Aprenda a criar realidades com palavras

Como ler histórias como um escritor

Por Diego Schutt em 20/01/2016 Tópicos: dicas, escrever, técnicas
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Texto do escritor convidado Eber Freitas

“Escrever é um terço imaginação, um terço experiência e um terço observação”. Nessa citação clássica, William Faulkner omitiu – de propósito ou não – a importância de uma leitura qualificada para a formação do escritor. Contudo, a apreciação literária fundamenta a produção. O escritor que lê de forma crítica identifica a diferença entre estilos, divisa os recursos utilizados para capturar a atenção do leitor, reconhece o papel dos verbos e substantivos, e compreende que cada livro tem uma ideia subjacente, que transcende suas páginas impressas ou eletrônicas.

“Ler rapidamente aquilo que o autor levou anos para pensar é um desrespeito”, lembra o escritor Rubem Alves no livro “Ostra feliz não faz pérola”.

“Há frases que resumem uma vida. Por isso é preciso ler vagarosamente, prestando atenção nas ideias que se escondem nos silêncios que há entre as palavras”.

O objetivo da leitura criteriosa não é encontrar uma fórmula que garanta a escrita de uma boa história, mas sim o desenvolvimento do olhar crítico e estético, através da observação cuidadosa do papel de cada elemento da narrativa na construção da experiência de leitura. Esse exercício força o autor a pensar na sua maneira de expressar ideias, de observar, nomear e explicar seu mundo interno e externo, encontrando, assim, formas de refinar seu próprio trabalho.

O músico escuta Bach com uma percepção distinta, focando a atenção não apenas no sentimento produzido pela melodia, mas na maneira como as cadências, arpejos e intervalos são coordenados de modo a produzir determinada emoção. O pintor observa a força do pincel na tela de um Van Gogh, os padrões de ritmo, as cores, e como o artista concatenou esses elementos para expressar suas emoções. Com o escritor não é diferente.

“No processo de me tornar uma escritora, li e reli os autores de que mais gostava”, conta Francine Prose em “Para ler como um escritor”. “Lia por prazer, primeiramente, mas também de maneira mais analítica, consciente do estilo, da dicção, do modo como as frases eram formadas e como a informação estava sendo transmitida, como o escritor estava estruturando uma trama, criando personagens, empregando detalhes e diálogos.

Não é necessário se tornar um especialista em linguística e letras para ler criticamente, embora quanto maior for seu repertório de conhecimento, mais tesouros escondidos você encontrará nos textos que ler.

Com a prática de escrever resenhas para o meu blog pessoal Livreiro Nômade, desenvolvi um método que pode ser útil para quem deseja ler como um escritor. Não se trata de um roteiro estanque ou obrigatório, mas sim de uma ferramenta útil que poderá ajudar você a desenvolver seu senso crítico para revisar e editar seus textos.

1. Leitura Inspecional

Mortimer Adler chama essa etapa de leitura inspecional. Mesmo que estejamos falando apenas de literatura em prosa – desconsiderando obras acadêmicas, filosóficas, históricas, poéticas e sociológicas –, é importante pensar sobre que tópico o livro trata. É ler antes de ler. Os elementos pré-textuais, o prefácio, a orelha, a leitura de alguns capítulos e resenhas oferecem pistas sobre o conteúdo e a estética da obra.

Ler “Contos Inacabados”, de Tolkien, é bem diferente de ler “O Hobbit”, do mesmo autor. Um é destinado para leitores que querem se familiarizar com as maravilhas e os conflitos da Terra Média, mas não segue uma ordem narrativa – é como olhar o mundo de Tolkien representado em um mosaico. O outro é uma narrativa para adolescentes com começo, meio e fim, curta e sem mistérios. Se daí o leitor partir para “Drácula”, de Bram Stoker, vai se deparar com uma narrativa epistolar, fragmentada na visão de vários personagens. Todos esses aspectos podem ser capturados nas primeiras páginas, no prefácio, no sumário ou até na orelha e contracapa dos livros.

O foco da leitura crítica, neste ponto, é entender porque o escritor escolheu determinada forma para contar sua história, mas sem se ater aos detalhes. Ao dominar a leitura inspecional, você se tornará mais criterioso ao trabalhar suas próprias ideias, escolher os modos de narração mais adequados, considerar a extensão necessária para cada capítulo e decidir a melhor forma de começar a história. Assim, pouco a pouco, você vai desenvolver o senso estético necessário para escrever ficção com verossimilhança.

