos recheados de clichês.

Tais textos nos parecem insinceros porque intuímos que tal forma de sentir não é particular a tal escritor. São textos impessoais, insípidos, sem personalidade, que repetem o que é senso comum e fingem profundidade declamando moralismos e idealismos que o escritor aceitou sem nunca questionar suas premissas. O que era para ser dramático soa melodramático, o que era para ser original soa exibicionista, o que era para ser envolvente soa pretensioso.

Sinceridade é antônimo de hipocrisia que, por definição, é fingir saber mais do que realmente se sabe, ter medo de assumir sua verdadeira natureza, dissimular sua personalidade, seus sentimentos e suas opiniões. O escritor hipócrita fala com a boca dos outros, procura por atalhos, quer resultados rápidos. O escritor sincero, em contrapartida, é paciente, mergulha fundo dentro de si e compartilha o que encontrou, se mostra vulnerável. Cai, bate a cabeça, sangra, levanta e começa a caminhar de novo porque, apesar da pressa de terminar que todos que escrevem sentem, esse escritor valoriza tanto a jornada quanto o destino final.

Como se tornar um escritor sincero?

O Eber Freitas, no texto excelente “Experiência: o elixir dos escritores“, dá pistas neste trecho, onde cita a visão de Henry James sobre o assunto:

“O escritor britânico acredita que, da mesma maneira que as pessoas sentem a vida, elas sentem a arte. Portanto, o mérito do escritor não está em ser inventivo ou em buscar enredos mirabolantes. O elixir da escrita está bem mais perto do que se imagina, porque a experiência é o resultado primeiro do diálogo do homem com o mundo ao seu redor. A diferença entre o artista e outros profissionais é que aquele soube desenvolver seu olhar a partir da experiência. ‘Nenhum romance jamais virá de uma mente superficial’, decreta James.”

Você só pode ser sincero quando fala do que sabe, quando fala a partir da sua experiência de vida externa ou interna. Mas viver, apenas, não é suficiente. Você precisa aprender a assimilar, refletir e traduzir suas vivências em narrativas que ajudem o leitor a transformar sequências de palavras, frases e parágrafos em emoções. Você precisa desenvolver a capacidade de compartilhar conhecimento de uma forma expressiva. É isso o que dará as suas histórias o status de arte.

Esse processo exige paciência e atenção contínua, qualidades raras de se encontrar em um mundo recheado de distrações. O psicólogo William James sintetiza bem isso quando diz:

“Atenção contínua é a forma mais fácil, mais rica de desenvolver uma mente estimulante e original. Em tais mentes, assuntos brotam, germinam e crescem. […] Mas um intelecto desprovido de materiais, estagnado, sem originalidade, pouco provavelmente vai considerar qualquer assunto por muito tempo. Um olhar apressado esgota suas possibilidades de interesse.

Aos gênios, é comumente atribuída a capacidade, em comparação a outros homens, de manter atenção contínua… Suas idéias reluzem, [fazem infinitas conexões a todos os campos de conhecimento] em suas mentes férteis e, assim, eles [podem seguir explorando essas ideias por horas].” 

Se uma história é uma viagem de automóvel de um ponto a outro, o motorista é você, escritor, o carro é o protagonista, o combustível são os conflitos, a estrada é o enredo, o freio de mão do carro é seu medo de fracassar, e a ideia que inspirou você a escrever é apenas a chave que dá partida no carro.

Essa chave é extremamente importante, mas dirigir olhando para ela, ao invés de para a estrada, é perigoso.

Da próxima vez que estiver viajando em uma nova história, experimente soltar o freio de mão, dirigir devagar, fazer pausas para apreciar a paisagem, estacionar quando se sentir cansado, reabastecer o carro antes do tanque esvaziar, oferecer carona para desconhecidos e, se quiser ser ainda mais ousado, escolher um novo destino.

Essa abertura para o novo é o que vai permitir a você viajar para lugares mais sinceros dentro de si, lugares onde o tempo anda mais devagar, lugares onde suas ansiedades e medos não sabem como chegar. E, quem sabe, não é lá que suas melhores histórias estão esperando por você.

 

Mais sobre os benefícios da meditação e sobre dirigir com o freio de mão puxado no vídeo abaixo (áudio em inglês).

