Aprenda a criar realidades com palavras

Como libertar sua voz de escritor

Por Shawn Coyne em 27/02/2016 Tópicos: escrever, inspiração
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No meu podcast Story Grid, um dos episódios mais populares é o que fala sobre como escritores tomam decisões em relação aos modos de narração. O que são modos de narração? São [as escolhas que o escritor faz sobre a estrutura da história e da organização do enredo, entre elas, quem é o narrador].

Por exemplo, o escritor vai narrar na primeira pessoa? “Conheci um homen de Istambul que tinha um bigode preto.”

Ou seria melhor o escritor narrar na terceira pessoa? “Quando Temple Eliot desceu do Expresso do Oriente, a primeira pessoa a atrair sua atenção foi um homem de bigode preto.”

Ou quem sabe narrar na segunda pessoa? “Você não é o tipo de pessoa que acha pêlos no rosto atraente, então porque esse homem com bigode preto captou sua imaginação?”

As escolhas que o escritor faz sobre os modos de narração qualificam a voz do escritor.

Qualquer escritor competente sabe que uma vez que você define os modos de narração, a história praticamente se escreve sozinha.

Considere o seguinte poema de Charles Bukowski:

há um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou muito duro com ele,
Eu digo, fica aí, eu não vou
deixar ninguém ver
você.

há um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas eu jogo uísque sobre ele e inalo
a fumaça do cigarro
e as prostitutas e os atendentes de bar
e os funcionários de supermercado
nunca sabem que
ele está
lá.

há um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou muito duro com ele,
Eu digo,
fica aí quieto, você quer
acabar comigo?
Você quer estragar o que
já funciona?
Você quer prejudicar a venda dos meus livros na
Europa?

há um pássaro azul no meu coração que
quer sair
mas eu sou muito inteligente, só deixo ele sair
durante a noite, às vezes,
quando todo mundo está dormindo.
Eu digo, eu sei que você está aí,
por isso não fique
triste.
então eu coloco ele de volta,
mas ele está cantando um pouco
lá de dentro, eu não deixei ele
morrer
e dormimos juntos desse
jeito
com nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente para
fazer um homem
chorar, mas eu não
choro, e
você?

Aposto que se Bukowski estivesse vivo hoje e alguém lhe pedisse para escolher o texto que melhor reflete sua voz de escritor verdadeira, conquistada a muito custo, seria esse poema.

A lenda de Bukowski cheira a cerveja derramada, fumo de cigarrilha e suor azedo de raiva obliterante. Mas neste poema, o artista Bukowski deixou de lado sua imagem de durão e revelou o ser humano sensível que se esconde por baixo da persona que ele criou.

Ele fez isso através de suas excelentes escolhas dos modos de narração, neste caso, escrever uma história em um tom confessional do ponto de vista cínico do artista conhecido como “escritor Charles Bukowski.”

Quem conta a história do poema é o autêntico Bukowski, o cara que se levantou na escuridão todas as manhãs antes de seu turno na estação de correios para escrever. O outro Bukowski era uma persona que ele, sem dúvidas, gostava de ser e que ele usava como escudo para proteger seu pássaro azul de ataques externos, algo que, quando ele era criança, acontecia com frequência.

O triunfo da sensibilidade de Bukowski (que brotou de uma necessidade existencial, não de exibicionismo) é o trabalho que nós, escritores e artistas, escolhemos.

Para abandonarmos as ideias preconcebidas que temos do que é ser escritor, precisamos examinar nossas paisagens internas, ao ponto de reconhecermos nossas múltiplas personas e encontrarmos maneiras de trazê-las para o palco externo, a página em branco. Vamos deixar que nossas personas contem nossas histórias. É por isso que elas existem dentro de nós. Para deixar aqueles pássaros saírem, ainda que suas canções nos atormentem.

Modos de narração é apenas um termo técnico para descobrirmos como abrir caminho para deixar nosso pássaro azul cantar.

 

Shawn Coyne autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

Sobre o Autor

Shawn CoyneLer todos os textos de Shawn Coyne
Shawn Coyne é editor e co-fundador da editora Black Irish Books. Em seu livro "The Story Grid" ele apresenta técnicas desenvolvidas nos seus 25 anos de carreira para ajudar escritores a se tornarem seus próprios editores. O escritor autorizou a publicação da tradução de Diego Schutt do texto original em inglês. É proibida a reprodução desse artigo sem autorização por escrito.

3 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. Olá, muito bem escrito.
    Deixem os nossos pássaros azuis cantarem em nossas obras.
    Muito profundo e bonito esse poema.

  2. Lucio 03/04/2016

    Poema de singular beleza. Fiquei inspirado e um tanto audaz no tocante à escrever… Quem sabe!

  3. Caroline Viviana 03/04/2016

    Gostei muito do texto, e que poema singelo! Tenho curiosidade quanto ao Bukowski, mas ainda não conheço muito sobre poesia. Uma das minhas maiores dificuldades é de deixar o pássaro sair, porque o medo de críticas ainda é muito forte. Fico pensando no que os outros vão achar… Mas isso vai embora uma hora ou outra, e quero muito escrever durante a minha vida. Adoro o Ficção em Tópicos, acompanho sempre que dá! <3

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