Como exemplo, podemos citar o primeiro parágrafo de Lolita:

“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.”

Aspectos a serem observados na leitura inspecional:

  • Quem é o narrador e como seu ponto de vista influencia na forma como ele conta a história?
  • Qual é tempo da narrativa? A história já aconteceu ou está acontecendo em tempo real?
  • O que o primeiro parágrafo nos informa sobre o personagem-narrador?
  • O parágrafo é longo ou curto? O padrão se repete no restante do capítulo ou do livro?

2. Cebola Narrativa

Todo livro, seja romance ou de contos, carrega uma mensagem em seu âmago, algo que não pode ser descrito em sinopses. Essa mensagem é o que motivou o autor a escrever o livro, é o que ele deseja compartilhar com seus leitores. Os elementos que constituem essa mensagem estão espalhados pela história, ou submersos em camadas mais profundas da narrativa, todas elas conectadas a ideia central da obra. Esses elementos podem aparecer no texto de diversas formas, seja em uma cena cotidiana e carregada de significado ao estilo de Flaubert, seja em um punho cerrado disfarçado de parágrafo, como em Tchekhov.

Neste tópico, a proposta para o escritor-leitor é considerar cada construção frasal, parágrafo, escolha de palavras, até mesmo as crases, conforme recomenda Raimundo Carreiro. Em uma obra literária envolvente, tais elementos não são dispostos aleatoriamente. Eles obedecem a uma lógica que, no fim, reforça a ideia central do romance ou conto. O desfecho consiste em considerar todas as escolhas estruturais e estéticas do escritor e ligá-los à mensagem da história – a tangente entre o real e o fictício. Ao praticar esse exercício durante a leitura, perceba a consistência, atenção aos detalhes e critérios utilizados pelo autor para contar a história. Isso vai ajudar você a desenvolver sua sensibilidade para editar e revisar seus próprios escritos de uma forma mais criteriosa.

Por exemplo, no livro “A bela Helena”, de Miriam Mambrini, a personagem, uma mulher à beira da velhice, revisita toda a sua vida. Um trecho resume o que vinha sendo sugerido desde o começo da história acerca de um relacionamento complicado, sobre o momento em que os amantes se viram pela primeira vez, ainda na adolescência, no meio do tumulto provocado por um acidente fatal:

“Olhava também para o outro lado da calçada para ver se eu aparecia. Minha imagem ficara associada ao atropelamento, como se representasse o outro lado da vida. Morte e renascimento. Morte e esperança de vida. E lembrava-se do meu nome: Talita”.

O narrador-personagem coloca, lado a lado, amor e morte, dicotomia clássica. A autora usa essa comparação como base para falar de um relacionamento que nunca deu certo, mas que nunca deixou de existir; o trauma e a cura. Uma atração que se mistura com repulsa, duas experiências que dividem um mesmo espaço. Mas é apenas uma janela dentre várias que a autora, ao longo do livro, deixa entreaberta para apresentar sua personagem e aprofundar nosso entendimento sobre ela.

Outros aspectos a serem observados:

  • O que o verbo “ficara” no pretérito mais-que-perfeito indica?
  • O que os verbos “olhava” e “lembrava-se” no pretérito imperfeito indicam, e como eles se relacionam com os demais?
  • O que o tempo da narrativa pode indicar sobre a personagem e sobre a história?
  • Sobre que outros temas esse trecho convida o leitor a refletir?

3. Símbolos e Metáforas

Símbolos nos ajudam a entender o mundo. Eles condensam teses inteiras em algumas poucas imagens. Metáforas reúnem vários símbolos e formam alegorias, mitos – formas de explicar o inexplicável. Escritores modernos, como Tolkien e C. S. Lewis, foram capazes de criar arcabouços mitológicos baseados no cristianismo – Crônicas de Nárnia tem uma forte influência teológica, e “O Silmarillion” narra sua própria versão da criação.

Símbolos e metáforas são ferramentas que permitem ao escritor abstrair, buscar afastamento da realidade, ou apenas ajudar na compreensão de algo complexo através de suas emoções, ao invés de empirismo e lógica. Esses recursos literários ajudam o escritor a dar textura e profundidade para suas histórias.

É como pegar cem arquivos de computador, compactá-los numa pasta “zipada”, e oferecer ao leitor o ofício de abri-la – de maneira menos programável e mais criativa do que sugere essa comparação. Metáforas convidam o leitor a pensar com a imaginação e os sentidos, permitindo que ele sinta o que está sendo dito de um jeito diferente.