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt

Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra e Japão. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

13 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Thallys 08/04/2016

    Adoro seus textos. São inspiradores. Devia fazer um podecast. Me avisa se for fazer isso. Rs

  2. Marcella 09/04/2016

    Adorei, muito bem explicado. Realmente escrever sem ansiedade e tentando ser o mais sincero possível, durante a criação, é a chave para atrair e prender o leitor no seu texto.

  3. André Sousa 11/04/2016

    Muito obrigado por esse maravilhoso blog. A quase um ano tenho acompanhado todos os seus posts e fico admirado com a maneira de passar as palavras todas as dúvidas anseios comuns aos aspirantes a escritor. Confesso que hoje me surpreendi, a tempos eu vinha com esse problema de não ser honesto comigo mesmo na hora da escrita. Até mesmo parei de escrever por um tempo, mas com um tempo notei que precisava explorar melhor a mim mesmo para escrever melhor. Agora tenho a confirmaçãp que esse é o caminho certo para um escritor com habilidade. Inspirador.
    Muito Obrigado novamente.

  4. Deise 21/04/2016

    Adorei, muito obrigada! Texto maravilhoso! Vai me ajudar bastante qdo for escrever meu proximo artigo 🙂

  5. Neiva Meriele 21/04/2016

    Perfeito!

  6. Redniw 19/05/2016

    Seu trabalho é excepcional e com certeza ajuda muita gente. Parabéns. Já estou me sentindo renovado e no caminho certo

  7. A.Miguel 26/05/2016

    Que é artigo é esse, meu Deus! Acho que foi dos melhores que já li do blog e já acompanho há mais de um ano 😉 Tenho só uma dúvida… Se eu quiser escrever um romance na qual as personagens passam por dramas, que, apesar de eu os compreender, nunca os vivi, estarei a ser hipócrita ao descrever essas mesmas situações? Ou mesmo que não esteja, sendo que não tenho a experiência suficiente nos problemas que quero abordar e somente tenho a pesquisa do meu lado, como é que consigo convencer o leitor de que sei realmente do que estou a falar?
    Obrigada e continuação de um excelente trabalho!

  8. M 04/06/2016

    Estou passando por esta situação do Escritor Hipócrita.
    Criei um personagem o qual achei que combinaria com a história, e não um que proveio da sinceridade.
    Ao invés de adaptar o meu personagem ao minha escrita sincera, tentei adaptar a minha escrita hipócrita ao personagem criado.
    E esse texto me ajudou a esclarecer isso, descobri este blog a pouco, e pretendo continuar acessando ^^

    Obrigado pelo post! Até logo.

    M.

  9. Leitor do blog 05/06/2016

    Porque você(s) não cria(m) um app na playstore?

    Seria muito útil e tenho certeza absoluta,
    que todos os leitores do blog – inclusive eu,
    iriam gostar e baixar imediatamente!

  10. Lilian 07/06/2016

    Muito interessante seu texto e orientação! Tentarei dar o melhor de mim em meus textos e no meu primeiro livro.
    Já perdi muito do que eu escrevi , seja no meu computador ou em cadernos e isto me deixou desanimada em terminar, o que nem se quer havia começado!porém agora, lendo seus textos, me bateu um animo que estava por morrer!

    Grata

  11. Maria Rabelo 30/07/2016

    Bom texto! Obrigada!

  12. Deds 23/09/2016

    Nossa ! Eu gosto muito de ler e escrever, para mim se tornou natural como uma expressão mais rápida e rica do que desenhar. O que eu mais gosto do que eu leio é poder me sentir o personagem e estar junto a ele, porem ao ler o seu post percebi que minha ideia de escritor é aquele que escreve em 3° pessoa (pois eu sempre escrevi diário e a 1° pessoa para mim está associado com uma escrita infantil) e minhas experiencias neste tipo narrativo são falhas na qual sempre terminava em 1° e eu frustrada.
    Obrigada pelo post ! Não tenho grandes histórias nem escrevo tão bem mas desde o dia 19.02 quando li seu blog pela primeira vez eu tenho enchido um caderno de pequenos capítulos, ideias e experimentos. E estão melhorando e vindo com maior fluidez.

  13. gabcosendey 26/10/2016

    Tinha que comentar. Obrigado.

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