A identificação de símbolos e metáforas permite que você decifre aspectos relevantes ou até mesmo vitais sobre a narrativa e os personagens. Ao discernir o uso desses recursos em histórias, você poderá se apropriar dessa forma indireta de expressar ideias e adicioná-la ao seu repertório de criação.

Um exemplo é o trecho abaixo, retirado do romance “Ana-não”, de Agustín Gomez-Arcos.

“No velho olmo

Rachado pelo raio, semi-apodrecido

Pelas chuvas de abril e pelo sol de maio

Folhas novas brotaram” 

Pontos a serem considerados:

  • O que é um olmo?
  • O que a imagem do olmo revela sobre a personagem?
  • Quais as características compartilhadas por ambos?
  • O que o texto perderia se não comparasse a personagem ao olmo?

4. Ritmo e Cadência

“Tudo é música, meu amigo”, confidencia-nos Machado de Assis. O andamento de um romance ou conto é essencial para dar outra dimensão de qualidade ao texto literário. O uso do ritmo na narrativa é capaz de chacoalhar e derrubar a resistência do leitor, fazê-lo aceitar a história. Em uma leitura desatenta, o ritmo trabalha no subsolo, invisível, porém com efeito pungente na leitura.

Se o leitor-escritor fica atento a essa música subjacente dos textos, passa a compreender o motivo pelo qual as aliterações, assonâncias, rimas e pontuações podem constituir uma dimensão distinta na narrativa, com um papel exclusivo. Não que qualquer conto ou romance precise soar como uma banda marcial, mas não faz mal tomar de empréstimo esse recurso nativo da poética, quando a história pode ser enriquecida por ele.

Leia o primeiro parágrafo do conto “Sorôco, sua mãe, sua filha”, de Guimarães Rosa. Depois leia de novo. Se necessário, uma terceira vez.

“Aquele carro parara na linha de resguardo, desde a véspera, tinha vindo com o expresso do Rio, e estava lá, no desvio de dentro, na esplanada da estação. Não era um vagão comum de passageiros, de primeira, só que mais vistoso, todo novo. A gente reparando, notava as diferenças. Assim repartido em dois, num dos cômodos as janelas sendo de grades, feito as de cadeia, para os presos. A gente sabia que, com pouco, ele ia rodar de volta, atrelado ao expresso dai de baixo, fazendo parte da composição. Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre. O trem do sertão passava às 12h45m.”

Note como cada frase se encaixa uma atrás da outra, encarrilhando períodos, que seguem outros – exatamente como vagões em um trem. E como a leitura oral se assemelha a uma locomotiva a todo vapor. É simples entender quando explicado. Mas quando pensamos em compor um conto assim, temos uma noção do escritor que Guimarães Rosa foi – a propósito, todo o conto segue esse ritmo, começando pelo título.

Qualquer escritor com alguma experiência tem um grau de domínio sobre o ritmo. Basta comparar “Nas montanhas da loucura”, de H. P. Lovecraft e “Cem anos de solidão”, de Gabriel García-Márquez: um vai impor uma leitura rápida, o outro exige que o leitor seja mais vagaroso. Cabe a você decidir em que passagens da sua história a leitura deve puxar o leitor pelo braço e correr, e em que passagens a leitura deve oferecer uma cadeira para ele descansar.

Pontos a serem considerados:

  • Que ritmo você usaria para escrever uma cena de ação?
  • Que ritmo você usaria para escrever uma cena de reflexão?
  • Que ritmo você usaria para um diálogo? Ele se manteria constante ou poderia variar conforme os humores dos personagens?

5. Modos de Narração

Os modos de narração são elementos presentes em qualquer história. Espaço, tempo, ponto de vista, tipos de discurso, personagens e seus desdobramentos. Dentre esses elementos, o narrador é uma das escolhas mais importantes. Toda história é contada por alguém, e esse alguém – real ou fictício – carrega um universo de experiências, preconceitos, traumas e prazeres. Tal repertório influencia na maneira como a história será contada.

Escritores inexperientes, por instinto, costumam lançar mão da terceira pessoa onisciente. Muitos dos melhores livros já escritos utilizavam esse tipo de narrador. Mas, considerando a natureza dos personagens e da história, será que a narração em primeira pessoa não cairia melhor? E se a história fosse narrada por um personagem-testemunha? Ao ler livros com atenção a cada um desses aspectos, o leitor-escritor poderá identificar porque o autor utilizou determinado ponto de vista, ou porque a história está no tempo passado. É um processo de investigação. Alguns desses aspectos já foram trabalhados na leitura inspecional, mas de maneira pouco profunda, apenas para compreender melhor o livro antes de embarcar na leitura. Neste ponto, a ideia é submergir.

“Sargento Getulio”, de João Ubaldo Ribeiro, é narrado em primeira pessoa. Em vários pontos, o tempo da narrativa retrocede e avança, o personagem entra em fluxo de consciência. Os parágrafos extensos cobrem várias páginas, não é difícil se perder nessa imensidão narrativa; Ubaldo viola, com elegância, as regras gramaticais conforme sua vontade, abusa dos regionalismos. Em alguns momentos, o leitor tem a sensação de estar sendo metralhado com o ódio de Getúlio Santos Bezerra. E sentimos a solidão do matador.

“Quero ficar olhando muito Aracaju, curtindo minha raiva e pensando em minha vida e querendo saber o que é que faz tanto povo lá, amuntuado lá, naquelas ruas grandes. Quando em falo ninguém entende lá, quando um fala lá eu não entendo. É, depois disso, nunca mais eu piso lá. Eu não tenho nada, tenho as minhas pernas e a minha cara de cinza e tenho essa terra toda. Isso eu tenho, essa terra toda eu tenho, porque quem me pariu foi a terra, abrindo um buraco no chão e eu saindo no meio de umas fumaças quentes e como eu outros ela sempre vai parir, porque essa terra é a maior parideira do mundo todo”.

Pontos a serem considerados:

  • O que mudaria se esse texto fosse narrado na terceira pessoa?
  • O personagem-narrador poderia descrever o que sente em mais detalhes ou ser mais sucinto?
  • Caso o texto fosse narrado no passado, que impacto isso teria na experiência de leitura?
  • Que emoções esse personagem está tentando expressar nesta passagem?

 

Literatura é abstração. É, como afirma Vargas Llosa, “o denominador comum da experiência humana”. Por ela, um brasileiro pode compreender a dor de um campesino dos bálcãs em uma trama ambientada no nordeste, como em “Abril despedaçado”.

John Yorke disse que “Toda forma de composição artística, como qualquer idioma, tem uma gramática, e essa gramática, essa estrutura, não é apenas uma construção – é a expressão mais bonita e complexa do funcionamento da mente humana. […] Todos os grandes artistas – em música, teatro, literatura e artes [visuais] – têm um entendimento das regras [dessa gramática], seja esse entendimento consciente ou não.” Essa gramática vem sendo desenvolvida ao longo dos séculos e conhecê-la é imprescindível para quem deseja melhorar suas habilidades de escrita. 

Para começar a ler histórias como um escritor, é importante que você entenda essas engrenagens que movimentam todas as narrativas. Assim, você poderá identificá-las nos seus próprios textos e, conscientes delas, encontrar formas de expressar com mais intensidade o que você deseja compartilhar com cada uma das suas histórias. 

 

Sobre o autor: Eber Freitas é jornalista, escritor e criador do blog Livreiro Nômade. Publica arremedos de histórias no Medium.

Sobre o Autor

Diego SchuttLer todos os textos de Diego Schutt
Diego Schutt combina ideias de teoria literária, dramaturgia e psicologia social para ajudar escritores iniciantes e experientes a desenvolver textos com mais confiança, foco e impacto. Sua formação técnica em escrita criativa inclui cursos e oficinas no Brasil, Austrália, Suíça, Estados Unidos, Inglaterra, Japão e Hong Kong. Há 7 anos, ele escreve e edita o Ficção em Tópicos, o site mais completo sobre storytelling em Português.

3 escritores têm algo a dizer sobre este texto

  1. A.Miguel 29/01/2016

    Excelente artigo! Fiquei muito surpreendida com essa passagem do conto de Guimarães Rosa. Tenho mesmo que ler qualquer coisa do autor, não passa deste ano!

  2. Lucas Corrêa de Lima 01/02/2016

    Muito bom mesmo o artigo, parabéns! Mas sobre o “Sorocô, sua mãe, sua filha”, eu realmente não entendi muito bem o que ele queria dizer com o ritmo do conto. Li e reli, mas não consegui. Alguém poderia me ajudar? ^^

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